ALGUNS
EXEMPLOS DE REDAÇÕES ACIMA DA MÉDIA
TEMA A /
VESTIBULAR UNICAMP 99
Nota: A reprodução de todas as redações
é fiel à escrita dos candidatos.
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| Tema A / Vestibular Unicamp 99 |
O Brasil está em vias de completar cinco séculos de existência
aos olhos do mundo europeu. São os já conhecidos 500 anos
de seu descobrimento, que serão comemorados oficialmente em abril
de 2000. Como em qualquer data importante, o momento é oportuno
para um balanço e uma reflexão. O balanço poderia
resultar muito parcial, se se prendesse exclusivamente a fatos econômicos
e a dados sociais circunstanciais. Por isso, faz-se necessário,
neste caso, considerar a questão de quem somos hoje. Tendo isso
em mente, e contando com o apoio obrigatório dos fragmentos abaixo,
escreva uma dissertação sobre o tema
500 anos de Brasil
1. Esqueça tudo o
que você aprendeu na escola sobre o descobrimento do Brasil. (...)
A dois anos das comemorações oficiais pelos 500 anos de descobrimento
do Brasil, os últimos trabalhos de pesquisadores portugueses, espanhóis
e franceses revelam uma história muito mais fascinante e épica
sobre a chegada dos colonizadores portugueses ao Novo Mundo. O primeiro
português a chegar ao Brasil foi o navegador Duarte Pacheco Pereira,
um gênio da astronomia, navegação e geografia e homem
da mais absoluta confiança do rei de Portugal, d. Manuel I. Duarte
Pacheco descobriu o Brasil um ano e meio antes de Cabral, entre novembro
e dezembro de 1498. (...) As novas pesquisas sobre a verdadeira história
do descobrimento sepultam definitivamente a inocente versão ensinada
nas escolas de que Cabral chegou ao Brasil por acaso, depois de ter-se
desviado da sua rota em direção às Índias.
(ISTOÉ, 26 de novembro de 1997.)
2. ... a despeito de nossa
riqueza aparente, somos uma nação pobre em sua generalidade,
onde a distribuição do dinheiro é viciosa, onde a
posse das terras é anacrônica. Aquele anda nas mãos
dos negociantes estrangeiros; estas sob o tacão de alguns senhores
feudais. A grande massa da população, espoliada por dois
lados, arredada do comércio e da lavoura, neste país essencialmente
agrícola, como se costuma dizer, moureja por ali abatida e faminta,
não tendo outra indústria em que trabalhe; pois que até
os palitos e os paus de vassoura mandam-lhe vir do estrangeiro.
(...) povo educado, como um rebanho
mole e automático, sob a vergasta do poder absoluto, vibrada pelos
governadores, vice-reis, capitães-mores e pelos padres da companhia;
povo flagelado por todas as extorsões – nunca fomos, nem somos ainda
uma nação culta, livre e original. (Romero, Sílvio.
História da Literatura Brasileira. 1881.)
3. O Brasil surge e se edifica
a si mesmo, mas não em razão do desígnio de seus colonizadores.
Eles só nos queriam como feitoria lucrativa. Contrariando as suas
expectativas, nos erguemos, imprudentes, inesperadamente, como um novo
povo, distinto de quantos haja, deles inclusive, na busca de nosso ser
e de nosso destino. (...) Somos um povo novo, vale dizer um gênero
singular de gente marcada por nossas matrizes, mas diferente de todas,
sem caminho de retorno a qualquer delas. Esta singularidade nos condena
a nos inventarmos a nós mesmos, uma vez que já não
somos indígenas, nem transplantes ultramarinos de Portugal ou da
África. (Ribeiro, Darcy. O Brasil como problema.1995.)
4. Não conhecemos proletariado,
nem fortunas colossais que jamais se hão de acumular entre nós,
graças aos nossos hábitos e sistema de sucessão. Nem
argentarismo, pior que a tirania, nem pauperismo, pior que a escravidão.
(...)
O Brasil jamais provocou, jamais
agrediu, jamais lesou, jamais humilhou outras nações.
(...)
A estatística dos crimes
depõe muito em favor dos nossos costumes. Viaja-se pelo sertão
sem armas, com plena segurança, topando sempre gente simples,
honesta, serviçal.
Os homens de Estado costumam deixar
o poder mais pobres do que nele entraram. Magistrados subalternos, insuficientemente
remunerados, sustentam terríveis lutas obscuras, em prol da justiça,
contra potentados locais. (...) Quase todos os homens políticos
brasileiros legam a miséria a suas famílias. (Affonso Celso.
Porque me ufano de meu país. 1900.)
5. (…) Se tu vencesses Calabar!
/ Se em vez de portugueses, / ? holandeses!? / Ai de nós! / Ai de
nós sem as coisas deliciosas que em nós moram: / redes, /
rezas, / novenas, / procissões, ? / e essa tristeza, Calabar, /
e essa alegria danada, que se sente / subindo, balançando, a alma
da gente. / Calabar, tu não sentiste / essa alegria gostosa de ser
triste! (Lima, Jorge de. Poesia Completa, vol. 1.)
6. O pau-brasil foi o primeiro
monopólio estatal do Brasil: só a metrópole podia
explorá-lo (ou terceirizar o empreendimento). Seria, também,
o mais duradouro dos cartéis: a exploração só
foi aberta à iniciativa privada em 1872, quando as reservas já
haviam escasseado brutalmente. Exploração não é
o termo: o que houve foi uma devastação, com a derrubada
de 70 milhões de árvores. Como que confirmando a vocação
simbólica, o pau-brasil seria usado, em setembro de 1826, para o
pagamento dos juros do primeiro empréstimo externo tomado pelo Brasil.
Ao deparar com o Tesouro Nacional desprovido de ouro, d. Pedro I enviou
à Inglaterra 50 quintais (3t) de toras de pau-brasil para leiloá-las
em Londres. A esperança do Imperador de saldar a dívida com
o “pau-de-tinta” esbarrou numa inovação tecnológica:
o advento da indústria de anilinas reduzira em muito o valor da
árvore-símbolo do Brasil. Os juros foram pagos com atraso.
Em dinheiro, não em paus. (Bueno, E. (org). História do Brasil.
Empresa Folha da Manhã. 2ª ed. 1997.)
7. Jamais se saberá
com certeza, mas quando os portugueses chegaram à Bahia, os índios
brasileiros somavam mais de 2 milhões - quase três, segundo
alguns autores. Agora, dizimados por gripe, sarampo e varíola, escravizados
aos milhares e exterminados pelas guerras tribais e pelo avanço
da civilização, não passam de 325.652 - menos do que
dois Maracanãs lotados. (...) A idade média dos índios
brasileiros é de 17,5 anos, porque mais da metade da população
tem menos de 15 anos. A expectativa de vida é de 45,6 anos, e a
mortalidade infantil é de 150 para cada mil nascidos. Existem pelo
menos 50 grupos que jamais mantiveram contato com o homem branco, 41 dos
quais nem sequer se sabe onde vivem, embora seu destino já pareça
traçado: a extinção os persegue e ameaça. (Bueno,
E. (org). História do Brasil. Empresa Folha da Manhã. 2ª
ed. 1997.)
8. Há um Código
de Defesa do Consumidor, há leis que cuidam do racismo, do direito
de greve, dos crimes hediondos, do juizado de pequenas causas, do sigilo
da conversação telefônica, da tortura, etc. O país
cresceu. (Carvalho Filho, L. F. Folha de S. Paulo. 3 de outubro de 1998.)
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| Expectativa da Banca Elaboradora |
500 anos de Brasil
Qualquer comemoração liga uma data presente a um acontecimento
passado, encarado como marco historicamente importante. Nesse caso, o acontecimento
que se comemora é a chegada às costas brasileiras das naus
de Cabral, mas o enunciado da dissertação deixa claro: não
se espera que o candidato trate dos episódios que presumivelmente
ocorreram em abril de 1500, e que a História reuniu sob a denominação
de “Descobrimento do Brasil”. Trata-se, sim, de ver o descobrimento como
marco inicial do processo histórico que resultou na nação
brasileira que somos hoje (“quem somos”). Espera-se, pois, que o candidato
use os quinhentos anos do descobrimento como motivo para um balanço
desse processo, optando por um dos tantos enfoques sugeridos pela coletânea.
Descrevem-se a seguir alguns desses enfoques possíveis:
I - Balanço favorável:
-
A nação brasileira pode considerar-se verdadeiramente emancipada,
em termos étnicos e culturais, no sentido de ter desenvolvido uma
cultura própria, ou mesmo de ser uma raça diferente. Na coletânea,
essas posições são defendidas pelos dois textos que
propõem os balanços mais otimistas para o país, o
de Darcy Ribeiro, para quem os elementos indígena, português
e africano se combinaram em uma nova etnia, que já não se
confunde com nenhuma daquelas; e o de Afonso Celso, para quem haveria uma
índole brasileira, profundamente pacífica e radicalmente
avessa à ganância e à exploração.
-
A herança portuguesa foi positiva para a cultura brasileira. O poema
Calabar, de Jorge de Lima, aponta dois traços da cultura brasileira
que teriam sido irremediavelmente perdidos se os holandeses tivessem tido
sucesso em sua invasão do século XVII: a forte presença
do catolicismo em suas devoções religiosas e festas populares,
e a força dos sentimentos e das emoções. O candidato
poderia acrescentar ainda outras marcas portuguesas na cultura brasileira,
como a língua, a cordialidade, a forma de lidar com a diversidade
racial, etc.
-
Somos hoje uma nação com uma sociedade civil amadurecida,
como apontam algumas leis mais ou menos recentes que zelam pela convivência
social: o Código de defesa do consumidor, as leis que cuidam do
racismo, dos crimes hediondos, etc.
II - Balanço desfavorável:
-
O candidato poderá lembrar que a história que remonta ao
descobrimento de Cabral foi por muito tempo a de um país-colônia.
Para um autor como Sílvio Romero, o Brasil era, e seria por muito
tempo uma nação inculta, dependente e servil, arrastando
um atraso de origem colonial. Ao passado colonial remonta também
a mentalidade predatória que provocou a dizimação
das populações indígenas e que levou à exploração
descontrolada dos recursos naturais (FSP, História do
Brasil). Pode-se mostrar outras permanências do passado colonial,
como a má distribuição da renda e a espoliação
do povo pelos mais abastados (Sílvio Romero).
III - Meio termo:
O candidato poderá usar os fragmentos da coletânea,
favoráveis ou desfavoráveis, e desenvolver uma terceira posição,
levando em conta, de maneira equilibrada, os elementos fornecidos pelos
fragmentos.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: ABDSANDRYK CUNHA DE SOUZA
Cidade: GOIÂNIA-GO
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA ELÉTRICA
(D)
Enterrando o passado
Às margens do ano 2000, o Brasil começa a voltar suas
atenções para a comemoração de seus 500 anos
de descobrimento, mesmo que recentemente pesquisas revelem equívocos
históricos que comprometeriam a precisão de tal momento.
A evidenciação do fato inspira nos mais críticos um
momento de reflexão, notadamente iniciado na análise histórica
que remete uma explicação para a atual situação
do país.
A volta ao passado evidencia uma visão histórica depreciativa
pois o enfoque é dado pela visão do europeu, que por vezes
retrata tendenciosamente fatos indispensáveis à compreensão
da realidade. Livros revelam navegadores como heróis, nações
européias mitificadas, uma postura contemplativa por um lado, mas
distorce a imagem do novo mundo. Nesse princípio fica clara uma
concepção capitalista, a oposição entre o rico
e o pobre, o poder e a miséria, característicos do cenário
de dominação.
Dessa forma, o Brasil foi colocado de forma marginalizada, uma postura
negativa que empobreceu os valores racionais. Não há quem
contemple a riqueza natural, sem ressaltar a pobreza espiritual daqueles
que vivem e administram esse país. A visão dos historiadores
foi uma herança que entrou na cultura do povo, infelizmente. Desde
o princípio fixou-se uma imagem de terra explorada, quintal do mundo
desenvolvido, isto é, o Brasil é o mundo subdesenvolvido.
-Para completar essa classificação, ou melhor, essa rotulação,
inseriram nas relações passadas o bom colonizador, aquele
que trouxe a religião, o ensino, uma maneira de desbrutalizar o
povo americano. Assim, asseguraram mais uma vez a superioridade do europeu,
agora benevolente.
Nota-se claramente que sempre predominou uma análise que
jamais revelaria um momento de comemoração. O brasileiro
não consegue somar à sua postura de vida os valores nacionalistas.
O único orgulho do povo é o esporte, pelo menos evidenciado
a âmbito nacional. Isso fica claro quando comparamos o aniversário
da Independência do Brasil com os jogos de copa do mundo. Politicamente
essa é a atual visão do povo, e economicamente, o státus
que desfruta o país leva a mais uma decepção. A herança
colonial perdurou inclusive no aspecto social, pois ainda dividimos a sociedade
de acordo com os preceitos do passado, inclusive etnicamente, estruturada
nas grandes diferenças de classes.
A triste concepção de desenvolvimento jamais buscou,
porém, elevar os valores, inclusive históricos, do povo brasileiro.
Na visão ufanista talvez, ainda possamos encontrar a luta que envolveu
a conquista do título de nação, a singular busca de
autonomia e respeito, a excêntrica cultura nacional, a mesma que
há muito vem sendo marginalizada pela postura de subordinação
nacional. Infelizmente, ao pensarmos desta forma surge a crítica
destrutiva, a desvalorização daqueles que buscam fugir do
passado presente na conduta do povo que compõe o Brasil atual.
O materialismo capitalista destruiu o passado, destruiu muitas das
riquezas do país, o índio, a mata, o povo. Na atual mistura
de raças, não se reconhece o indivíduo capaz de valorizar
e engrandecer o país. Deve-se lembrar que o país, essa nação,
enfrentou situações terríveis, e por estar na atual
situação, venceu. O potencial é enorme, basta que
este povo seja o primeiro a coletivamente perceber isso e lutar por fazer
de tais riquezas um bem ao país, e não aos que destruíram
muito da fertilidade desta nação. Somos hoje uma semente,
livre, que pode fazer do futuro um motivo de comemoração.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: ALESSANDRA DE ANDRADE RIBEIRO
Cidade: RIBEIRÃO PRETO-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIAS
SOCIAIS (D)
500 anos de colônia
Ao estudarmos nossa história, desde seu descobrimento até
os dias de hoje, depreendemos que, em muitos aspectos o Brasil mudou, mas
em outros pontos essenciais ele continua o mesmo.
Antes haviam grupos indígenas e seus rituais próprios de
iniciação, escravos negros e carroças. Hoje há
Carla Peres para todos, proletários morenos, carros importados.
Sim, houve mudanças, como vemos claramente, de uma cultura variada,
ou várias culturas, para a cultura de nossa massa, da tecnologia
precária das caravelas para a tecnologia de ponta dos clones.
Voltemos ao descobrimento. Este foi realizado já no início
do desenvolvimento do sistema capitalista, durante o denominado Mercantilismo.
A intenção das navegações que corriam nesta
época era de conquistar novas terras para obter matérias-primas,
novos mercados, capturar a riqueza das novas terras, ampliar o império
dos colonizadores e realizar comércio. O discurso pregado desta
época para justificar estas ações era o religioso,
colonizar e catequisar para salvar almas. Fez-se, então, no Brasil
e nas Américas, o etinocídio e o genocídio de índios
em nome destas bandeiras, porém, sempre com intenções
financeiras e de hegemonia como base e estimulante.
Durante a Monarquia havia um rei e sua corte muitos a serem comandados
e dominados por seu poder e autoridade. Hoje há a República
e a Democracia como regimes políticos, um presidente e uma minoria
da elite possuidora de grande parte do capital produzido e da cultura desenvolvida,
por um lado. Por outro, continua havendo uma grande maioria que é
dominada e comandada, com, ainda, pouquíssimos recursos financeiros,
? e raras são as excessões ? intelectuais e culturais. Vemos,
portanto, que nem tudo mudou, apesar das mudanças ocorridas.
Mas, se por quinhentos anos vemos esta mesma situação,
de disparidades sociais e dominação, por que, afinal, com
tantas mudanças estes aspectos, em seu âmago, ainda continuam
os mesmos? Sim, podemos ver que houve revolta na tentativa de mudanças
mais profundas, como a Inconfidência Mineira e os movimentos estudantis
da déc. de 60, passando pela conjuração Baiana e por
Canudos, mas todos foram fortemente reprimidos. Além da repressão
ocorrida e existente ainda hoje, há outro fator agravante, a alienação,
que possibilita a manutenção do status-quo. Esta minoria
dominante lança conjuntos de idéias nos Aparelhos Ideológicos
de Estado, segundo o conceito de Althusser, que escamoteiam a realidade
e impedem que a grande massa tome consciência dos fatos, de suas
verdadeiras razões e de suas implicações, e, com isto,
que realizem mudanças afetivas. Vimos que antes havia o discurso
da catequese, hoje há o de que nosso país é o oitavo
no PIB, que estamos eliminando o analfabetismo, de que só não
enriquece quem é preguiçoso e não trabalha. Estes
são discursos ideológicos que escondem a verdadeira face
da história de que há os que dominam e agem de acordo com
as descrições de Maquiavel e há os dominados. Há
os países do primeiro mundo e há as colônias. Esta
questão, da divisão de rendas e conhecimento é estrutural
e aniversariante ? fará 500 anos no ano 2000.
Assim, podemos depreender que se por um lado há a evolução
e revolução tecnológica, discussões sobre assédio
sexual, propagandas para o uso de cinto-de-segurança e rede de esgoto
encanada, há também escravos assalariados, uma pequena corte
dominadora, favelas, países imperadores e colônias subdesenvolvidas
com seus índios a serem “catequisados”. Muitas mudanças e
poucas mudanças afetivas.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: ALEXANDRE ALOISIO MALDANER
Cidade: CHAPECÓ-SC
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA DE
COMPUTAÇÃO
O Brasil se construiu com base numa história de distorções.
A sociedade contemporânea é o resultado de um longo processo
de erros, mentiras e grandes problemas não resolvidos . A moldura
da história brasileira é marcada pelas injustiças
e desigualdades que assolam este país.
O festival de enganações começa com o descobrimento
e segue firme ao longo dos séculos. Descoberto pelos portugueses,
o Brasil se inseriu nos quadros do Antigo Sistema Colonial, satisfazendo
aos interesses externos. Na época de colônia começaram
as grandes desigualdades sociais, “marca registrada” da nação.
A opressão social, com o único interesse de preservar a hegemonia
de uma pequena elite, é o berço das terríveis injustiças
que caracterizam a sociedade. Explorado pela metrópole, o Brasil
tomava o rumo da inevitável dependência econômica. O
papel dos colonizadores foi colocar o país no caminho do subdesenvolvimento.
Vários são os exemplos de falseamento ideológico no
Brasil colônia perpetuados pela história. O descobrimento
em si contém uma farsa: jamais foi casual, como a história
quis fazer acreditar. Daí em diante vieram outras mentiras, referentes
a diversos aspectos: os contatos com os indígenas, a escravidão
e o tráfico negreiro, os interesses dos colonizadores, a missão
da igreja de trazer o cristianismo para os “povos pagãos” daqui.
Há até a falsa idéia de que, fosse o Brasil colonizado
por outra metrópole — Inglaterra ou Holanda —, não seria
economicamente atrasado. Ora, os interesses seriam os mesmos, e a preocupação
com a população pobre e oprimida seria igualmente nula.
Veio a “independência” e cresceram os espaços para o agravamento
da situação. Que independência era aquela em que se
preservavam todos os interesses externos em detrimento da real emancipação
político- econômica? Manutenção da escravidão,
crescimento constante das desigualdades, descaso das autoridades. Tanto
na Monarquia como na República os problemas endêmicos do país
permaneceram: concentração de terras e de renda, inexistência
de oportunidades para a maioria, pobreza, fome, analfabetismo, desemprego.
E as distorções estão sempre presentes, de acordo
com os interesses dos grupos dominantes, tentando mostrar que o país
vai bem. Foi assim na época da ascensão do café, na
Era Vargas, no golpe militar com o “milagre econômico” e, atualmente,
no Plano Real.
Efetivamente, houve fases de relativa prosperidade, com melhorias em alguns
aspectos. Mas em nenhum momento houve ruptura com os laços históricos
de subordinação externa; nunca foram tomadas medidas para
cortar pela raiz os problemas do “Zé Povão”.
Diante de um quadro histórico tão assustador, as perspectivas
de futuro e a situação presente podem parecer extremamente
perversas. Afinal, são enormes os problemas da gente brasileira
e não são nada animadoras as relações do Brasil
com os países desenvolvidos: endividamento crescente, insegurança
dos investidores, déficit comercial. Os erros históricos
são fatores determinantes no Brasil de hoje.
Há, contudo, um elemento fundamental nesse povo sofrido, nesse país
de contrastes. É um elemento que mantém o país na
expectativa de um futuro melhor, indispensável para tornar o Brasil
grande, como são grandes suas riquezas, seu território e
sua gente. Esse elemento é a esperança. Aliada à força
de vontade para mudar, para fazer o país crescer, para trabalhar,
a esperança pode conduzir o Brasil a uma nova história, livre
das amarras impostas pelos séculos de dificuldades.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: ANA CAROLINA FREIRE COSTA
Cidade: CAMPINAS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
Um Brasil em formação
Quando se fala em um país, é um processo natural a
formação de uma idéia estereotipada na mente de qualquer
pessoa. Esta associação tende a uma generalização
demasiada e raras vezes condizentes com a realidade. A Holanda tem moinhos
e liberdade às drogas em Amsterdam. Já a Inglaterra conta
com a respeitável Rainha Elizabeth II e também com os Hooligans
que aterrorizaram Paris. De forma análoga, o Brasil está
associado a mulatas, futebol, natureza exuberante, além de adjetivos
recorrentes como “paraíso fiscal” e país pacífico
com democracia racial. Mas generalizações, não raro,
tendem ao erro.
A criação de mitos sempre acompanhou nossa história.
O primeiro foi Cabral e sua chegada acidental à costa brasileira.
Pesquisas vieram esclarecer que outro navegador chegara antes ao país,
fato que desmonta a farsa do desvio na rota de Cabral às Índias.
Não obstante, tal desvio sempre fora duvidoso, tendo base nas mudanças
no Tratado de Tordesilhas à época da expansão ultramarina.
Outro mito que nos pertence é o do “país sem racismo”. Nada
tão longe da realidade. A disparidade salarial entre negros e brancos
é ultrajante. Além disso, os índios, primeiros habitantes
dessa terra, hoje, lutam por reservas na floresta Amazônica e enfrentam
dificuldades. Algumas tribos permanecem desconhecidas aos brancos, escondidas
no interior da selva, e, desta forma asseguram sua sobrevivência.
Esse conjunto de dados reais apontam para um Brasil com vários povos
ainda não integrados, fugindo à ideal miscigenação
que, além de racial, deveria ser cultural. Falta-nos o respeito
mútuo.
Muito se fala em país pacífico. Não será preciso
mencionar a guerra civil que os brasileiros vivem nas ruas diariamente,
fugindo de assaltantes, desconfiando da polícia. Todavia, mesmo
no plano internacional, não merecemos tal caracterização.
O Brasil massacrou o Paraguai na pouco comentada Guerra do Paraguai. Se
não carregamos a fama de assassinos como os nazistas alemães,
devemos agradecer à inexistência de um Spielberg “made in
Paraguai”.
Há que se citar nossa persistente posição de colônia.
Nossa independência foi política, mas nunca financeira. Portugal
utilizou nosso pau-brasil para pagar dívidas com a Inglaterra, e,
há alguns meses, vendemos nossas estatais visando o pagamento de
dívida externa. Por independência econômica, sofremos
o imperialismo americano e somos pressionados a aceitar o ALCA.
Entretanto, nosso mito mais desonroso está na política. Há
no país políticos presenteados com total impunidade para
seus atos, que não se esforçam para construir um país
melhor. Nossas leis são obsoletas e permitem uma série de
ilegalidades pela falta de rigor. A falta de fiscalização
nos confere o título de paraíso fiscal, e essa visão
é veiculada pelo globo.
Mas não podemos deixar de fazer ressalvas. A maioria dos brasileiros
quer ajudar a transformar nosso país. Em meio a tantos mitos e verdades
perde-se a noção do caminho a seguir. Enquanto dizem que
nosso nacionalismo só vem à tona no Carnaval e na Copa do
Mundo de Futebol, organizamos campanhas contra a fome e violência.
Temos protestos, manifestações, lutamos por um novo país.
A falha integração de nossos povos vem dando lugar à
unidade em esperanças por mudanças.
Em 500 anos de Brasil, ou muito mais quando consideramos o período
somente de índios, a realidade do Brasil é extremamente complexa.
E é exatamente essa complexidade que garante sermos únicos.
Um país com calor humano, gente alegre e sofrida, honesta
e desonesta. Somos um país em formação.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: ANA CAROLINA SANTOS DE SOUZA
Cidade: SÃO JOSÉ DOS CAMPOS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA CIVIL
Brasil, ainda colônia?
Embora existam controvérsias a respeito da verdadeira data do descobrimento
do Brasil, o país prepara-se para comemorar os seus quinhentos anos
e nesse instante abre-se espaço para uma reflexão sobre o
que foi e o que é aquela ex-colônia portuguesa, hoje um dos
países líderes da América do Sul. Será que
este “país emergente” mudou tanto em relação a colônia
de exploração que outrora fôra? Dívida externa,
massacre de índios, má distribuição de renda,
exploração econômica e política. Em certos aspectos
é difícil diferenciar a colônia portuguesa do país
atual, mais difícil ainda é traçar o perfil do brasileiro
“atual”.
Outrora o pau-brasil, hoje uma infinidade de produtos. Se antes a colônia
se submetia ao domínio e exploração dos portugueses,
atualmente o país, apesar de contar com maior liberdade, ainda se
submete ao poder das atuais potências econômicas. O pau-brasil
dera lugar a madeira de lei, ao látex e outros produtos do extrativismo
vegetal, mas além destes vê-se “fugir” do país enormes
quantidades de minérios e produtos agrícolas, elementos relativamente
baratos cuja exportação não rende ao país o
suficiente para cobrir suas elevadas dívidas, frutos das importações
de tecnologia e outros produtos bem mais raros que os exportados pelo país.
A dívida externa permanece, o pau-brasil não conseguira pagá-la
nos tempos de colônia e o país atual também dela não
consegue se livrar.
Num país atolado em dívidas, o nível de vida da população
é conseqüência de tal. Apesar de rico, há no Brasil
um enorme contingente de pobres gerados pela má distribuição
de renda. Seja na cidade ou no campo, a pobreza aumenta, os contrastes
sociais são marcantes. O caos começa no campo onde grandes
propriedades concentram-se nas mãos de poucos e a maioria tem que
dividir o pouco que resta. Nessa luta nem as terras indígenas são
respeitadas, o “homem branco” rouba a terra, destrói a cultura,
extermina os índios. Nesse contexto, mais uma vez nos deparamos
frente a dificuldade em diferenciar a colônia do Brasil independente
de hoje.
As cidades refletem as crises no campo, as máquinas roubam empregos
de muitos camponeses, já não bastassem os donos das máquinas
roubarem suas terras também. Com isso aumenta o êxodo rural,
as cidades tornam-se “aglomerados humanos” que nem sempre têm condições
de abrigar tanta gente. A pobreza se instala, acentuam-se as diferenças
centro-periferia.
Nota-se portanto, que apesar do Brasil ter mudado tanto nestes seus quase
quinhentos anos de descobrimento, muito daquela colônia portuguesa
ainda apresenta, seja na mentalidade do povo sempre submisso seja na própria
submissão do país. No campo ou na cidade as condições
de vida continuam ruins, o povo ainda sofre. A economia agrário-exportadora,
o domínio das elites, enfim, elementos do Brasil colônia insistem
em perseguir o líder do Mercosul. Resta o povo exercer na pátria
sua cidadania, pois esta é sem dúvida sua maior conquista
e talvez o único caminho para uma mudança que realmente diferencie
a colônia de Cabral do Brasil de hoje, para assim poder-se definir
a cara de um verdadeiro povo brasileiro, a cara do próprio Brasil.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: BEATRIZ FERNANDA VALES FRANCHITO
Cidade: RIO CLARO-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
República Tupiniquim
Preparamo-nos para comemorar 500 anos do Descobrimento do Brasil, e em
meio à parafernália comemorativa exibida pela mídia,
esquecemo-nos do Brasil Real, com todas as suas feridas sociais e seu subdesenvolvimento.
No ano de 1998, cinco séculos após o despontar da ‘Terra
de Vera Cruz’ aos olhos do mundo europeu, o país ainda conserva
traços que legitimam sua posição de ‘Feitoria Lucrativa’:
milhares de toneladas de produtos brasileiros são exportadas anualmente
por valores quase que simbólicos, confirmando a vocação
brasileira à exploração e à submissão.
Atualmente o país submete-se aos arrochos estipulados por nações
imperialistas, reassumindo seu antigo papel de ‘Colônia de exploração’
no há muito desgastado ‘Pacto Colonial’ dos séculos XVIII
e XIX. A modernização pouco transformou as relações
internacionais, como também desgastou as internas: o país
ainda padece das mais primitivas mazelas sócio-econômicas,
como a fome, miséria, pouca infra-estrutura urbana e educacional,
configurando um quadro de pobreza em sua generalidade.
Diante de tantas objeções, a comemoração parece
perder seu sentido: o mítico avanço da civilização
brasileira ignora as mais arcaicas espoliações ainda sofridas
por grande parte da população, assim como gradativa perda
de identidade sofrida pela nação brasileira, bombardeada
por informações e comportamentos derivados do protótipo
social americano, largamente difundido pela mídia. Fast-food, jeans
e pagers ganharam projeção nacionais, sendo considerados
‘indispensáveis à vida dos cidadãos brasileiros’.
A imensa festa de aniversário assume apenas caráter alegórico,
onde seus patrocinadores, aproveitando-se do desgastado sentimento nacionalista
dos brasileiros, tentam, inescrupulosamente, vender seus produtos. A real
simbologia do Descobrimento da Terra Brasileira, a partir de suas características
singulares e marcantes não obstante, tendo em vista o contexto histórico
presenciado pela população do Brasil, o momento sugere reflexão,
consciência, atuação comunitária e governamental,
para que a data de Descobrimento do Brasil projete o povo brasileiro não
por sua inconsistência, mas em vista de sua liberdade, originalidade
e desenvolvimento.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: BRUNO BERTACINI GONZAGA
Cidade: SÃO CARLOS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA DE
COMPUTAÇÃO
A semente germinará
Ilusões... descobertas... renascimento. Crianças na escala
evolutiva, o Brasil e seu povo, após quinhentos anos de inconstâncias
de identidade étnica-cultural, procuram desenhar sua bandeira retirando
as manchas passadistas e fixando-a em firme solo. Trabalho árduo!
As manchas, matizadas durante sua formação, originaram uma
nação singular mas, incondicionalmente submissa.
O Brasil analogamente aos outros países da América Latina,
África e Ásia, foi concebido como território lucrativo
para as potências européias satisfazerem seu ideal mercantilista.
Na ânsia capitalista ignoraram a população nativa indígena
aniquilando-os; trouxeram escravos africanos para a tortura em território
estranho; estabeleceram-se de forma autoritária no solo virginal.
Neste enorme caldeirão étnico implantado bruscamente por
mãos absolutistas e composto por uma massa torturada o resultado
foi inevitável: a criação de uma nova raça
sem identidade cultural, originalidade e presa a interesses externos.
É importante lembrar ainda que, após a saga portuguesa, holandesa,
inglesa em solo brasileiro subtraindo suas riquezas naturais (Pau-Brasil,
metais preciosos) e explorando o trabalho humano, criou-se espaço
para uma outra forma de dominação, igualmente nociva, intensificando
a “crise existencial” brasileira: a dominação cultural, principalmente
norte-americana.
Entretanto, às vésperas de atingir sua puberdade, a nação
busca suas raízes para estabelecer-se no cenário mundial.
Antigos concertos históricos induzidos pelos exploradores estão
desfacelando-se, resgatando da ilusão a juvenil população.
O Brasil não foi descoberto; foi arquitetado. Norte-americanos não
são cordiais; são dominadores. Políticos não
são representantes dos indivíduos; são parasitas.
Nesta busca, portanto, percebe-se que os brasileiros não são
reflexos de seus colonizadores, mas sim uma mistura étnica e cultural
inigualável. É inevitável, porém, que os resquícios
do passado interfiram na sociedade assemelhando-a às “pátrias-mãe”,
bipolarizando-a entre poderosos e oprimidos no ambiente interno e externo.
O importante é que, ao final das descobertas ou redescobertas o
Brasil concluirá que não é o fruto do passado, mas
a semente do amanhã.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: CAROLINA CODA MACHADO
Cidade: SÃO CARLOS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: ARQUITETURA E
URBANISMO
Realmente, é de se estranhar que a rota das caravelas comandadas
por Cabral tenha desviado tanto e, sorte, acabaram se deparando com terras
nunca antes conhecidas por homens europeus. Surgem aí teorias, explicações,
hipóteses, histórias que dão novas versões
ao descobrimento das terras futuramente formadoras de um país chamado
Brasil. Deixando tal dilema a parte, podemos perceber questões bem
mais importantes a serem discutidas sobre esse país. E nada melhor
do que a proximidade da data, mesmo que simbólica, de comemoração
de 500 anos de descobrimento do Brasil.
Voltemos, então, ao passado. Passado que leva ao presente; passado
cujo estudo revela episódios que terão por conseqüência
a realidade que vivemos hoje.
Antes da chegada dos portugueses, milhões de índios
ocupavam o território brasileiro. Atualmente, existem apenas alguns
milhares. Foram dizimados por doenças trazidas pelos brancos, escravizados,
catequizados, chacinados. Perderam suas terras, sua liberdade, sua religião,
sua cultura, sua identidade como povo. Encontram-se, nos dias atuais, limitados
às reservas indígenas, entrando muitas vezes em conflito
com garimpeiros e fazendeiros. Observa-se a primeira injustiça social
no Brasil: o homem branco, julgando-se mais desenvolvido, superior, tira
do índio todo e qualquer direito. Quando entra para a história,
o Brasil perde simultaneamente a história do povo indígena.
Podemos pensar no que aconteceria se não fôssemos colonizados
pelos portugueses, mas sim por outro país europeu. Certamente estaríamos
na mesma situação de subdesenvolvimento, miséria,
precariedade, injustiças sociais. O motivo disso é o contexto
histórico da descoberta do Brasil. O mundo era mercantilista e procurava
novos mercados para vender suas manufaturas e para adquirir matéria-prima.
Qualquer fosse nosso colonizador, transformaría-nos em uma colônia
de exploração, e, da mesma forma que fizeram os portugueses,
extrairia toda riqueza que pudessem. A diferença é que perderíamos
os legados culturais portugueses, como a língua. Talvez fossemos
hoje mais loiros. Calabar não foi traidor. Nem herói. Foi
apenas um ingênuo ao acreditar que os holandeses seriam melhores
que os portugueses para o Brasil.
Como ocorrem com as pessoas, os problemas do Brasil surgem desde sua infância,
aumentam na adolescência e florescem quando adultas. A economia brasileira
sempre voltou-se para a exportação, com seu ciclos econômicos
pouco duráveis e importadores de crises. Passamos pelo ciclo da
cana, ouro, borracha, café... Sempre houve uma oligarquia latifundiária,
que concentrava poderes e riquezas. Nunca existiu preocupação
com educação para a população, desenvolvimento
de tecnologias e condições de vida.
Mesmo com quinhentos anos passados, percebe-se a mesma situação:
a terra ainda concentrava-se nas mãos de poucos, assim como o poder
e o dinheiro. Ainda somos um povo colonizado – hoje mais discretamente,
debaixo do pano, pela cultura e economia americana – e servimos aos interesses
de grupos exteriores. Não existe indústria brasileira, pois
não há tecnologia brasileira, isso graças a falta
de ensino. Da mesma forma como ocorria há muitos anos, quando a
chega a crise, cortam-se os recursos da saúde e educação.
Os privilégios são mantidos sempre à elite.
Apesar de tudo, o país cresceu. Criamos uma identidade própria.
Não somos mais índios, portugueses, africanos... Formamos
uma nação, fruto da mistura de culturas. Surgiram movimentos
culturais inéditos. De um setor da economia, tornamo-nos uma economia;
digam o que quiserem, mas isso não há como negar. Criamos
obras literárias, músicas, estilos arquitetônicos...
Somos um povo. Somos definitivamente, o povo brasileiro.
Os 500 anos de Brasil revelam uma nação sempre explorada,
por ser rica, mas que, entre seus contrastes, vê o nascimento de
um povo, igualmente explorado, por ser rico. Querem, é claro, apagar
nosso passado, através do qual percebemos os erros e tentamos evitar
que ocorram novamente. Querem, é claro, acabar com a identidade
que temos como povo, para assim manter o caminho que lhes é proveitoso.
O que espera-se é que baste 500 anos para acordar, de uma vez, esse
gigante adormecido que é o Brasil.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: CAROLINA FIORI
Cidade: VALINHOS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
Comemorar quinhentos anos... Por quê?
Proximidade do ano dois mil, o Brasil abre as portas para o terceiro milênio
e, simultaneamente, o País comemora quinhentos anos de existência.
Anos que não são orgulho para nenhum dos brasileiros. Afinal,
os tempos mudaram, os anos se passaram e, na essência, o Brasil continua
a ser o mesmo paraíso de falcatruas, misérias e devastação
social. Conta a história, de maneira eufemística, que os
portugueses que aqui aportaram por engano, crendo que aqui fosse as tão
cobiçadas Índias. Erro de marujo? Claro que não...
A História moderna rompe com uma visão infantilizada e puxa
o manto róseo que escondia por debaixo a História do nosso
Brasil, explorado e relegado a fornecedor de produtos a baixos custos.
Desde a chegada dos portugueses ao Brasil, a exploração de
produtos tropicais fez-se uma constante. Primeiramente, o pau-brasil e,
posteriormente o ouro e metais preciosos de Minas Gerais, as drogas do
sertão, a borracha da Amazônia, etc. Sob o regime de Pacto
Colonial, o lucro ia direto para os cofres portugueses. Depois vieram as
monoculturas de açúcar em Pernambuco e algodão, no
Maranhão. Todo o lucro então, era enviado à Europa.
Invasões holandesas, francesas e, o lucro tinha como destino a Europa.
Ao Brasil, portanto, restava apenas a condição de subjugado
e grande importador de gêneros de primeira necessidade.
O que se sabe, no entanto, é que nem só de interesses mercantis
vive a História. Juntamente com os portugueses, veio a idéia
de catequização dos nativos brasileiros e a tentativa de
enobrecer de fé a meia-alma que os portugueses julgavam que os índios
possuíam. O resultado foi o extermínio de milhares de indígenas,
destruição quase que total de uma cultura e a benção
da Igreja por ter aberto as portas do Senhor para meia dúzia de
tribos. A implantação da monocultura trouxe os negros da
África para trabalharem em regime escravocrata. Esses, segundo a
fé lusitana, nem alma possuíam. Depois vieram os imigrantes
europeus (italianos, alemães, franceses, etc.) e asiáticos
(japoneses, chineses, coreanos) engrossar o caldeirão étnico,
que hoje representa toda a população brasileira.
Em mil oitocentos e oito, com a vinda da corte portuguesa ao Brasil e a
assinatura dos tratados de Abertura dos Portos, o Brasil ensaia os primeiros
passos para a independência política. Porém, a independência
econômica não se estabelece. O Brasil, então, passou
a conceder benefícios à Inglaterra e outras “nações
amigas”. Esse panorama perdurou até o advento da monocultura cafeeira
– finalmente, o café para ser o primeiro produto verdadeiramente
brasileiro. Ao Brasil cabia a produção, o comércio
e o lucro; embora a necessidade de ajuda externa não fosse descartada.
Tudo corria dentro dos conformes até a queda da bolsa de Nova Iorque,
em vinte e nove. O episódio serviu para o Brasil assistir a amarga
verdade estampada na cara de país exportador de sobremesa, dependente
e atrasado economicamente. Entra Vargas, sai Vargas, JK, governos militares
– o Brasil cresce absurdamente ao olhos do povo e, junto com o desenvolvimento
tardio e desgovernado, a dívida externa brasileira faz-se o maior
bicho-papão da História.
Inflação nas alturas, desigualdades herdadas desde o Período
Colonial, governos ditatoriais, fraudulentos, corruptos ou incompetentes.
A crise social parece inevitável e, com ela cresce o número
de miseráveis, desempregados, ignorantes; a violência e a
marginalização nas grandes cidades; o abismo entre ricos
e pobres; contrabando, bandidagem, crimes e comércio ilegal de armas
e drogas. A indústria no Brasil não é verdadeiramente
brasileira, depende-se de capitais externos, importa-se de tudo, desde
palitos de dentes até máquinas da mais alta tecnologia. A
justiça é lenta e, muitas vezes, não surte efeitos
desejados. Mergulha-se cada vez mais no poço que parece não
ter fundo – o poço das desigualdades, do terceiro-mundismo, condição
de país exportador de matérias-primas, de país dependente
e fragilizado.
Dentro desse contexto, o Brasil entra para o terceiro milênio e apaga
quinhentas velinhas sem ganhar presente! A independência econômica
está longe de se tornar realidade. O que resta é comemorar
com pizza e carnaval? O mais adequado e convincente é deixar a festa
para depois e trilhar o caminho do desenvolvimento próprio. Educar
e politizar a população brasileira, fazer reforma agrária,
combater as violências urbana e rural, investir em programas assintenciais,
combater o racismo, tratar a Saúde, cuidar da Justiça; enfim,
reformar toda a estrutura social, econômica e política brasileira.
Talvez, transformar o Brasil em um país mais igualitário
e economicamente independente, requeira outros quinhentos anos de história,
mas estes quinhentos anos podem ser muito bem comemorados se nós,
brasileiros, começarmos a trabalhar desde já.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: DANIELA GOMES MIYAZATO
Cidade: SANTA BÁRBARA DO OESTE-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
O Brasil em Seus 500 Anos
Às vésperas de completar 500 anos de descobrimento o Brasil
é uma nação bastante diferente do que fora na época
de Cabral. Ao longo desses 5 séculos de história oficial
tivemos um rítmo de desenvolvimento próprio, às vezes
lento, outras, frenético. A história de nosso país
é rica; rica de fatos, de povos, de luta, de diversidade. Entretanto,
o momento é de reflexão: temos quase 500 anos; já
fomos colônia, sede de Império, Reino independente e, finalmente,
República. Tivemos governos conservadores, populistas, progressistas
e ditadores; mas, quem somos nós agora?
Para iniciarmos esse balanço do Brasil atual, devemos remeter-nos
aos primórdios do que conhecemos de nossa história. Já
neste momento nos deparamos com dificuldades em afirmar a verdadeira data
do “nascimento” do Brasil: há dúvidas se não teria
ocorrido um ano e meio antes da data oficial (fato que teria sido mantido
em sigilo por interesses do Império Português).
Em seguida devemos analisar o tratamento por estas terras recebido de seus
“descobridores”. Fomos abandonados em nossos primeiros anos de vida, para
depois sermos devastados e explorados de forma a darmos o maior lucro possível
para Portugal, nossa metrópole; tudo dentro da lógica do
colonialismo vigente na época. Nesse momento, nosso país
era povoado por comunidades independentes, nativas as quais ao longo dos
anos foram massacradas pela escravidão e imposição
da cultura européia aos seus. Hoje, é um povo quase extinto,
sofrido e que vive às margens do crescimento alcançado pelo
país, como se dele não fizesse parte. Se outro reino tivesse
tomado posse de nossas terras teria sido diferente? Provavelmente não;
o mercantilismo dos anos 1500 era o mesmo para todos.
Após a explícita exploração externa do Pacto
Colonial, passamos por uma fase diferente na aparência: éramos
legalmente independentes aos olhos do mundo, mas atrelados a economias
externas desde a implantação de nossa própria máquina
estatal (herdada dos anos de permanência da família real e
corte portuguesas no Brasil). Parece que “desde sempre” estamos envolvidos
com dívida externa, pagamento de juros, esgotamento de nossos recursos
e reservas para atender a interesses de potências internacionais:
Inglaterra, Holanda, Estados Unidos da América, etc., cada um a
seu tempo.
Nosso povo, este sofre e luta e sofre e luta, mas não se abate.
É constituído de uma mistura de raças, cores, costumes
e nacionalidades; é único em sua diversidade, não
se pode observá-lo e afirmar que teve origem determinada. Hoje,
luta contra o desemprego, a miséria e a ausência de cidadania,
cinqüenta anos após as Nações Unidas divulgarem
a Declaração dos Direitos Humanos, assinada também
pelo Brasil. Assiste à sucessão dos homens que legislam e
dirigem o país vendo-os, entretanto, sempre os mesmos. Briga com
a concentração de rendas, de posses, de poder; na realidade,
luta para sobreviver em tempos de tecnologia, globalização
e neoliberalismo.
Quem somos nós hoje? Historicamente responde-se: somos um país
de contrastes, de concentração de poder e riquezas, explorado
por forças externas e submetido à inépcia governamental
em transformar cada homem que aqui vive em cidadão. Somos um povo
proletário, desempregado, sem-terra, sem-teto, sem educação
e sem saúde, que amargura governantes os quais conduzem o Estado
em prol de seus próprios interesses. Mas, acima de tudo, somos um
povo bravo, que sobrevive apesar da miséria, da violência
e do abandono. Nós, hoje, somos o Brasil; uma nação
constitucionalmente de Primeiro Mundo, mas que abandona seu povo para ser
neoliberal, para atender cada vez mais ao imperialismo a que sempre fomos
submetidos.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: DANIELLE DOS SANTOS BARBOSA
Cidade: CAMPINAS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: DANÇA
Passeio pelo país dos contrastes
Às vésperas do ano 2000, em meio às discussões
acerca dos descobridores e datas, o Brasil encontra-se na expectativa para
as comemorações dos 500 anos de sua descoberta. Mas nem tudo
é festividades: é o momento da análise daquilo que
a metrópole deixou para a colônia. Nesse ponto, o Brasil depara-se
com sua realidade: um gigante decadente. Em 500 anos de Brasil, a irresponsabilidade
se encontra numa ciranda de poder e pobreza na terra dos contrastes.
Uma das heranças deixadas por Portugal foi o conceito de terra como
forma de valor. Esse conceito encontra-se extremamente enraizado no brasileiro,
de tal forma que 2% de sua população é possuidora
de quase 50% de terras produtivas. O restante da população
divide desigualmente os outros 50%, mas nota-se o crescimento de um dos
maiores conflitos dos últimos anos para a realização
da reforma agrária. Este é um dos contrastes: o Brasil tem
150 milhões de quilômetros quadrados de extensão e
sua população está em luta por posse de terra.
Tão importante quanto a questão fundiária é
a situação do índio no Brasil. O índio, que
outrora foi proprietário, agora é inquilino. A FUNAI, criada
para fiscalizar e regulamentar a demarcação das terras indígenas,
assiste às freqüentes invasões de garimpeiros e madeireiros.
Mas o problema não é apenas geográfico: a falta da
política de distribuição de terras coloca o indígena
em contato com vícios e doenças, dizimando-os ou incluindo-os
no rol da pobreza, tal é a integração nociva com o
homem branco.
Sem deixar de lado o brasileiro urbano, vê-se no Brasil a desigualdade
no povoamento ? mais uma herança portuguesa. A região
sudeste, superpovoada mergulha cada vez mais nas chamadas moléstias
sociais, desemprego, falta de moradia, violência urbana, carência
escolar. Esses problemas são, de certa forma, provocado pelo êxodo
rural, que aumentou desde a década de 1970; êxodo que não
existiria, não fosse a ausência de uma política fundiária
e descaso com os problemas de regiões como o nordeste, vítima
de seca prolongada, fome e aumento do banditismo sertanejo.
Estas são partes de uma grande lista. Mas há soluções:
uma política de apropriação de terras, a reestruturação
da FUNAI, um planejamento preventivo contra a seca. O fato é que,
em 500 anos de Brasil, vê-se que o avanço não foi dos
maiores. E este é o legado de uma metrópole para uma sociedade
omissa, dona do país do futebol, já que cada povo tem o ópio
que merece.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: ERIK MACEDO MARQUES
Cidade: PIRASSUNUNGA-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
Brasil, mostra a tua cara
Navegar é preciso. Foi assim que caravelas esbarraram em nossas
praias. Esbarraram? Foi
Cabral ou Duarte, descobridor a pouco descoberto? O passado foi-se
sem deixar notícias, mas, e o agora? É corrupção
ou futebol? Sem-terras ou carnaval? Deixemos então o momento presente,
que se tornará passado também incerto frente ao futuro. Mas
que futuro? Venceremos? Ficaremos assim? Brasil, potência do terceiro
mundo, um mulato é brio, sem rosto, mas esfomeado. Quinhentos anos
sustentando-se em finas pernas. Suado, cansado e cheio de questões.
Brasil brasileiro, Brasil, comprado, Brasil vendido, Brasil achado.
A Europa estava carente de paraísos. Paraísos onde haveria
matérias-primas e gente a ser explorada. Caravelas salgadas encontraram
homens queimados de sol. Que pena... a pena do cocar virou pena de românticos
que exaltavam os índios. Mas os índios não eram bons
ou maus, eram somente outra cultura, cultura sem sorte por ter flechas
ao invés de chumbo, sossego ao invés de ouro, ervas ao invés
de anticorpos. O que sobrou dos índios cabe em estádios de
futebol, esporte nacional importado. Não se sabe quem foi o primeiro
europeu que aqui pisou, nem o primeiro negro, nem o primeiro índio.
Mas sabe-se que foi daí que nasceram novas cores, que formaram uma
nação. Nação histórica, mas repetente:
senhor de engenho, latifundiário; D. Pedro I, Antonio Carlos Magalhães;
Companhia dos Índios, transnacionais; Império, ditadura;
povo massacrado, povo massacrado; Brasil positivista: Ordem e Progresso.
Brasil “existencialista”: O inferno são os outros, os estrangeiros
que invadem nossa economia. Brasil de cultura e costumes impostos, importados
de elite multicolorida que veste verde amarelo.
Esse ano nós perdemos a Copa e os capitais estrangeiros. Reelegemos
o presidente e assistimos televisão. Os Sem-terra ainda existem,
como uma herança que não queremos mas que fica em nosso encalço
avisando o que causa a concentração de riquezas. Sem-terra,
sem-teto, sem-roupa, sem-dinheiro, sem-Brasil. Nós todos somos brasileiros
sem-Brasil. Criamos leis para uma nação, mas não criamos
nação para leis. Código do Consumidor, e os miseráveis?
Código de Trânsito, e as estradas? Leis de Diretrizes e Bases,
e as escolas? Esse ano é o mesmo de todos, falar deste remonta os
quinhentos anos passados, pois como todos carrega feridas abertas de longa
data vividas em contextos diferentes. E o futuro? Será tão
negro? Brasil, criado aos poucos, andará até o fim dos tempos
como hoje? Virão muitos outros anos e devemos aprender com os quinhentos
passados. Não mais navegar é preciso, e sim educar. Indicar
outras saídas para o povo, que deve deixar de ser massa de manobra
política. A solução está em mudar as bases
à partir das cabeças brasileiras, então cicatrizaremos
as feridas e poderemos nos fazer nação, não mais vendida
ou comprada e sim consciente. Assim poderemos nos descobrir e satisfazer
o apelo de Cazuza: “Brasil, mostra a tua cara!”
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: FABIANA FERRARI GUIMARÃES
Cidade: RIO DE JANEIRO-RJ
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
O despertar do gigante
Desde a idade moderna, em que o branco europeu colonizador apoderou-se
das riquezas e dos habitantes indígenas dos solos brasileiros, o
infeliz destino dessa colônia de exploração começou
a ser traçado, pois mesmo com o rompimento das amarras com a metrópole
lusitana, as heranças da dependência financeira e da super
concentração de capital jamais seriam superadas.
A priore, com o passar dos anos, a nação independente demonstra
sinais de crescimento sócio-econômico, porém sob essa
falsa máscara de desenvolvimento revela-se uma sociedade marcada
por crises na produção, como a do café na República
Velha, escândalos políticos, haja visto o presidente Collor
recentemente, e condições de vida calamitantes como as dos
atuais flagelados do Nordeste.
À medida que os quinhentos anos do descobrimento se aproximam, nas
mentes dos habitantes do país, a noção de cidadania
torna-se cada vez mais insólita frente aos constantes desrespeitos,
aos artigos humanitários da constituição em prol das
elites que revezam no poder mas nunca são destituídas do
comando.
Com a globalização as mazelas estruturais ficaram ainda mais
expostas e o desemprego dizimou a dignidade de muitos trabalhadores. A
situação de impotência mediante a magnitude do capitalismo
internacional faz com que, mesmo livres, as pessoas se sintam exploradas,
não apenas por estrangeiros impiedosos, mas também por seus
próprios compatriotas governantes. Dessa forma, a insatisfação
geral eclode em violência urbana e rural, o que prejudica os poderosos.
Por conseguinte, a população brasileira, desde o Bóia-fria
até o grande empresário carece de transformações
imediatas, que eram as mesmas almejadas pelos escravos dos Engenhos e pelos
revoltosos de sessenta e oito. O sonho da construção de um
país igualitário é atemporal e a esperança
da sua realização se renova baseada não só
em uma data, mas sim no potencial cultural, natural e humano de um gigante
adormecido há meio milênio chamado Brasil.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: FÁBIO NAKANDAKARE KAWAMURA
Cidade: ARAÇATUBA-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
Ao completar quinhentos anos, nossa jovem nação talvez tenha
mais a lamentar do que celebrar. Nascida de uma colonização
que só a espoliação tinha por fim, ela tem vivido
entre a escravidão e uma tímida liberdade. As implicações
sociais desse pacto, acrescidas dos erros cometidos durante toda a nossa
História resultam num quadro de riqueza concentrada e de subdesenvolvimento
generalizado, ainda que permeada por uma cultura riquíssima.
Explorado primeiro por aristocratas, depois por capitalistas, o povo brasileiro
aprendeu que a ele só cabe trabalhar servilmente, que dar rumo à
nação é papel dos senhores doutores que governam na
capital. Aprendeu também que justiça se faz no fio da “peixeira”
ou no cano da metralhadora, pois leis só no papel existem. Somos,
pois, um povo passivo e violento.
A alegria brasileira que cantam alguns poetas só se demonstra no
carnaval e num domingo de futebol; o cotidiano é o sofrer proletário,
ou o ansiar por ele, vendendo flores nos semáforos e pedindo esmolas
nas calçadas. O brasileiro vive triste, apesar de saber ser explosivamente
alegre.
O Brasil comemora, nesse aniversário, o fato de ter uma das
maiores economias do globo. Porém, a riqueza que acumulam os capitalistas
convive com índices sociais que excluem a maior parte dos habitantes
do exercício da cidadania.
Mas eis que os reflexos de tantos contrastes também proporcionaram
a diversidade da cultura nacional: não é a melancolia lusitana
que prevalece, nem o ritmo da música negra, nem o naturismo indígena.
A arte brasileira não pode ser delimitada, pois abrange aspectos
de diversos povos. E não se resume à simples soma de cada
uma dessas influências, mas se expande no potencial que a integração
entre elas proporciona.
A nação brasileira deve, nesse aniversário, tomar
consciência de sua natureza cheia de contrastes. Assim, tornar-se-á
mais fácil combater as contradições sociais e preservar
essa magnífica diversidade cultural que torna o povo brasileiro
tão especial.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99 |
Nome: GUILHERME CARDINALI BARREIRO
Cidade:CAMPINAS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
O Brasil, desde o seu surgimento para
o mundo, carrega grande parcela da conotação inicial a que
foi submetido: uma colônia de exploração. É
verdade que já não somos mais colônia, sempre acabam
por absorve-lo.
Conhece-se, atualmente, que não foi
Cabral o grande agente que desmascarou essa terra nua, mas Duarte Pacheco
Pereira. É interessante notar que, além das alterações
necessárias aos livros de história, essa disparidade não
proporciona alterações significativas quanto a história
do Brasil na prática. Ambas expedições possuíam
finalidades claramente pré-estabelecidas pela coroa lusa: ocupar
a região de modo a garantir possíveis riquezas. Daí
advém todo o processo de exploração persistente sobre
o território brasileiro. Com Pacheco Pereira, ou Cabral, ou quem
quer que fosse mandado por Portugal, abriram-se os caminhos para desbravar
as terras brasileiras, que, de início, ofereceram nada mais que
o pau-brasil. A este, seguiram a cana- de-açucar, o ouro, o café
e tantos outros.
As alternâncias de produção
pelas quais a metrópole submetia o Brasil caracterizam a busca incessante
daquela pelas riquezas americanas. Em meio a essa exploração
voraz, emergiu o povo brasileiro, um fruto do sistema imposto pelos portugueses.
O enclausuramento sufocante desta origem influenciou nas características
e caminho que o povo novo viria a seguir. Como éramos um povo dominado
e controlado, refletiu-se na sua evolução particular a disparidade
de renda, os abusos por parte dos detentores do poder político e
econômico e a submissão total dos desprivilegiados. Assim,
por mais que o escritor Affonso Celso tentasse, no início do século,
se ufanar (?) do país, a verdade parecia preferir as palavras de
seu contemporâneo Sílvio Romero, que nos caracterizou como
um "povo flagelado por todas as extorsões".
É notório também
o fato de o Estado brasileiro sempre ter representado a elite brasileira,
como fora evidenciado pelo próprio Sílvio Romero há
mais de um século. Essa representatividade da elite determinou a
expansão das injustiças sociais, no decorrer das décadas,
uma vez que segregou política e economicamente duas classes: os
poderosos e a massa. A primeira, tendo controle sobre a maquina governamental,
obviamente ditou os destinos da nação em favor de seus interesses
particulares. Já a Segunda, ficou à mercê das oscilações
daquelas, esperando sempre os prejuízos inerentes a uma administração
tendenciosa, e quanto muito, recebendo benefícios legislativos igualmente
tendenciosos, que camuflavam a verdadeira exploração a que
essa classe estava submetida.
Atualmente, a situação
brasileira espelha todo o processo de evolução deste povo.
A política neoliberalizante do presidente FHC não passa,
grosseiramente, do atendimento às vontades da elite nacional aliada
aos interesses estrangeiros ? como sempre fora no Brasil. Quanto
às massa populacionais restou-lhes o desemprego e a queda na qualidade conseqüências que também remetem ao passado histórico
do país.
Fica claro, portanto, que, após
500 anos, o Brasil apresenta graves defeitos, apesar de ter conseguido
a 62ª colocação na ultima classificação
do IDH. Ainda é importante ressaltar que essa melhor colocação
deve-se ao fato do país ter elevado o seu PIB per capita, que esconde
um dos mais graves problemas brasileiros: a disparidade de renda e as injustiças
sociais provenientes dela. Percebe-se que a análise feita por Carvalho
Filho, na FSP de 3 de outubro, dizendo que o país crescera é
uma análise superficial da realidade nacional; teoricamente, após
500 anos, somos um país coerente, mas, na prática, observa-se
o oposto.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: JOÃO FERRARI FRANÇA
Cidade: SÃO PAULO-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENG. MECÂNICA
Faltam quinhentos e tantos dias para
os quinhentos anos do Brasil. Quem, ao ouvir esta frase, não se
lembra da fatigante contagem regressiva da Rede Globo? Como se sabe, toda
contagem regressiva leva a alguma coisa; ou a um acontecimento, ou a uma
comemoração como é o caso. Mas uma reflexão
a respeito disso leva a uma pergunta: O que será comemorado em menos
de dois anos, em abril de 2000?
A resposta imediata é: os quinhentos
anos do Brasil! Mas isso não é certo. Não se sabe
com certeza nem a data nem a forma como ocorreu o descobrimento do maior
país da América do Sul. Se a razão da festa fosse
apenas a data histórica, esta já não teria tanto sentido.
Por outro lado, o que a Rede Globo e
o Brasil estão comemorando é o país de hoje. Um lugar
onde havia apenas índios, hoje tem uma economia forte, uma grande
população, grandes indústrias. Antes havia escravidão
e hoje os negros são livres e felizes. Conquistou-se leis para os
trabalhadores e pobres, além de hoje haver até eleição
direta. Realmente hoje o Brasil é outro.
No entanto, uma visão menos ufanista
e mais realista, mostrará que a evolução houve, mas
esta foi da pior maneira possível. Os índios que antes dominavam
esta terra, hoje fazem parte de uma minúscula parcela da população.
Se um dia o Brasil deixou de ser colônia para se tornar Reino Unido,
para se tornar um país, isso aconteceu porque era interessante para
a parcela poderosa da população. A razão ideológica
contribuiu muito pouco para isso. A economia brasileira que antes exportava
matéria-prima para importar produto manufaturado, hoje importa produtos
mais modernos. É inegável que a indústria brasileira
cresceu, mas 99% das grandes indústrias são multinacionais
estrangeiras que se por um lado geram empregos, por outro levam o lucro
para seus países de origem. As grandes indústrias brasileiras
são em sua maior parte estatais que estão sendo privatizadas
(inclusive as que geram lucro) à preços não muito
justos e em leilões de legitimidade questionável. Além
do mais a política econômica atual, não é a
ideal para que o país cresça.
Quanto ao aspecto social, houve, sem
dúvida, enormes conquistas por parte dos brasileiros. Mas deve-se
lembrar que essas conquistas foram na maioria das vezes tardias se comparadas
com outros países. Além do mais a desigualdade social, o
racismo e a má distribuição de terras são problemas
vigentes até hoje.
É então, por estes fatores
que se questiona a comemoração dos quinhentos anos do Brasil.
A grande modificação que seria digna de comemoração
seria o fim do pensamento individualista para um pensamento mais coletivo
por parte dos governantes do país. A frase: "Tudo deve mudar para
ficar como está" ainda é válida hoje, como foi válida
nesses quinhentos anos e foi a responsável pelas modificações
brasileiras. É até compreensível que a Rede Globo
comemore o meio milênio do Brasil, mas para a maioria da população
não há outra razão se não a duvidável
data histórica. Se daqui a 250 anos o Brasil tiver solucionado boa
parte dos problemas que tem hoje, esta seria uma data muito mais digna
de comemoração do que a atual. Esteticamente não ficaria
tão bonito, mas seria mais justo. O fato é que nesses quinhentos
anos o maior país da América Latina evoluiu bastante, mas
não o suficiente que justifique uma comemoração. Ainda
não.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: JOSÉ FLÁVIO GOMES MARIN
Cidade: MARÍLIA-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
É hora de acordar!
Apesar da euforia e do certo ufanismo de alguns, o 500? aniversário
do descobrimento do Brasil não é digno de festividades ou
celebrações rodeadas de espetáculos. Esta data, em
vez de alvo de comemorações deve ser vista como uma oportunidade
para analisarmos a história de um país que desde a sua gênese
foi comandado pelos interesses do capitalismo internacional, mesmo tendo
com isto, a sua população vitimada por gritantes injustiças
e exclusões sociais, políticas e culturais.
Das capitanias hereditárias aos grandes monopólios transnacionais,
passando pelos latifúndios cafeicultores, a essência das estruturas
sócio-econômicas da nação não se alterou,
pois a riqueza nacional é explorada por uma oligarquia praticamente
hereditária, a qual exaure os recursos do país para enviá-los
ao exterior, mantendo o Brasil na órbita do sistema capitalista.
Atrelada a esta dominação econômica vem a submissão
cultural, valoriza-se o que vem de outros países, independente do
significado e/ou utilidade, apenas porque confere status aos seus possuidores.
Outro tópico que deve ser discutido e reformulado, é a nossa
história, principalmente o modo com que esta foi contada nestes
500 anos. Desde a carta do descobrimento, feita por Caminha, a realidade
é fantasiada, para não dizer mascarada, na tentativa de transformar
fatos históricos em feitos heróicos e espetaculares, incluindo
aí guerras, descobrimentos ou atitudes dos governantes. É
sabido que a maioria das “revoluções” retratadas nos livros
da história brasileira nada mais são do que meros acordos
entre as elites para manterem seus poderes. Como exemplo basta citar a
independência, que de forma pacífica, celebrou uma acomodação
das estruturas de dominação ao contexto mundial que vigorara,
o liberalismo. Em suma, mudam-se as aparências, mas a essência
do país continua a mesma.
Embora submetida a tantas provações, a população
brasileira inegavelmente, conseguiu constituir uma identidade, pois trata-se
de um povo pacífico, receptivo e muito batalhador. Esta identidade,
no entanto, é freqüentemente abalada pelos estereótipos
que se criaram a respeito do brasileiro, estereótipos os quais recaem,
não raro, no já falado binômio samba e futebol.
Somente com a construção de um sentimento de valorização
ao país, de um questionamento a respeito de sua situação
atual, é que o Brasil, a partir dos erros que o marcaram até
o presente momento, poderá aprender, auxiliado por uma história
clara e concisa, a se portar como uma verdadeira nação, na
qual predominem a justiça e a plena democracia, deixando de ser
assim o gigante eternamente adormecido pela opressão, exclusão
e injustiça.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: JOSÉ ROBERTO MERGEL MANECHINI
Cidade: MOJI GUAÇU-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
A terra brasilis, hoje
O brasileiro é, no geral, um povo orgulhoso de si. Tem, no entanto,
poucos motivos para isso. Nosso país, às vésperas
de seu quinto centenário ainda pena em muitos aspectos, e não
tem, de fato, uma identidade, algo que realmente a torne uno e coeso. Ser
brasileiro em 1998 é, com muitas limitações, fator
de alegria. Mas sob uma óptica mais consciente, causa de estar triste
e preocupado com relação às medidas necessárias
à magnificação da nossa terra e de nossa gente.
Muito se proclama acerca de nossos méritos: arte, personalidade,
esporte. Belezas naturais. Todavia, observando-se bem o Brasil de hoje,
percebe-se não ser bem assim. De todos os aspectos, vemos nossa
pátria em decadência cultural, exaltando pseudo-música
e autores em crise velada. Deixamos cair no olvido os que realmente tentaram
criar uma identidade brasileira. Estes são deixados empoeirar, ao
sabor do desprezo. E quanto a tão bem afamada personalidade nacional,
faceira e simpática, basta, para se convencer da verdade, uma consulta
a órgãos de turismo. A criminalidade e a crise têm
feito uma imagem repelente do Brasil para os estrangeiros, que preferem
fazer turismo em casa ou entre os nossos vizinhos terceiro-mundistas.
Nem mesmo a beleza natural de nossa terra tem mais o encanto de outrora,
graças à desfaçatez com que vem sendo gerida. Desde
os tempos de colônia praticamos extrativismo predatório, caça
e pesca irresponsáveis e má utilização de recursos
hídricos. Matamos o indígena, depois escravizamo-no, exploramos
seu trabalho, e o que lhe reservamos hoje? Doenças, descaso e humilhação.
Mesmo com a Funai não os salvamos da morte brutalmente precoce,
nem lhe damos terras e direitos, como uma volta à cultura original,
quase perdida.
Urge citar o aspecto socioeconômico, um sério motivo de preocupação.
Mais de cem anos após a publicação da obra de Sílvio
Romero, em cujo estudo da história estão denunciados as facetas
negativas de então, é aborrecedor notarmos semelhanças
entre essas e os problemas moderno. Continuam atuais os temas da reforma
agrária, a qual trinta e quatro anos após a criação
do Incra e do Estatuto da Terra, ainda se arrasta lânguida e irresoluta.
Humilha, de modo análogo, a semelhança entre as opiniões
de Romero sobre a indolência e maleabilidade do povo de sua época,
e o pasmo atual do nosso. Também quanto à nossa liberdade
devemos observar algo: Em 1882, mesmo independentes, passamos, extraoficialmente
a obedecer à Inglaterra. Após 1945, temos outro senhorio:
os E.U.A. Em suma, de D. Pedro I até hoje, apenas viemos mudando,
por melhor dizer, de credores.
É com tristeza que qualquer brasileiro com mais consciência
nota o drama de sua realidade, hoje. Sendo cidadão de um país
com turbulentos problemas, que vão do âmbito cultural, venalidade
obriga-o a aceitar o pior, passando pelo natural com problemas causados
pelo atraso administrativo, até chegar ao socioeconômico,
ruim apesar de toda a publicidade oficial. Ainda em 1998 impera a má
distribuição de terras e renda graças ao compromisso
financeiro com o FMI. O brasileiro vive a crise sob seus diversos matizes,
ainda que não perceba. Portanto, o melhor presente que pode dar
ao Brasil daqui a dois anos, ou melhor, dar a si mesmo, é sua séria
e profunda reflexão.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: LUCIANA ARAÚJO DA SILVA
Cidade: CAMPINAS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: ARTES CÊNICAS
Em abril de 2000 o Brasil comemora 500 anos de seu descobrimento – segundo
data aceita oficialmente. Sem perder tempo a mídia começa
a bombardear-nos com os preparativos para a festa, e com dois anos de antecedência
a TV já mostra um relógio que nos avisa a cada dia quantos
dias faltam para o grande bacanal. É outra oportunidade, além
da copa do mundo, para que cada cidadão vista uma camisa verde-amarela
sem medo de parecer cafona, empunhe a bandeira e ensaie cantar o Hino Nacional
– como será mesmo que se começa aquela 2ª parte?
Na verdade, a data deveria, no mínimo, servir para que questões
sérias e profundas fossem levantadas a fim de se fazer um balanço
histórico dos cinco séculos do país. Será que
os saldos seriam tão otimistas, ou inspirariam luto?
A farsa que se representa com uma comemoração ufanista não
deixa ver quem é o Brasil, ou quem somos nós hoje. E quem
somos, mesmo? Um povo que carrega os grilhões da escravidão
– a maior vergonha da nossa história. Negros e índios, escravos
de senhores brancos, portugueses, estes aliados da Coroa que por sua vez
era submissa a um senhor maior, a Inglaterra. Mas a nossa escravidão
não teve fim com a assinatura de um documento pelas mãos
de uma princesa benevolente, em 1888. Ela perdura até nossos dias.
Só temos mudado de dono, de senhorio. Agora, após termos
assimilado a subserviência ideológica aos EUA, passamos a
servir as grandes instituições financeiras do mundo globalizado.
Aliás, o país já sentiu o gostinho das conseqüências
dessa opção com o efeito dominó da crise nos países
asiáticos.
Há aqueles otimistas, que vêem os progressos miraculosos da
nação. Temos uma Constituição exemplar, que
pune crimes como o racismo, protege o consumidor, trata de questões
como a posse da terra, a educação, os direitos da mulher,
da criança. Coisa de país desenvolvido! Outro aspecto que
não pode ser esquecido ao comemorarmos os 500 anos é a autenticidade
do povo brasileiro. A nossa famosa alegria (temos o carnaval), a solicitude
do povo, a “malemolência” dos trópicos – nossas características
reconhecidas internacionalmente.
Entretanto, no que diz respeito as nossas “conquistas”, às leis,
por exemplo, não há muito o que glorificar. Ao longo desses
500 anos a história é sempre a mesma. No nosso país
há leis que “pegam” e leis que “não pegam”. A terra vem servindo
a interesses de pequenos grupos desde as sesmarias até os latifúndios
– não tem função social prevista na atual constituição.
Quanto ao racismo, ele continua forte e vemos isso no dia a dia, em dados
irreais como os do senso realizado em 96 pelo IBGE que aponta uma população
constituída de 55% de brancos, 34% de mestiços e 5% de negros.
O Brasil hoje não é europeu, africano, asiático, indígena.
Nós somos a mistura exata de tudo isso, completamente diferente
das nossas origens, únicos. E apesar disso estamos indiscutivelmente
atrelados aos princípios da nossa matriz. Talvez o ano 2000 possa
servir para abrirmos os nossos cinco séculos coloniais, enterramos
o que sobrou dele. Pegaríamos então a água salubre
que – pasmem – ainda resta nessas terras de cá, e regaríamo-nas
para que nela fossem cultivadas as sementes de um outro Brasil. Que não
precisasse olhar prá trás e esconder o rosto de vergonha,
nem olhar para a frente e ter esperança. Mas que, enfim, se olhasse
no espelho e sorrisse.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: LUÍS GUSTAVO BUZIAN BRASIL
Cidade: SÃO PAULO-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
Novos 500 anos
Às vésperas de um novo século, o Brasil espera a celebração
dos seus 500 anos de descobrimento. Meio milênio de história
oficial, marcada por violência, extermínio da população
nativa e interesses das nações imperialistas. Um período
que presenciou uma fusão única de cores e culturas e a transformação
de um território vasto, agrícola e tecnologicamente primitivo
em uma nação gigantesca, sede de algumas das maiores metrópoles
do globo. Quais os motivos para comemorar a data de descoberta desta terra,
em que “se plantando tudo dá”?
Os europeus que primeiro aqui chegaram, tinham apenas em mente o ideal
insaciável de lucro, ideal esse que parece ter permanecido quase
imutável nesses últimos 500 anos, em que atualmente atravessamos
o estágio mais moderno do capitalismo, assinalado pelo toyotismo
e pelo estabelecimento de mega blocos econômicos.
O problema de nossa dívida externa remonta às origens de
nossa independência política, quando, abandonando a influência
lusitana, passamos a viver sob a esfera britânica e, posteriormente,
norte-americana. Vivenciamos, nos períodos ditatoriais, slogans
como “ninguém segura este país” e “Brasil, o país
do futuro” e, ainda hoje, continuamos fortemente submissos ao capital das
transnacionais.
A modernização econômica, urbana e industrial brasileira
certamente fora e tem sido notável, porém extremamente desigual
e limitada entre a população, o que levou o país a
ser conhecido como a nação onde há maior concentração
de renda do planeta.
Esses fatores têm sido o panorama geo-político do Brasil até
o presente momento. De exportador de pau-brasil e café do passado,
passamos a exportar jogadores de futebol e apresentadoras de TV. Mas nem
tudo se resume a isso. Com tanta história e tão pouco a ser
reverenciado, nosso povo, em momento algum esmoreceu. Talvez por instinto
de sobrevivência. Talvez por sua tradição de resistência
à exploração. Passamos, mais uma vez, por uma situação
de crise, desta vez em âmbito global. Mas, para uma sociedade como
a nossa, acostumada com tantas lutas e privações, será
apenas mais um obstáculo a ser ultrapassado. Esses 500 anos fizeram
a História do Brasil. Agora, é tempo do Brasil começar
a fazer, por si mesmo, sua própria história de novos e melhores
500 anos.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: LUIZ CLÁUDIO CUNNINGHAM DE CARVALHO
Cidade: CAMPINAS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: PEDAGOGIA
As celebrações dos 500 anos do descobrimento brasileiro
pelos portugueses, a se realizarem em abril de 2000, apesar de reforçarem
um equívoco histórico já há muito tempo conhecido,
representam uma iniciativa rica em possibilidades. Se, a julgar pelo conhecimento
atual sobre a chegada dos portugueses, deveríamos estar comemorando
estes 500 anos agora em 98, a data de 22 de abril de 1500 já se
encontra cristalizada no imaginário coletivo dos brasileiros. E,
por que não dizer, lustra nosso ego numerológico.
As oportunidades que se abrem com esta celebração são
de duas naturezas. De um lado, é nas celebrações que
as pessoas se encontram e se identificam. Este momento pode muito bem ser
aproveitado para aprofundar o sentimento de nacionalidade dos brasileiros
e lembrá-los do grande futuro à disposição
dos mesmos.
De outro lado este grande futuro depende da solução de problemas
que tem raízes em nossa história. Assim, os 500 anos inspiram
um olhar sobre o passado desta nação e sobre seu presente,
em busca das condições necessárias a que este futuro
se concretize.
Não é possível exagerar a influência das características
iniciais da colonização brasileira em suas mazelas do passado
e do presente. Os propósitos com que aqui chegaram os primeiros
portugueses e o modo de produção de que se utilizaram quase
exclusivamente até meados do século passado condicionaram
uma profunda divisão social, persistente até hoje. Igualmente
persistente é o desprezo pelo trabalho manual, “coisa de escravos”,
só atenuado pela chegada dos imigrantes mais recentes.
Saltemos agora 350 anos; até meados do século passado. Após
observarmos este prolongado imobilismo (germi-nação?) iremos
assistir à abolição formal do modo de produção
escravista, da subordinação política à outro
país e da forma monárquica de governo. Se até hoje
a incompetência e o descaso das autoridades nos fazem sentir como
contribuintes-escravos, subordinados dos interesses destas, alguma coisa
deve ter melhorado. A chegada dos imigrantes a que já nos referimos
completa o caldeirão de culturas que compartilhamos com poucas nações
do mundo e que representa hoje uma vantagem muito grande no cenário
internacional. Neste período assistiremos também ao início
da industrialização, com o conseqüente aumento e diversificação
das oportunidades.
Mais um pulinho de 125 anos e chegamos à década de 80 do
século atual. Chegamos ao mais recente hiato de democracia em nossa
vida republicana (que longa vida tenha). E assistimos também à
retomada da estabilidade monetária que, se não é sinônimo
de estabilidade econômica nem desenvolvimento, é condição
necessária a ambos. Faz muito bem a uma nação ter
uma moeda de fato, um contrato econômico respeitável.
Quinhentos anos representam apenas 5% da história da humanidade,
meras 20 gerações. Se a todos nós cabe nos impacientarmos
com a solução dos problemas mais gritantes do país,
às vezes é bom lembrar que o mundo não foi feito em
7 dias. E que a continuidade na inversão do quem serve a quem, entre
as autoridades e o povo da nação, a realização
do potencial do país através do trabalho e da solidariedade
está nas mãos de todos.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: MARÍLIA VANNUCHI TOMAZINI
Cidade: FRANCA-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
Que toquem o derradeiro tango argentino!
Os ufanistas quixotescos estão felicíssimos: em abril do
ano 2000 o Brasil comemorará quinhentos anos de seu “descobrimento”.
A contagem regressiva já fora acionada e muitos , tomados por um
repentino sentimento de amor à pátria, como em um passe de
mágica esqueceram as deficiências e mazelas tupiniquins.
No entanto , não há tanto o que comemorar a não ser
para os países do lado de lá do Equador. Estes devem estar
eufóricos, afinal conseguiram ? por 500 anos! ? a façanha
de explorar e enganar toda uma nação.
A embromação já começa em nosso “descobrimento”:
O Brasil não foi “descoberto” já que os portugueses sabiam
muito bem o que procuravam e onde pretendiam chegar. A partir daí
o Brasil se transformara em um títere, condição que
perdura até os nossos dias.
É desolador constatar que enquanto o tempo passa e corre e voa continuamos
a caminhar em círculos. No contexto mercantilista éramos
reles fornecedores de matéria-prima e mão-de-obra barata.
Hoje ainda desempenhamos a mesma função, só que em
meio a uma explosiva mistura de neoliberalismo com Globalização.
A nossa independência histórica não ocorreu na prática.
Só por seu caráter sui generis deveríamos ter desconfiado
de que não era séria: um membro da própria família
real foi quem declarou o país independente e ainda assim sob uma
constrangedora indenização à Inglaterra. Atualmente
continuamos dependente de aplicações externas para cobrir
o déficit de nossa balança comercial e suprir a nossa demanda
por tecnologia.
Faz-se mister ressaltar que, passados apenas 70 anos do movimento antropofágico
? que tentou criar uma cultura original, de pura identidade nacional ?
estamos adotando uma cultura estrangeira em detrimento da nossa. Um nítido
exemplo: todos os jovens comemoram o Halloween mas muitos nunca ouviram
falar da Folia de Reis, que ocorre em seis de janeiro e já fora
uma festa típica brasileira. Em nosso itinerário histórico
já vimos este mesmo episódio: os índios foram obrigados
a relegar a sua cultura riquíssima para abraçar a dos colonizadores.
No plano interno pouco foi mudado: a estrutura fundiária continua
absurda, a concentração de renda ainda forma um íngreme
abismo entre aqueles magnatas e os “sem-tudo”, o Brasil continua sendo
um país nepotista e coorporativista que trabalha em favor das super-potências,
seus parasitas.
Quiçá esta situação ainda possa ser revertida.
Esperemos esta ajuda do FMI, a panacéia utópica desejada.
Mas ao que tudo indica, o caminho destinado ao Brasil não terá
volta.
Uma flor ? o Brasil ? romperia os asfalto ? condição inexorável
de colônia. Mas ? que pena! ? havia uma pedra no meio do caminho
...
Que venha então o tango argentino.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: NAYANA MOTA GUSMÃO DA SILVA
Cidade: VITÓRIA DA CONQUISTA-BA
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA DE
COMPUTAÇÃO
Do fracasso à vitória? Ou vice-versa?
Não importa como, nem quando: o fato é que o Brasil
foi invadido, ou, como muitos preferem, descoberto pelos portugueses há
cerca de 500 anos. Junto com eles, vieram a estrutura européia de
organização social, suas tradições e costumes
e o modelo de dominação do homem, criando um país
que congrega paradoxalmente crescimento e destruição.
Durante o período colonial, a população nativa brasileira
foi dizimada e parte dela foi gradualmente substituída por europeus,
negros e mestiços, que trouxeram consigo sua própria cultura.
Nossas terras foram exploradas com culturas que visavam somente ao enriquecimento
da metrópole, as florestas, como a Mata Atlântica, quase completamente
devastadas, a religião e o idioma, impostos pelos jesuítas.
Mesmo assim, o país cresceu. Atravessou os ciclos da cana-de-açúcar,
ouro, do café, da pecuária, a população se
misturou, criando uma identidade e uma unidade nacional, demonstradas nas
lutas por independência, abolição da escravatura, pela
república, pela democracia e pelo direito à terra.
O Brasil tornou-se, então, um país independente e industrializado.
Hoje, insere-se no contexto mundial entre as dez primeiras economias; ofereceu
à população avanços médicos, tecnológicos,
direitos trabalhistas, liberdade de culto, expressão e comércio.
Porém, paralelas a esse desenvolvimento, existem hoje novas formas
de dominação. Nossa bela economia está subjugada ao
capital estrangeiro, principalmente durante o atual governo, de cunho neoliberal,
e não absorve toda a mão-de-obra existente. É um dos
países recordistas em corrupção, possui uma péssima
estrutura fundiária, altos índices de mortalidade infantil
e agudas desigualdades sociais. O Sul debate-se com a questão ambiental,
o excesso de população migrante e as conseqüentes favelas
e a violência. O Nordeste reza por chuva e morre de fome e sede,
enquanto o país tem o maior potencial hídrico do mundo.
Mas o Brasil está predestinado ao sucesso. Afinal, conta com uma
natureza exuberante e uma população jovem que não
se acomoda perante as explorações. Somos frutos de uma miscigenação
de raças e valores, que resultou num povo que sabe lutar contra
o sofrimento. E pode lutar, pois os problemas do Brasil, como vimos, são
frutos de uma grande falta de vontade política. Por isso o Brasil
pode ter sucesso: basta que a população seja participante,
escolhendo bem as pessoas que construirão um futuro brilhante para
o Brasil por mais 500 anos e mais 500 e assim sucessivamente.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: PABLO ARANTES
Cidade: BRASÍLIA-DF
Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIAS
ECONÔMICAS
O Brasil é um país tão extraordinário que,
às vésperas da comemoração dos seus 500 anos,
descobre-se que a validade histórica de tal celebração
é assaz duvidosa. Querelas históricas à parte, é
certo que merecemos um balanço de nossa existência, tenha
ela os quinhentos anos cabralinos ou não. É certo também
que tal balanço deve considerar os imensos contrastes brasileiros,
em ordem a decidir qual é a imagem mais pertinente desta terra;
se é o éden preconizado pelo ufanista Afonso Celso ou a nova
Roma – banhada em sangue negro, índio e luso – descrita por Darcy
Ribeiro.
O sociólogo francês Roger Bastide, quando visitou o Brasil,
impressionou-se com o verdadeiro caleidoscópio de realidades múltiplas
e contrastes que constituía nosso país e deu àquilo
que viu o apodo de “país dos contrastes”. Empiricamente, esta é
uma tese de comprovação razoavelmente simples, se considerarmos
que um observador ao qual se incumbisse a tarefa de promover um inquérito
sobre nosso país depararia-se, ao longo de sua missão, imensas
disparidades. Começando pelo domínio natural, seguiram-se
diante dos olhos atônitos do pesquisador imaginário biomas
tais como: o cerrado, o pantanal, a mata atlântica, a Amazônia,
o pampa gaúcho e o semi-árido nordestino. De par a esta percepção,
a investigação também reconheceria modos de vida e
organizações sociais díspares: a riqueza industrial
do Sul e o atraso secular do Nordeste. Desta feita, seria então
lícito aduzir a conclusão de que coexistem no mesmo território
não um, mas diversos países?
Alguns retorquiriam, negando veementemente essa proposição.
Certos observadores postulam que há uma unidade subjacente à
aparente pluralidade de cenários perceptíveis. Segundo esta
linha de raciocínio, é possível localizar os liames
entre o Brasil pobre e o rico na relação de dependência
existente entre um e outro. Nesse pensamento, que vê o país
como um sistema onde componentes separados interagem entre si, a parte
rica e moderna alimenta-se do subdesenvolvimento e da miséria da
parte pobre. Os modelos de desenvolvimento perpetrados ao longo de nossa
história, concentraram a produção em pontas determinadas
no espaço geográfico e a riqueza nas mãos da classe
dominante. Esta classe dominante, por sua vez, sempre tirou proveito das
discrepâncias regionais, impondo seu domínio e amealhando,
através do sistema político, o poder necessário à
perpetuação de seus desígnios.
Seja qual for a exegese para nosso país, notabilizamo-nos pela fluidez
e força criativa da nossa cultura sincrética e miscigenada.
Ao longo da odisséia que constituiu nosso país como nação,
a esperança de que seremos capazes de superar nossas injunções
e impasses tem alimentado muitos sonhos de mudança. Esta infatigável
vocação para crer em um futuro melhor já é
um bom começo, pois como disse o escritor Mário Lago: “No
dia em que perdermos a capacidade de ter esperança, podem apagar
o arco-íris”.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: RICARDO ANSAI
Cidade: ARAÇATUBA-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
O retrato perverso da atual realidade brasileira expressa de maneira clara
as contradições sociais, culturais e econômicas das
quais somos vítimas. Essas contradições são
provenientes de nosso passado negro, marcado pela exploração
das grandes potências as quais sempre se mantiveram atreladas às
elites brasileiras, interessadas na manutenção de seus interesses
políticos e econômicos às custas da exploração
e da pobreza da grande massa de brasileiros.
Cada governo expressa sua ideologia através da forma como administra
a educação. Partindo-se desse pressuposto e vendo a atual
situação da educação no Brasil, devemos nos
preocupar. Para defenderem seus interesses e garantirem a manutenção
de seus poderes, as elites utilizam uma perversa arma: a diminuição
da qualidade ou supressão da educação. Tal fato pode
ser evidenciado através dos seguintes dados: no Brasil, metade não
têm o 1º grau; 83% são analfabetos funcionais. Através
desse mecanismo, promove-se a alienação da população
e a impossibilidade dos miseráveis ascenderem socialmente. Desinformado,
o povo pode vir a ser submetido aos instrumentos pervertidos dos meios
de comunicação, os quais sempre divulgaram as notícias
de acordo com a ideologia de nossas classes mandatárias, interessadas
em cultivar a idéia de que somos um povo pacífico, ordeiro,
justo, com a economia em constante crescimento. Esquecem, entretanto, de
que os fatos históricos desmentem as ladainhas. Esquecem dos massacres
promovidos contra os indígenas – na época do descobrimento
somavam mais de 2 milhões; hoje, não passam de 325.652. Esquecem
das atrocidades cometidas pelos brasileiros durante a Guerra do Paraguai.
Vimos, recentemente, mais uma prova de que os meios de comunicação
não estão interessados em passar as informações
de modo parcial: a privatização da Telebrás ocupou
menos da metade do tempo que foi concedido pelo Jornal Nacional ao nascimento
da filha da Xuxa. Enquanto isso, a Globo News, canal de televisão
pago, dava aos mais abastados cidadãos longas informações
sobre a privatização. Mais um sinal do velho-novo (principalmente
velho) Brasil.
“O liberalismo nos levará ao desenvolvimento!” “O Brasil está
entre as dez maiores economias do mundo!” “A crise internacional não
abalará o Brasil!” Essas frases tão intensamente pronunciadas
por vários economistas e políticos até a segunda metade
deste semestre – e apoiados por vários organismos estrangeiros –
são, como pudemos comprovar recentemente, no mínimo meias-verdades.
Esse comportamento dissimulador de órgãos externos e internos
tentou encobrir mais uma vez a fragilidade de nossa economia e dependência
desta em relação às instituições internacionais.
A princípio, nossa economia era essencialmente agrária e
dependente das exportações. Os resultados dessa política
econômica foram extremamente nocivos e deixaram seqüelas terríveis
em nosso país. A maior parte de nossas riquezas naturais foi totalmente
consumida pelos europeus: destruiu-se a Mata Atlântica para a exploração
do pau-brasil; extraiu-se o ouro para financiar a Revolução
Industrial inglesa. Além disso, internamente, tivemos a concentração
das riquezas e a formação dos latifúndios improdutivos,
os quais geram movimentos violentos pela distribuição das
terras. Outra conseqüência foi o preconceito: os negros trazidos
como escravos ainda hoje são discriminados em nossa sociedade. Nossa
economia, hoje, está totalmente desestabilizada pela crise internacional:
há ameaças de diminuição do comércio
interno, diminuição da produtividade industrial, recessão
e desemprego. O que fazer então? Vamos recorrer à tradição
da dependência brasileira em relação aos estrangeiros.
Vamos ao FMI, que nos impõe regras e normas para promover uma reforma
administrativa. Em troca disso, recebemos os empréstimos. Dentro
disso, fazemos as seguintes perguntas: o neoliberalismo nos levou ao desenvolvimento?
Estamos realmente entre os dez do mundo? Essas perguntas...
Andando pelo nosso país, pelo nosso estado, pela nossa cidade, pelas
nossas ruas podemos encontrar as respostas para a questão de “quem
somos hoje”. Somos frutos desses 500 anos de explorações,
vícios e contradições. Somos frutos dos interesses
individuais que submetem os interesses coletivos. Somos, enfim, frutos
desses 500 anos de Brasil.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: RODRIGO MENDES LEME
Cidade: CAMPINAS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIA
DA COMPUTAÇÃO
O Caminho Brasileiro
Brasil, país dos famintos, dos massacres de cidadãos inocentes
da expoliação, da pobreza, do subdesenvolvimento econômico,
do extermínio da parcela indígena de sua população.
À medida que o Brasil se aproxima dos 500 anos, velhos problemas
continuam sem solução, conforme bem alertou o historiador
Sílvio Romero em sua história da Literatura Brasileira (e
isso há mais de 100 anos!). Se até o presente momento não
houve uma violenta insurreição armada popular, deve-se à
ignorância e à índole pacífica do mesmo, que
contribuem para perpetuar o “status quo”.
Visto por este ângulo, o leitor é tentado a considerar o Brasil
um país que “jamais dará certo”. A conjuntura atual é,
de fato, negativa para a nação. Mas tal fato não deve
anular tudo o que até agora conquistamos. Alguns brasileiros, em
todos os campos de atividades, podem ser encontrados no panteão
dos grandes da humanidade. Santos Dumont, César Lattes, Carlos Chagas,
Machado de Assis, Oscar Niemayer, etc. São compatriotas que demonstram
o potencial do “gigante adormecido”. “Brasil, país do futuro — sempre
do futuro?”, dirá, ironicamente, o leitor mais incauto. Um futuro
mais próximo, porém: pela primeira vez, o Estado, através
de leis democráticas, começa a resguardar o citado potencial.
Leis como as que regem o direito de greve, os crimes hediondos, os juizados
de pequenas causas e outras podem parecer pouco; mas para um país
que até poucos anos era governado por uma ditadura, tais leis constituem
um avanço fundamental.
O maior legado brasileiro, todavia, encontra-se num campo inesperado; tal
classificação decorre do fato deste assunto ser um tanto
controverso. Trata-se da questão racial — e de como a intensa miscigenação
produziu uma experiência antropológica única no mundo.
Não se trata de retomar o ultrapassado mito da “democracia racial”,
que apenas serviu — e serve — para disfarçar o preconceito latente
em parte da população. Mas quando se olha a multiplicação
de conflitos étnico-raciais no globo, é inegável o
nosso desenvolvimento. Eis o legado: enquanto as outras nações
ainda buscam a tolerância racial — inclusive os “poderosos” EUA —
nós já estamos num estágio mais avançado: no
Brasil, busca-se a convivência racial, baseada em nossa singular
miscigenação. Seria a glória do já falecido
antropólogo Darcy Ribeiro, renomado pesquisador desse assunto: com
apenas 500 anos de “idade”, o Brasil conseguiu aquilo que nenhum outro
país no mundo obteve — passar no estágio da tolerância
para o da convivência racial. “Brasil, farol da humanidade”: num
planeta marcado por ódios ancestrais, esta mensagem mostra que é
possível buscar a convivência — bastando seguir o caminho
apontado pelo nosso país.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: ROGÉRIO CARDOSO DA SILVA
Cidade: CURITIBA-PR
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
500 anos de Brasil e nenhum de autonômia própria
Indiferente a uma gama de outros países terceiro mundistas, o Brasil
é o resultado de uma colonização de exploração,
em que sempre serviu de sustentação econômica para
os países do Hemisfério Norte, sobretudo Portugal. Esse desajuste
social, financeiro, econômico e cultural pelo qual passamos, é
o resultado do desiquilíbrio de forças que sempre favoreceu
os estrangeiros em nosso detrimento, remontando aproximadamente cinco séculos.
Tudo começou com o monopólio sobre a exploração
do pau-brasil. Houve uma verdadeira devastação da espécie
e foi utilizado até como forma de pagamento de dívidas atrasadas.
Ignorou-se o desiquilíbrio ecológico e o respeito pela população
nativa. Como se não bastasse, as sucessivas guerras com as populações
locais, no mesmo período colonial, acabaram por reduzí-las
ao que são hoje: um minguado número de aproximadamente 330.000
indivíduos. Como precisamente nos lembra o antropólogo Darcy
Ribeiro: “eles só nos queriam como feitoria lucrativa”.
Toda essa visão inebriada de negativismo ? porém verdadeiro
? contraria aqueles chavões ufanistas e nacionalistas que a classe
dominante nos procura outorgar: “No Brasil, plantando, tudo se dá”,
ou “Brasil, país do futuro”. É bem verdade que delineamos
uma trilha ímpar no longo desses 500 anos, e conseguimos uma reputação
internacional invejável perante os países que tiveram nossa
mesma origem sócio-econômica; mas isso não desbanca
os graves entraves existenciais que nos afetam ou afetaram. E os inúmeros
negros que foram massacrados pelos latifundiários? E a corrupção
que sempre cercou e ainda afeta os nossos governantes? E a falta de uma
política séria que debata a realidade da nação?
Por essas e por uma série de outras indagações sem
respostas ou com respostas forçadas é que os condescentes
com a situação devem, no mínimo, reverem seus discursos.
Nesses cinco séculos sempre tivemos a mercê de decisões
alheias aos nossos próprios direitos. Fomos dominados ideologicamente
por portugueses, ingleses e agora, com a multipolarização
planetária por intermédio de Blocos, pelos norte-americanos.
Nunca tivemos autonomia intelectual, algo nosso, inteiramente “tupiniquim”,
como a Revolução Chinesa, Cubana ou Russa. Pode-se alegar
tudo, mas a essência é que carecemos de ideais próprias.
Precisamos bem mais que um “sete de setembro” para conseguirmos nossa real
independência. Mais que leis que cuidam do racismo, precisamos conscientizar
a população da total igualdade entre os homens. Necessitamos
mais de melhores salários para a classe trabalhadora, do que leis
que tratam do assunto. A partir do momento em que todas essas barreiras
forem transpostas, em que houver real compatibilidade entre teoria e prática,
aí então poderemos nos orgulhar de fato desse país.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: THAIS CRISTINA CHAVES
Cidade: CAMPINAS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
A Antropofagia deturpada
Ao completarmos quinhentos anos de existência aos “olhos do mundo
europeu”, é no mínimo incoerente deixar de cogitar até
que ponto incorporamos, ao nosso “psiquismo”, essa visão européia
da “terra do pau-Brasil” e o quanto nos utilizamos dela como referencial
para nossa auto-identificação.
O próprio movimento antropofágico, criado por modernistas
na década de vinte, fazia menção ao fato de que deveríamos
sim “engolir”, incorporar, as idéias e tendências vindas do
velho mundo. Entretanto esse ato de “canibalismo” deveria ser sempre acompanhado
por uma “digestão” sistemática e seletiva, e seguida por
uma excreção traumática do que fosse considerado “dejeto”,
ou seja, idéias que só serviriam para manter o Brasil sob
as égides ideológicas da metrópole européia.
Sempre praticamos este “antropofagismo deturpado”, deixamo-nos corromper
pela ideologia pragmática européia e nos esquecemos de jogar
os “excrementos” ao lixo. O Europeu trouxe em sua bagagem seu sistema político
e econômico pronto para ser colocado em prática, o colonialismo
fez uso extremado de nossas ditas “riquezas naturais” e nos deixou como
legado uma “vocação eterna” para fornecer as chamadas matérias–primas,
e dispostos a nos entrarmos neste conformismo de sermos um “país
abençoado por Deus”. Movido pelo próprio imediatismo, herdado
de nossos ancestrais portugueses, deixou-se de se utilizar dessa “riqueza
natural” abundante para desenvolver uma tecnologia de ponta, capaz de nos
fornecer autonomia e autogestão.
A elite brasileira continua com seus olhos voltados para o mar e de “costas”
para o Brasil, impregnados pelo status quo de europeus em exílio
na colônia e sem buscar alternativa para um enraizamento cultural,
se voltam contra a realidade nacional. Esquecem-se do fato de que não
apenas uma “filial portuguesa” na América, mas uma nova raça,
que precisa de políticas de inserção específicas
e que se baseiam em dados da nossa própria realidade, afinal de
contas somos o “melting-pot”.
Até os dias atuais nossa elite sustenta-se e sustenta o Brasil à
custa de investimentos estrangeiros. Esquece-se de consolidar aqui uma
indústria forte e voltada para pesquisa de campo nacional. Resolveu
simplesmente abrir as portas, e todo o resto para o capital estrangeiro.
O mundo mudou. O Brasil não. Precisamos acompanhar esses novos contornos
econômicos da era globalizada. Não deixaremos nunca de pagar
juros de dívidas se continuarmos a deixar de investir em nossa própria
gente, pois falar em riquezas naturais como o grande patrimônio
do Brasil, é no mínimo um grande sofisma , se considerarmos
que, na atualidade riqueza não é sinônimo de conhecimento,
ou “royalties”, de patentes.
Hoje somos parte do grupo dos chamados “emergentes”, continuamos a ser
vistos e a nos olharmos com os olhos segregacionistas do mundo europeu
e do desenvolvido. Modernizamos sim em vários aspectos nossas instituições,
mas em grande parte estas refletem a falta de políticas nacionais
estruturais atuantes, no que se diz respeito ao cidadão, marcados
pela corrupção e pelo descaso por nossas próprias
questões. No Brasil de hoje continuamos a nos “embebedar” pelo culto
ao estrangeiro, elegendo até mesmo um presidente que reflete a própria
visão do europeu do que seria um perfeito Estadista. Mas um perfeito
governante no Brasil, não condiz com o modelo um perfeito
Estadista europeu. Mario de Andrade talvez hoje nos aconselharia: “façamos
a antropofagia, mas que ela seja a antropofagia do Brasil, pelo próprio
Brasil”. Esse imenso estrangeiro nacional a ser descoberto.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: THAIS MASCAGNA BARBI
Cidade: SÃO CAETANO DO SUL-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
País das ideologias
Brasil do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do ouro, de D. Pedro,
do café, de Campos Sales, Floriano Peixoto, Nilo Peçanha
... das oligarquias dissidentes, do tenentismo, de Getúlio, do Estado
Novo, da indústria e do Plano de Metas de “Juscelinos”, “Jangos”,
“Jânios”, renúncias, suicídios, ditaduras e democracias...
Depois de praticamente quinhentos anos da “descoberta”, onde se encontra
o achado europeu?
Se enganam os que todavia acreditam que o Brasil seja somente o país
do futebol, das alegrias e de carnaval. Temos muito mais do que história
para contar, temos um passado de muita riqueza e exploração.
Riqueza para o europeu que aqui chegou e que usufruiu dos nossos recursos
e se utilizou sem escrúpulos de um povo que nesta terra vivia e
sobrevivia. Exploração para os “achados”.
Construíram a história deste país sem deixar que ela
fosse construída por si só, manipularam-na de acordo com
seus interesses. Acabou a cana? -- ouro. Acabou o ouro? --
café. E assim, dentro desta substituição sistemática
o país foi se incorporando, crescendo, desenvolvendo (melhor dizer
subdesenvolvendo) e carregando um passado que se reflete no presente. Sabemos
que apesar dos longínquos séculos da exploração
colonial seguimos sendo explorados. Continuamos nas condições
de colônia, é claro que extra-oficialmente. Ainda não
deixamos de ser fornecedores, de gerar riquezas aos que nos controlam e
de submetermo-nos ao estrangeiro. Continuamos, cada vez mais, a ser invadidos
por culturas e ideologias que provém de solos alheios. Eles plantam
e nós cultivamos. Eles dominam e nós somos dominados.
É como se D. Pedro não tivesse declarado a independência
. “Independência”? Independentes somente se for de realizarmos algo
que não é nosso, de deixarmos ser invadidos pela massificação
e alienação a que constantemente vivemos. Massificação
por havermos nos tornado iguais em relação aos pensamentos
e ações; e alienação pela incapacidade de enxergar
que todavia nos falta muito para que atinjamos a qualidade de um verdadeiro
povo ? capaz de discernir e escolher, de criar, transformar e mudar.
Logo, dizer que o Brasil cresceu e deixou de ser a colônia que Portugal
tanto explorou e que é uma potência com qualidades para emergir,
é mais uma das ideologias estrangeiras que compramos a toda hora.
Enquanto não deixamos de ser medíocres por acreditarmos nela
e tomarmos consciência de quem realmente somos, nem indústria
nem computador nos elevarão à categoria real de povo.
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| Redação acima da média – Tema A / Vestibular
Unicamp 99 |
Nome: TIAGO NOGUCHI MACHUCA
Cidade: CURITIBA-PR
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA
Apesar de estudos comprovarem a chegada de outro navegador português
anterior a Pedro Álvares Cabral, a descoberta do Brasil é
a este atribuída. Ano de 1500, oficialmente nascia para o velho
mundo mais uma colônia de exploração, da qual poderia
retirar tudo o que desejasse, sem preocupações com seus habitantes
nativos e muito menos com o meio ambiente. A primeira devastação
foi a do pau-brasil, que não demorou muito a escassear. Em seguida,
o cultivo da cana-de-açúcar no sistema “plantation” (monocultura,
latifúndio e produção destinada ao mercado externo),
o qual deixou seqüelas irreversíveis na região nordestina.
Depois a mineração que devastou muitas passagens em Minas
Gerais. Então veio a Independência, o império, a República,
o café e a imigração, o regime militar, as eleições
diretas, o “impeachment” de Collor ... é 1998!
Todo esse processo histórico brasileiro é muito importante
para que se entenda a situação atual do país. Na economia,
já na época do pau-brasil realizaram-se empréstimos
externos, os quais se concentraram no regime militar e hoje, o simples
pagamento de seus juros representa um enorme entrave para o crescimento
econômico. E, infelizmente, tudo indica que o Brasil entrou em um
círculo vicioso de dependência financeira. Recente exemplo
disso foi o dinheiro que o FMI, juntamente com outras instituições
e países, emprestou à nação para evitar a sua
“quebra”.
No campo social, o que tem prevalecido é o dualismo que o país
apresenta; sua distribuição de renda alcançou o topo
entre as mais desiguais do mundo. E é no nordeste, palco do ciclo
açucareiro, que as disparidades são maiores. A concentração
de terra chega ao ponto de lembrar o sistema feudal, uma vez que alguns
poucos latifundiários exploram uma população de miseráveis.
E, convivendo com esse quadro econômico e social tem-se o povo brasileiro.
A miscigenação entre as diversas raças e mais variadas
culturas formou um povo único, singular, que devido a essa distinção
poderia ser tranqüilamente denominado de complexo étnico brasileiro.
E são essas pessoas que, apesar das péssimas condições
de vida, estarão nas ruas em abril do ano 2000, participando alegremente
das comemorações dos 500 anos de descoberta de seu país,
mesmo que tardiamente.
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