Exemplos de redações acima da média
Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
  

  
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  Tema A / Vestibular Unicamp 99
 

          O Brasil está em vias de completar cinco séculos de existência aos olhos do mundo europeu. São os já conhecidos 500 anos de seu descobrimento, que serão comemorados oficialmente em abril de 2000. Como em qualquer data importante, o momento é oportuno para um balanço e uma reflexão. O balanço poderia resultar muito parcial, se se prendesse exclusivamente a fatos econômicos e a dados sociais circunstanciais. Por isso, faz-se necessário, neste caso, considerar a questão de quem somos hoje. Tendo isso em mente, e contando com o apoio obrigatório dos fragmentos abaixo, escreva uma dissertação sobre o tema   
   
 500 anos de Brasil   
   
1. Esqueça tudo o que você aprendeu na escola sobre o descobrimento do Brasil. (...) A dois anos das comemorações oficiais pelos 500 anos de descobrimento do Brasil, os últimos trabalhos de pesquisadores portugueses, espanhóis e franceses revelam uma história muito mais fascinante e épica sobre a chegada dos colonizadores portugueses ao Novo Mundo. O primeiro português a chegar ao Brasil foi o navegador Duarte Pacheco Pereira, um gênio da astronomia, navegação e geografia e homem da mais absoluta confiança do rei de Portugal, d. Manuel I. Duarte Pacheco descobriu o Brasil um ano e meio antes de Cabral, entre novembro e dezembro de 1498. (...) As novas pesquisas sobre a verdadeira história do descobrimento sepultam definitivamente a inocente versão ensinada nas escolas de que Cabral chegou ao Brasil por acaso, depois de ter-se desviado da sua rota em direção às Índias. (ISTOÉ, 26 de novembro de 1997.)   

2. ... a despeito de nossa riqueza aparente, somos uma nação pobre em sua generalidade, onde a distribuição do dinheiro é viciosa, onde a posse das terras é anacrônica. Aquele anda nas mãos dos negociantes estrangeiros; estas sob o tacão de alguns senhores feudais. A grande massa da população, espoliada por dois lados, arredada do comércio e da lavoura, neste país essencialmente agrícola, como se costuma dizer, moureja por ali abatida e faminta, não tendo outra indústria em que trabalhe; pois que até os palitos e os paus de vassoura mandam-lhe vir do estrangeiro.   
(...) povo educado, como um rebanho mole e automático, sob a vergasta do poder absoluto, vibrada pelos governadores, vice-reis, capitães-mores e pelos padres da companhia; povo flagelado por todas as extorsões – nunca fomos, nem somos ainda uma nação culta, livre e original. (Romero, Sílvio. História da Literatura Brasileira. 1881.)   

3. O Brasil surge e se edifica a si mesmo, mas não em razão do desígnio de seus colonizadores. Eles só nos queriam como feitoria lucrativa. Contrariando as suas expectativas, nos erguemos, imprudentes, inesperadamente, como um novo povo, distinto de quantos haja, deles inclusive, na busca de nosso ser e de nosso destino. (...) Somos um povo novo, vale dizer um gênero singular de gente marcada por nossas matrizes, mas diferente de todas, sem caminho de retorno a qualquer delas. Esta singularidade nos condena a nos inventarmos a nós mesmos, uma vez que já não somos indígenas, nem transplantes ultramarinos de Portugal ou da África. (Ribeiro, Darcy. O Brasil como problema.1995.)   

4. Não conhecemos proletariado, nem fortunas colossais que jamais se hão de acumular entre nós, graças aos nossos hábitos e sistema de sucessão. Nem argentarismo, pior que a tirania, nem pauperismo, pior que a escravidão.   
(...)   
O Brasil jamais provocou, jamais agrediu, jamais lesou, jamais humilhou outras nações.   
(...)   
A estatística dos crimes depõe muito em favor dos nossos costumes. Viaja-se pelo sertão sem armas, com plena segurança,  topando sempre gente simples, honesta, serviçal.   
Os homens de Estado costumam deixar o poder mais pobres do que nele entraram. Magistrados subalternos, insuficientemente remunerados, sustentam terríveis lutas obscuras, em prol da justiça, contra potentados locais. (...) Quase todos os homens políticos brasileiros legam a miséria a suas famílias. (Affonso Celso. Porque me ufano de meu país. 1900.)   

5. (…) Se tu vencesses Calabar! / Se em vez de portugueses, / ? holandeses!? / Ai de nós! / Ai de nós sem as coisas deliciosas que em nós moram: / redes, / rezas, / novenas, / procissões, ? / e essa tristeza, Calabar, / e essa alegria danada, que se sente / subindo, balançando, a alma da gente. / Calabar, tu não sentiste / essa alegria gostosa de ser triste! (Lima, Jorge de. Poesia Completa, vol. 1.)   

6. O pau-brasil foi o primeiro monopólio estatal do Brasil: só a metrópole podia explorá-lo (ou terceirizar o empreendimento). Seria, também, o mais duradouro dos cartéis: a exploração só foi aberta à iniciativa privada em 1872, quando as reservas já haviam escasseado brutalmente. Exploração não é o termo: o que houve foi uma devastação, com a derrubada de 70 milhões de árvores. Como que confirmando a vocação simbólica, o pau-brasil seria usado, em setembro de 1826, para o pagamento dos juros do primeiro empréstimo externo tomado pelo Brasil. Ao deparar com o Tesouro Nacional desprovido de ouro, d. Pedro I enviou à Inglaterra 50 quintais (3t) de toras de pau-brasil para leiloá-las em Londres. A esperança do Imperador de saldar a dívida com o “pau-de-tinta” esbarrou numa inovação tecnológica: o advento da indústria de anilinas reduzira em muito o valor da árvore-símbolo do Brasil. Os juros foram pagos com atraso. Em dinheiro, não em paus. (Bueno, E. (org). História do Brasil. Empresa Folha da Manhã. 2ª ed. 1997.)   

7. Jamais se saberá com certeza, mas quando os portugueses chegaram à Bahia, os índios brasileiros somavam mais de 2 milhões - quase três, segundo alguns autores. Agora, dizimados por gripe, sarampo e varíola, escravizados aos milhares e exterminados pelas guerras tribais e pelo avanço da civilização, não passam de 325.652 - menos do que dois Maracanãs lotados. (...) A idade média dos índios brasileiros é de 17,5 anos, porque mais da metade da população tem menos de 15 anos. A expectativa de vida é de 45,6 anos, e a mortalidade infantil é de 150 para cada mil nascidos. Existem pelo menos 50 grupos que jamais mantiveram contato com o homem branco, 41 dos quais nem sequer se sabe onde vivem, embora seu destino já pareça traçado: a extinção os persegue e ameaça. (Bueno, E. (org). História do Brasil. Empresa Folha da Manhã. 2ª ed. 1997.)   

8. Há um Código de Defesa do Consumidor, há leis que cuidam do racismo, do direito de greve, dos crimes hediondos, do juizado de pequenas causas, do sigilo da conversação telefônica, da tortura, etc. O país cresceu. (Carvalho Filho, L. F. Folha de S. Paulo. 3 de outubro de 1998.)   
  



  
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  Expectativa da Banca Elaboradora
 

500 anos de Brasil 

          Qualquer comemoração liga uma data presente a um acontecimento passado, encarado como marco historicamente importante. Nesse caso, o acontecimento que se comemora é a chegada às costas brasileiras das naus de Cabral, mas o enunciado da dissertação deixa claro: não se espera que o candidato trate dos episódios que presumivelmente ocorreram em abril de 1500, e que a História reuniu sob a denominação de “Descobrimento do Brasil”. Trata-se, sim, de ver o descobrimento como marco inicial do processo histórico que resultou na nação brasileira que somos hoje (“quem somos”). Espera-se, pois, que o candidato use os quinhentos anos do descobrimento como motivo para um balanço desse processo, optando por um dos tantos enfoques sugeridos pela coletânea. Descrevem-se a seguir alguns desses enfoques possíveis: 

I - Balanço favorável: 
 

  • A nação brasileira pode considerar-se verdadeiramente emancipada, em termos étnicos e culturais, no sentido de ter desenvolvido uma cultura própria, ou mesmo de ser uma raça diferente. Na coletânea, essas posições são defendidas pelos dois textos que propõem os balanços mais otimistas para o país, o de Darcy Ribeiro, para quem os elementos indígena, português e africano se combinaram em uma nova etnia, que já não se confunde com nenhuma daquelas; e o de Afonso Celso, para quem haveria uma índole brasileira, profundamente pacífica e radicalmente avessa à ganância e à exploração. 

  • A herança portuguesa foi positiva para a cultura brasileira. O poema Calabar, de Jorge de Lima, aponta dois traços da cultura brasileira que teriam sido irremediavelmente perdidos se os holandeses tivessem tido sucesso em sua invasão do século XVII: a forte presença do catolicismo em suas devoções religiosas e festas populares, e a força dos sentimentos e das emoções. O candidato poderia acrescentar ainda outras marcas portuguesas na cultura brasileira, como a língua, a cordialidade, a forma de lidar com a diversidade racial, etc. 

  • Somos hoje uma nação com uma sociedade civil amadurecida, como apontam algumas leis mais ou menos recentes que zelam pela convivência social: o Código de defesa do consumidor, as leis que cuidam do racismo, dos crimes hediondos, etc.

  • O candidato poderá usar os fragmentos da coletânea que fazem um balanço desfavorável, e contestar as opiniões e informações que eles veiculam. 

 
 II - Balanço desfavorável:  
 
  • O candidato poderá lembrar que a história que remonta ao descobrimento de Cabral foi por muito tempo a de um país-colônia. Para um autor como Sílvio Romero, o Brasil era, e seria por muito tempo uma nação inculta, dependente e servil, arrastando um atraso de origem colonial. Ao passado colonial remonta também a mentalidade predatória que provocou a dizimação das populações indígenas e que levou à exploração descontrolada dos recursos naturais   (FSP, História do Brasil). Pode-se mostrar outras permanências do passado colonial, como a má distribuição da renda e a espoliação do povo pelos mais abastados (Sílvio Romero). 

  • O candidato poderá ainda usar os fragmentos da coletânea que fazem um balanço favorável e contestar as informações ou opiniões que eles trazem. 

III - Meio termo:  

         O candidato poderá usar os fragmentos da coletânea, favoráveis ou desfavoráveis, e desenvolver uma terceira posição, levando em conta, de maneira equilibrada, os elementos fornecidos pelos fragmentos. 

 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   ABDSANDRYK CUNHA DE SOUZA 
Cidade: GOIÂNIA-GO 
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA ELÉTRICA (D) 

Enterrando o passado 
 

         Às margens do ano 2000, o Brasil começa a voltar suas atenções para a comemoração de seus 500 anos de descobrimento, mesmo que recentemente pesquisas revelem equívocos históricos que comprometeriam a precisão de tal momento. A evidenciação do fato inspira nos mais críticos um momento de reflexão, notadamente iniciado na análise histórica que remete uma explicação para a atual situação do país. 
         A volta ao passado evidencia uma visão histórica depreciativa pois o enfoque é dado pela visão do europeu, que por vezes retrata tendenciosamente fatos indispensáveis à compreensão da realidade. Livros revelam navegadores como heróis, nações européias mitificadas, uma postura contemplativa por um lado, mas distorce a imagem do novo mundo. Nesse princípio fica clara uma concepção capitalista, a oposição entre o rico e o pobre, o poder e a miséria, característicos do cenário de dominação. 
         Dessa forma, o Brasil foi colocado de forma marginalizada, uma postura negativa que empobreceu os valores racionais. Não há quem contemple a riqueza natural, sem ressaltar a pobreza espiritual daqueles que vivem e administram esse país. A visão dos historiadores foi uma herança que entrou na cultura do povo, infelizmente. Desde o princípio fixou-se uma imagem de terra explorada, quintal do mundo desenvolvido, isto é, o Brasil é o mundo subdesenvolvido. 
-Para completar essa classificação, ou melhor, essa rotulação, inseriram nas relações passadas o bom colonizador, aquele que trouxe a religião, o ensino, uma maneira de desbrutalizar o povo americano. Assim, asseguraram mais uma vez a superioridade do europeu, agora benevolente. 
         Nota-se claramente que sempre predominou uma análise que jamais revelaria um momento de comemoração. O brasileiro não consegue somar à sua postura de vida os valores nacionalistas. O único orgulho do povo é o esporte, pelo menos evidenciado a âmbito nacional. Isso fica claro quando comparamos o aniversário da Independência do Brasil com os jogos de copa do mundo. Politicamente essa é a atual visão do povo, e economicamente, o státus que desfruta o país leva a mais uma decepção. A herança colonial perdurou inclusive no aspecto social, pois ainda dividimos a sociedade de acordo com os preceitos do passado, inclusive etnicamente, estruturada nas grandes diferenças de classes. 
          A triste concepção de desenvolvimento jamais buscou, porém, elevar os valores, inclusive históricos, do povo brasileiro. Na visão ufanista talvez, ainda possamos encontrar a luta que envolveu a conquista do título de nação, a singular busca de autonomia e respeito, a excêntrica cultura nacional, a mesma que há muito vem sendo marginalizada pela postura de subordinação nacional. Infelizmente, ao pensarmos desta forma surge a crítica destrutiva, a desvalorização daqueles que buscam fugir do passado presente na conduta do povo que compõe o Brasil atual. 
          O materialismo capitalista destruiu o passado, destruiu muitas das riquezas do país, o índio, a mata, o povo. Na atual mistura de raças, não se reconhece o indivíduo capaz de valorizar e engrandecer o país. Deve-se lembrar que o país, essa nação, enfrentou situações terríveis, e por estar na atual situação, venceu. O potencial é enorme, basta que este povo seja o primeiro a coletivamente perceber isso e lutar por fazer de tais riquezas um bem ao país, e não aos que destruíram muito da fertilidade desta nação. Somos hoje uma semente, livre, que pode fazer do futuro um motivo de comemoração. 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   ALESSANDRA DE ANDRADE RIBEIRO 
Cidade: RIBEIRÃO PRETO-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIAS SOCIAIS (D) 
 

500 anos de colônia 
 
          Ao estudarmos nossa história, desde seu descobrimento até os dias de hoje, depreendemos que, em muitos aspectos o Brasil mudou, mas em outros pontos essenciais ele continua o mesmo. 
          Antes haviam grupos indígenas e seus rituais próprios de iniciação, escravos negros e carroças. Hoje há Carla Peres para todos, proletários morenos, carros importados. Sim, houve mudanças, como vemos claramente, de uma cultura variada, ou várias culturas, para a cultura de nossa massa, da tecnologia precária das caravelas para a tecnologia de ponta dos clones. 
          Voltemos ao descobrimento. Este foi realizado já no início do desenvolvimento do sistema capitalista, durante o denominado Mercantilismo. A intenção das navegações que corriam nesta época era de conquistar novas terras para obter matérias-primas, novos mercados, capturar a riqueza das novas terras, ampliar o império dos colonizadores e realizar comércio. O discurso pregado desta época para justificar estas ações era o religioso, colonizar e catequisar para salvar almas. Fez-se, então, no Brasil e nas Américas, o etinocídio e o genocídio de índios em nome destas bandeiras, porém, sempre com intenções financeiras e de hegemonia como base e estimulante. 
          Durante a Monarquia havia um rei e sua corte muitos a serem comandados e dominados por seu poder e autoridade. Hoje há a República e a Democracia como regimes políticos, um presidente e uma minoria da elite possuidora de grande parte do capital produzido e da cultura desenvolvida, por um lado. Por outro, continua havendo uma grande maioria que é dominada e comandada, com, ainda, pouquíssimos recursos financeiros,  ? e raras são as excessões ? intelectuais e culturais. Vemos, portanto, que nem tudo mudou, apesar das mudanças ocorridas. 
         Mas, se por quinhentos anos vemos esta mesma situação, de disparidades sociais e dominação, por que, afinal, com tantas mudanças estes aspectos, em seu âmago, ainda continuam os mesmos? Sim, podemos ver que houve revolta na tentativa de mudanças mais profundas, como a Inconfidência Mineira e os movimentos estudantis da déc. de 60, passando pela conjuração Baiana e por Canudos, mas todos foram fortemente reprimidos. Além da repressão ocorrida e existente ainda hoje, há outro fator agravante, a alienação, que possibilita a manutenção do status-quo. Esta minoria dominante lança conjuntos de idéias nos Aparelhos Ideológicos de Estado, segundo o conceito de Althusser, que escamoteiam a realidade e impedem que a grande massa tome consciência dos fatos, de suas verdadeiras razões e de suas implicações, e, com isto, que realizem mudanças afetivas. Vimos que antes havia o discurso da catequese, hoje há o de que nosso país é o oitavo no PIB, que estamos eliminando o analfabetismo, de que só não enriquece quem é preguiçoso e não trabalha. Estes são discursos ideológicos que escondem a verdadeira face da história de que há os que dominam e agem de acordo com as descrições de Maquiavel e há os dominados. Há os países do primeiro mundo e há as colônias. Esta questão, da divisão de rendas e conhecimento é estrutural e aniversariante ? fará 500 anos no ano 2000. 
          Assim, podemos depreender que se por um lado há a evolução e revolução tecnológica, discussões sobre assédio sexual, propagandas para o uso de cinto-de-segurança e rede de esgoto encanada, há também escravos assalariados, uma pequena corte dominadora, favelas, países imperadores e colônias subdesenvolvidas com seus índios a serem “catequisados”. Muitas mudanças e poucas mudanças afetivas. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   ALEXANDRE ALOISIO MALDANER 
Cidade: CHAPECÓ-SC 
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA DE COMPUTAÇÃO 
 

          O Brasil se construiu com base numa história de distorções. A sociedade contemporânea é o resultado de um longo processo de erros, mentiras e grandes problemas não resolvidos . A moldura da história brasileira é marcada pelas injustiças e desigualdades que assolam este país. 
          O festival de enganações começa com o descobrimento e segue firme ao longo dos séculos. Descoberto pelos portugueses, o Brasil se inseriu nos quadros do Antigo Sistema Colonial, satisfazendo aos interesses externos. Na época de colônia começaram as grandes desigualdades sociais, “marca registrada” da nação. A opressão social, com o único interesse de preservar a hegemonia de uma pequena elite, é o berço das terríveis injustiças que caracterizam a sociedade. Explorado pela metrópole, o Brasil tomava o rumo da inevitável dependência econômica. O papel dos colonizadores foi colocar o país no caminho do subdesenvolvimento. 
          Vários são os exemplos de falseamento ideológico no Brasil colônia perpetuados pela história. O descobrimento em si contém uma farsa: jamais foi casual, como a história quis fazer acreditar. Daí em diante vieram outras mentiras, referentes a diversos aspectos: os contatos com os indígenas, a escravidão e o tráfico negreiro, os interesses dos colonizadores, a missão da igreja de trazer o cristianismo para os “povos pagãos” daqui. Há até a falsa idéia de que, fosse o Brasil colonizado por outra metrópole — Inglaterra ou Holanda —, não seria economicamente atrasado. Ora, os interesses seriam os mesmos, e a preocupação com a população pobre e oprimida seria igualmente nula. 
          Veio a “independência” e cresceram os espaços para o agravamento da situação. Que independência era aquela em que se preservavam todos os interesses externos em detrimento da real emancipação político- econômica? Manutenção da escravidão, crescimento constante das desigualdades, descaso das autoridades. Tanto na Monarquia como na República os problemas endêmicos do país permaneceram: concentração de terras e de renda, inexistência de oportunidades para a maioria, pobreza, fome, analfabetismo, desemprego. E as distorções estão sempre presentes, de acordo com os interesses dos grupos dominantes, tentando mostrar que o país vai bem. Foi assim na época da ascensão do café, na Era Vargas, no golpe militar com o “milagre econômico” e, atualmente, no Plano Real. 
          Efetivamente, houve fases de relativa prosperidade, com melhorias em alguns aspectos. Mas em nenhum momento houve ruptura com os laços históricos de subordinação externa; nunca foram tomadas medidas para cortar pela raiz os problemas do “Zé Povão”. 
          Diante de um quadro histórico tão assustador, as perspectivas de futuro e a situação presente podem parecer extremamente perversas. Afinal, são enormes os problemas da gente brasileira e não são nada animadoras as relações do Brasil com os países desenvolvidos: endividamento crescente, insegurança dos investidores, déficit comercial. Os erros históricos são fatores determinantes no Brasil de hoje. 
          Há, contudo, um elemento fundamental nesse povo sofrido, nesse país de contrastes. É um elemento que mantém o país na expectativa de um futuro melhor, indispensável para tornar o Brasil grande, como são grandes suas riquezas, seu território e sua gente. Esse elemento é a esperança. Aliada à força de vontade para mudar, para fazer o país crescer, para trabalhar, a esperança pode conduzir o Brasil a uma nova história, livre das amarras impostas pelos séculos de dificuldades. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   ANA CAROLINA FREIRE COSTA 
Cidade: CAMPINAS-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

Um Brasil em formação 

          Quando se fala em um país, é um processo natural a formação de uma idéia estereotipada na mente de qualquer pessoa. Esta associação tende a uma generalização demasiada e raras vezes condizentes com a realidade. A Holanda tem moinhos e liberdade às drogas em Amsterdam. Já a Inglaterra conta com a respeitável Rainha Elizabeth II e também com os Hooligans que aterrorizaram Paris. De forma análoga, o Brasil está associado a mulatas, futebol, natureza exuberante, além de adjetivos recorrentes como “paraíso fiscal” e país pacífico com democracia racial. Mas generalizações, não raro, tendem ao erro. 
          A criação de mitos sempre acompanhou nossa história. O primeiro foi Cabral e sua chegada acidental à costa brasileira. 
Pesquisas vieram esclarecer que outro navegador chegara antes ao país, fato que desmonta a farsa do desvio na rota de Cabral às Índias. Não obstante, tal desvio sempre fora duvidoso, tendo base nas mudanças no Tratado de Tordesilhas à época da expansão ultramarina. 
          Outro mito que nos pertence é o do “país sem racismo”. Nada tão longe da realidade. A disparidade salarial entre negros e brancos é ultrajante. Além disso, os índios, primeiros habitantes dessa terra, hoje, lutam por reservas na floresta Amazônica e enfrentam dificuldades. Algumas tribos permanecem desconhecidas aos brancos, escondidas no interior da selva, e, desta forma asseguram sua sobrevivência. Esse conjunto de dados reais apontam para um Brasil com vários povos ainda não integrados, fugindo à ideal miscigenação que, além de racial, deveria ser cultural. Falta-nos o respeito mútuo. 
          Muito se fala em país pacífico. Não será preciso mencionar a guerra civil que os brasileiros vivem nas ruas diariamente, fugindo de assaltantes, desconfiando da polícia. Todavia, mesmo no plano internacional, não merecemos tal caracterização. O Brasil massacrou o Paraguai na pouco comentada Guerra do Paraguai. Se não carregamos a fama de assassinos como os nazistas alemães, devemos agradecer à inexistência de um Spielberg “made in Paraguai”. 
          Há que se citar nossa persistente posição de colônia. Nossa independência foi política, mas nunca financeira. Portugal utilizou nosso pau-brasil para pagar dívidas com a Inglaterra, e, há alguns meses, vendemos nossas estatais visando o pagamento de dívida externa. Por independência econômica, sofremos o imperialismo americano e somos pressionados a aceitar o ALCA. 
          Entretanto, nosso mito mais desonroso está na política. Há no país políticos presenteados com total impunidade para seus atos, que não se esforçam para construir um país melhor. Nossas leis são obsoletas e permitem uma série de ilegalidades pela falta de rigor. A falta de fiscalização nos confere o título de paraíso fiscal, e essa visão é veiculada pelo globo. 
          Mas não podemos deixar de fazer ressalvas. A maioria dos brasileiros quer ajudar a transformar nosso país. Em meio a tantos mitos e verdades perde-se a noção do caminho a seguir. Enquanto dizem que nosso nacionalismo só vem à tona no Carnaval e na Copa do Mundo de Futebol, organizamos campanhas contra a fome e violência. Temos protestos, manifestações, lutamos por um novo país. A falha integração de nossos povos vem dando lugar à unidade em esperanças por mudanças. 
          Em 500 anos de Brasil, ou muito mais quando consideramos o período somente de índios, a realidade do Brasil é extremamente complexa. E é exatamente essa complexidade que garante sermos únicos. Um país com calor humano,  gente alegre e sofrida, honesta e desonesta. Somos um país em formação. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   ANA CAROLINA SANTOS DE SOUZA 
Cidade: SÃO JOSÉ DOS CAMPOS-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA CIVIL 
 

 Brasil, ainda colônia? 

          Embora existam controvérsias a respeito da verdadeira data do descobrimento do Brasil, o país prepara-se para comemorar os seus quinhentos anos e nesse instante abre-se espaço para uma reflexão sobre o que foi e o que é aquela ex-colônia portuguesa, hoje um dos países líderes da América do Sul. Será que este “país emergente” mudou tanto em relação a colônia de exploração que outrora fôra? Dívida externa, massacre de índios, má distribuição de renda, exploração econômica e política. Em certos aspectos é difícil diferenciar a colônia portuguesa do país atual, mais difícil ainda é traçar o perfil do brasileiro “atual”. 
          Outrora o pau-brasil, hoje uma infinidade de produtos. Se antes a colônia se submetia ao domínio e exploração dos portugueses, atualmente o país, apesar de contar com maior liberdade, ainda se submete ao poder das atuais potências econômicas. O pau-brasil dera lugar a madeira de lei, ao látex e outros produtos do extrativismo vegetal, mas além destes vê-se “fugir” do país enormes quantidades de minérios e produtos agrícolas, elementos relativamente baratos cuja exportação não rende ao país o suficiente para cobrir suas elevadas dívidas, frutos das importações de tecnologia e outros produtos bem mais raros que os exportados pelo país. A dívida externa permanece, o pau-brasil não conseguira pagá-la nos tempos de colônia e o país atual também dela não consegue se livrar. 
          Num país atolado em dívidas, o nível de vida da população é conseqüência de tal. Apesar de rico, há no Brasil um enorme contingente de pobres gerados pela má distribuição de renda. Seja na cidade ou no campo, a pobreza aumenta, os contrastes sociais são marcantes. O caos começa no campo onde grandes propriedades concentram-se nas mãos de poucos e a maioria tem que dividir o pouco que resta. Nessa luta nem as terras indígenas são respeitadas, o “homem branco” rouba a terra, destrói a cultura, extermina os índios. Nesse contexto, mais uma vez nos deparamos frente a dificuldade em diferenciar a colônia do Brasil independente de hoje. 
          As cidades refletem as crises no campo, as máquinas roubam empregos de muitos camponeses, já não bastassem os donos das máquinas roubarem suas terras também. Com isso aumenta o êxodo rural, as cidades tornam-se “aglomerados humanos” que nem sempre têm condições de abrigar tanta gente. A pobreza se instala, acentuam-se as diferenças centro-periferia. 
          Nota-se portanto, que apesar do Brasil ter mudado tanto nestes seus quase quinhentos anos de descobrimento, muito daquela colônia portuguesa ainda apresenta, seja na mentalidade do povo sempre submisso seja na própria submissão do país. No campo ou na cidade as condições de vida continuam ruins, o povo ainda sofre. A economia agrário-exportadora, o domínio das elites, enfim, elementos do Brasil colônia insistem em perseguir o líder do Mercosul. Resta o povo exercer na pátria sua cidadania, pois esta é sem dúvida sua maior conquista e talvez o único caminho para uma mudança que realmente diferencie a colônia de Cabral do Brasil de hoje, para assim poder-se definir a cara de um verdadeiro povo brasileiro, a cara do próprio Brasil. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   BEATRIZ FERNANDA VALES FRANCHITO 
Cidade: RIO CLARO-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

República Tupiniquim 

          Preparamo-nos para comemorar 500 anos do Descobrimento do Brasil, e em meio à parafernália comemorativa exibida pela mídia, esquecemo-nos do Brasil Real, com todas as suas feridas sociais e seu subdesenvolvimento. No ano de 1998, cinco séculos após o despontar da ‘Terra de Vera Cruz’ aos olhos do mundo europeu, o país ainda conserva traços que legitimam sua posição de ‘Feitoria Lucrativa’: milhares de toneladas de produtos brasileiros são exportadas anualmente por valores quase que simbólicos, confirmando a vocação brasileira à exploração e à submissão. 
          Atualmente o país submete-se aos arrochos estipulados por nações imperialistas, reassumindo seu antigo papel de ‘Colônia de exploração’ no há muito desgastado ‘Pacto Colonial’ dos séculos XVIII e XIX. A modernização pouco transformou as relações internacionais, como também desgastou as internas: o país ainda padece das mais primitivas mazelas sócio-econômicas, como a fome, miséria, pouca infra-estrutura urbana e educacional, configurando um quadro de pobreza em sua generalidade. 
          Diante de tantas objeções, a comemoração parece perder seu sentido: o mítico avanço da civilização brasileira ignora as mais arcaicas espoliações ainda sofridas por grande parte da população, assim como gradativa perda de identidade sofrida pela nação brasileira, bombardeada por informações e comportamentos derivados do protótipo social americano, largamente difundido pela mídia. Fast-food, jeans e pagers ganharam projeção nacionais, sendo considerados ‘indispensáveis à vida dos cidadãos brasileiros’. 
          A imensa festa de aniversário assume apenas caráter alegórico, onde seus patrocinadores, aproveitando-se do desgastado sentimento nacionalista dos brasileiros, tentam, inescrupulosamente, vender seus produtos. A real simbologia do Descobrimento da Terra Brasileira, a partir de suas características singulares e marcantes não obstante, tendo em vista o contexto histórico presenciado pela população do Brasil, o momento sugere reflexão, consciência, atuação comunitária e governamental, para que a data de Descobrimento do Brasil projete o povo brasileiro não por sua inconsistência, mas em vista de sua liberdade, originalidade e desenvolvimento. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   BRUNO BERTACINI GONZAGA 
Cidade: SÃO CARLOS-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA DE COMPUTAÇÃO 
 

 A semente germinará 
 
          Ilusões... descobertas... renascimento. Crianças na escala evolutiva, o Brasil e seu povo, após quinhentos anos de inconstâncias de identidade étnica-cultural, procuram desenhar sua bandeira retirando as manchas passadistas e fixando-a em firme solo. Trabalho árduo! As manchas, matizadas durante sua formação, originaram uma nação singular mas, incondicionalmente submissa. 
          O Brasil analogamente aos outros países da América Latina, África e Ásia, foi concebido como território lucrativo para as potências européias satisfazerem seu ideal mercantilista. Na ânsia capitalista ignoraram a população nativa indígena aniquilando-os; trouxeram escravos africanos para a tortura em território estranho; estabeleceram-se de forma autoritária no solo virginal. 
          Neste enorme caldeirão étnico implantado bruscamente por mãos absolutistas e composto por uma massa torturada o resultado foi inevitável: a criação de uma nova raça sem identidade cultural, originalidade e presa a interesses externos. 
          É importante lembrar ainda que, após a saga portuguesa, holandesa, inglesa em solo brasileiro subtraindo suas riquezas naturais (Pau-Brasil, metais preciosos) e explorando o trabalho humano, criou-se espaço para uma outra forma de dominação, igualmente nociva, intensificando a “crise existencial” brasileira: a dominação cultural, principalmente norte-americana. 
          Entretanto, às vésperas de atingir sua puberdade, a nação busca suas raízes para estabelecer-se no cenário mundial. Antigos concertos históricos induzidos pelos exploradores estão desfacelando-se, resgatando da ilusão a juvenil população. O Brasil não foi descoberto; foi arquitetado. Norte-americanos não são cordiais; são dominadores. Políticos não são representantes dos indivíduos; são parasitas. 
          Nesta busca, portanto, percebe-se que os brasileiros não são reflexos de seus colonizadores, mas sim uma mistura étnica e cultural inigualável. É inevitável, porém, que os resquícios do passado interfiram na sociedade assemelhando-a às “pátrias-mãe”, bipolarizando-a entre poderosos e oprimidos no ambiente interno e externo. O importante é que, ao final das descobertas ou redescobertas o Brasil concluirá que não é o fruto do passado, mas a semente do amanhã. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   CAROLINA CODA MACHADO 
Cidade: SÃO CARLOS-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: ARQUITETURA E URBANISMO 
 

          Realmente, é de se estranhar que a rota das caravelas comandadas por Cabral tenha desviado tanto e, sorte, acabaram se deparando com terras nunca antes conhecidas por homens europeus. Surgem aí teorias, explicações, hipóteses, histórias que dão novas versões ao descobrimento das terras futuramente formadoras de um país chamado Brasil. Deixando tal dilema a parte, podemos perceber questões bem mais importantes a serem discutidas sobre esse país. E nada melhor do que a proximidade da data, mesmo que simbólica, de comemoração de 500 anos de descobrimento do Brasil. 
          Voltemos, então, ao passado. Passado que leva ao presente; passado cujo estudo revela episódios que terão por conseqüência a realidade que vivemos hoje. 
 Antes da chegada dos portugueses, milhões de índios ocupavam o território brasileiro. Atualmente, existem apenas alguns milhares. Foram dizimados por doenças trazidas pelos brancos, escravizados, catequizados, chacinados. Perderam suas terras, sua liberdade, sua religião, sua cultura, sua identidade como povo. Encontram-se, nos dias atuais, limitados às reservas indígenas, entrando muitas vezes em conflito com garimpeiros e fazendeiros. Observa-se a primeira injustiça social no Brasil: o homem branco, julgando-se mais desenvolvido, superior, tira do índio todo e qualquer direito. Quando entra para a história, o Brasil perde simultaneamente a história do povo indígena. 
          Podemos pensar no que aconteceria se não fôssemos colonizados pelos portugueses, mas sim por outro país europeu. Certamente estaríamos na mesma situação de subdesenvolvimento, miséria, precariedade, injustiças sociais. O motivo disso é o contexto histórico da descoberta do Brasil. O mundo era mercantilista e procurava novos mercados para vender suas manufaturas e para adquirir matéria-prima. Qualquer fosse nosso colonizador, transformaría-nos em uma colônia de exploração, e, da mesma forma que fizeram os portugueses, extrairia toda riqueza que pudessem. A diferença é que perderíamos os legados culturais portugueses, como a língua. Talvez fossemos hoje mais loiros. Calabar não foi traidor. Nem herói. Foi apenas um ingênuo ao acreditar que os holandeses seriam melhores que os portugueses para o Brasil. 
          Como ocorrem com as pessoas, os problemas do Brasil surgem desde sua infância, aumentam na adolescência e florescem quando adultas. A economia brasileira sempre voltou-se para a exportação, com seu ciclos econômicos pouco duráveis e importadores de crises. Passamos pelo ciclo da cana, ouro, borracha, café... Sempre houve uma oligarquia latifundiária, que concentrava poderes e riquezas. Nunca existiu preocupação com educação para a população, desenvolvimento de tecnologias e condições de vida. 
          Mesmo com quinhentos anos passados, percebe-se a mesma situação: a terra ainda concentrava-se nas mãos de poucos, assim como o poder e o dinheiro. Ainda somos um povo colonizado – hoje mais discretamente, debaixo do pano, pela cultura e economia americana – e servimos aos interesses de grupos exteriores. Não existe indústria brasileira, pois não há tecnologia brasileira, isso graças a falta de ensino. Da mesma forma como ocorria há muitos anos, quando a chega a crise, cortam-se os recursos da saúde e educação. Os privilégios são mantidos sempre à elite. 
          Apesar de tudo, o país cresceu. Criamos uma identidade própria. Não somos mais índios, portugueses, africanos... Formamos uma nação, fruto da mistura de culturas. Surgiram movimentos culturais inéditos. De um setor da economia, tornamo-nos uma economia; digam o que quiserem, mas isso não há como negar. Criamos obras literárias, músicas, estilos arquitetônicos... Somos um povo. Somos definitivamente, o povo brasileiro. 
          Os 500 anos de Brasil revelam uma nação sempre explorada, por ser rica, mas que, entre seus contrastes, vê o nascimento de um povo, igualmente explorado, por ser rico. Querem, é claro, apagar nosso passado, através do qual percebemos os erros e tentamos evitar que ocorram novamente. Querem, é claro, acabar com a identidade que temos como povo, para assim manter o caminho que lhes é proveitoso. O que espera-se é que baste 500 anos para acordar, de uma vez, esse gigante adormecido que é o Brasil. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   CAROLINA FIORI 
Cidade: VALINHOS-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

Comemorar quinhentos anos... Por quê? 

          Proximidade do ano dois mil, o Brasil abre as portas para o terceiro milênio e, simultaneamente, o País comemora quinhentos anos de existência. Anos que não são orgulho para nenhum dos brasileiros. Afinal, os tempos mudaram, os anos se passaram e, na essência, o Brasil continua a ser o mesmo paraíso de falcatruas, misérias e devastação social. Conta a história, de maneira eufemística, que os portugueses que aqui aportaram por engano, crendo que aqui fosse as tão cobiçadas Índias. Erro de marujo? Claro que não... A História moderna rompe com uma visão infantilizada e puxa o manto róseo que escondia por debaixo a História do nosso Brasil, explorado e relegado a fornecedor de produtos a baixos custos. 
          Desde a chegada dos portugueses ao Brasil, a exploração de produtos tropicais fez-se uma constante. Primeiramente, o pau-brasil e, posteriormente o ouro e metais preciosos de Minas Gerais, as drogas do sertão, a borracha da Amazônia, etc. Sob o regime de Pacto Colonial, o lucro ia direto para os cofres portugueses. Depois vieram as monoculturas de açúcar em Pernambuco e algodão, no Maranhão. Todo o lucro então, era enviado à Europa. Invasões holandesas, francesas e, o lucro tinha como destino a Europa. Ao Brasil, portanto, restava apenas a condição de subjugado e grande importador de gêneros de primeira necessidade. 
          O que se sabe, no entanto, é que nem só de interesses mercantis vive a História. Juntamente com os portugueses, veio a idéia de catequização dos nativos brasileiros e a tentativa de enobrecer de fé a meia-alma que os portugueses julgavam que os índios possuíam. O resultado foi o extermínio de milhares de indígenas, destruição quase que total de uma cultura e a benção da Igreja por ter aberto as portas do Senhor para meia dúzia de tribos. A implantação da monocultura trouxe os negros da África para trabalharem em regime escravocrata. Esses, segundo a fé lusitana, nem alma possuíam. Depois vieram os imigrantes europeus (italianos, alemães, franceses, etc.) e asiáticos (japoneses, chineses, coreanos) engrossar o caldeirão étnico, que hoje representa toda a população brasileira. 
          Em mil oitocentos e oito, com a vinda da corte portuguesa ao Brasil e a assinatura dos tratados de Abertura dos Portos, o Brasil ensaia os primeiros passos para a independência política. Porém, a independência econômica não se estabelece. O Brasil, então, passou a conceder benefícios à Inglaterra e outras “nações amigas”. Esse panorama perdurou até o advento da monocultura cafeeira – finalmente, o café para ser o primeiro produto verdadeiramente brasileiro. Ao Brasil cabia a produção, o comércio e o lucro; embora a necessidade de ajuda externa não fosse descartada. Tudo corria dentro dos conformes até a queda da bolsa de Nova Iorque, em vinte e nove. O episódio serviu para o Brasil assistir a amarga verdade estampada na cara de país exportador de sobremesa, dependente e atrasado economicamente. Entra Vargas, sai Vargas, JK, governos militares – o Brasil cresce absurdamente ao olhos do povo e, junto com o desenvolvimento tardio e desgovernado, a dívida externa brasileira faz-se o maior bicho-papão da História. 
          Inflação nas alturas, desigualdades herdadas desde o Período Colonial, governos ditatoriais, fraudulentos, corruptos ou incompetentes. A crise social parece inevitável e, com ela cresce o número de miseráveis, desempregados, ignorantes; a violência e a marginalização nas grandes cidades; o abismo entre ricos e pobres; contrabando, bandidagem, crimes e comércio ilegal de armas e drogas. A indústria no Brasil não é verdadeiramente brasileira, depende-se de capitais externos, importa-se de tudo, desde palitos de dentes até máquinas da mais alta tecnologia. A justiça é lenta e, muitas vezes, não surte efeitos desejados. Mergulha-se cada vez mais no poço que parece não ter fundo – o poço das desigualdades, do terceiro-mundismo, condição de país exportador de matérias-primas, de país dependente e fragilizado. 
          Dentro desse contexto, o Brasil entra para o terceiro milênio e apaga quinhentas velinhas sem ganhar presente! A independência econômica está longe de se tornar realidade. O que resta é comemorar com pizza e carnaval? O mais adequado e convincente é deixar a festa para depois e trilhar o caminho do desenvolvimento próprio. Educar e politizar a população brasileira, fazer reforma agrária, combater as violências urbana e rural, investir em programas assintenciais, combater o racismo, tratar a Saúde, cuidar da Justiça; enfim, reformar toda a estrutura social, econômica e política brasileira. Talvez, transformar o Brasil em um país mais igualitário e economicamente independente, requeira outros quinhentos anos de história, mas estes quinhentos anos podem ser muito bem comemorados se nós, brasileiros, começarmos a trabalhar desde já. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   DANIELA GOMES MIYAZATO 
Cidade: SANTA BÁRBARA DO OESTE-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

O Brasil em Seus 500 Anos 

          Às vésperas de completar 500 anos de descobrimento o Brasil é uma nação bastante diferente do que fora na época de Cabral. Ao longo desses 5 séculos de história oficial tivemos um rítmo de desenvolvimento próprio, às vezes lento, outras, frenético. A história de nosso país é rica; rica de fatos, de povos, de luta, de diversidade. Entretanto, o momento é de reflexão: temos quase 500 anos; já fomos colônia, sede de Império, Reino independente e, finalmente, República. Tivemos governos conservadores, populistas, progressistas e ditadores; mas, quem somos nós agora? 
          Para iniciarmos esse balanço do Brasil atual, devemos remeter-nos aos primórdios do que conhecemos de nossa história. Já neste momento nos deparamos com dificuldades em afirmar a verdadeira data do “nascimento” do Brasil: há dúvidas se não teria ocorrido um ano e meio antes da data oficial (fato que teria sido mantido em sigilo por interesses do Império Português). 
          Em seguida devemos analisar o tratamento por estas terras recebido de seus “descobridores”. Fomos abandonados em nossos primeiros anos de vida, para depois sermos devastados e explorados de forma a darmos o maior lucro possível para Portugal, nossa metrópole; tudo dentro da lógica do colonialismo vigente na época. Nesse momento, nosso país era povoado por comunidades independentes, nativas as quais ao longo dos anos foram massacradas pela escravidão e imposição da cultura européia aos seus. Hoje, é um povo quase extinto, sofrido e que vive às margens do crescimento alcançado pelo país, como se dele não fizesse parte. Se outro reino tivesse tomado posse de nossas terras teria sido diferente? Provavelmente não; o mercantilismo dos anos 1500 era o mesmo para todos. 
          Após a explícita exploração externa do Pacto Colonial, passamos por uma fase diferente na aparência: éramos legalmente independentes aos olhos do mundo, mas atrelados a economias externas desde a implantação de nossa própria máquina estatal (herdada dos anos de permanência da família real e corte portuguesas no Brasil). Parece que “desde sempre” estamos envolvidos com dívida externa, pagamento de juros, esgotamento de nossos recursos e reservas para atender a interesses de potências internacionais: Inglaterra, Holanda, Estados Unidos da América, etc., cada um a seu tempo. 
          Nosso povo, este sofre e luta e sofre e luta, mas não se abate. É constituído de uma mistura de raças, cores, costumes e nacionalidades; é único em sua diversidade, não se pode observá-lo e afirmar que teve origem determinada. Hoje, luta contra o desemprego, a miséria e a ausência de cidadania, cinqüenta anos após as Nações Unidas divulgarem a Declaração dos Direitos Humanos, assinada também pelo Brasil. Assiste à sucessão dos homens que legislam e dirigem o país vendo-os, entretanto, sempre os mesmos. Briga com a concentração de rendas, de posses, de poder; na realidade, luta para sobreviver em tempos de tecnologia, globalização e neoliberalismo. 
          Quem somos nós hoje? Historicamente responde-se: somos um país de contrastes, de concentração de poder e riquezas, explorado por forças externas e submetido à inépcia governamental em transformar cada homem que aqui vive em cidadão. Somos um povo proletário, desempregado, sem-terra, sem-teto, sem educação e sem saúde, que amargura governantes os quais conduzem o Estado em prol de seus próprios interesses. Mas, acima de tudo, somos um povo bravo, que sobrevive apesar da miséria, da violência e do abandono. Nós, hoje, somos o Brasil; uma nação constitucionalmente de Primeiro Mundo, mas que abandona seu povo para ser neoliberal, para atender cada vez mais ao imperialismo a que sempre fomos submetidos. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   DANIELLE DOS SANTOS BARBOSA 
Cidade: CAMPINAS-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: DANÇA 
 

Passeio pelo país dos contrastes 

          Às vésperas do ano 2000, em meio às discussões acerca dos descobridores e datas, o Brasil encontra-se na expectativa para as comemorações dos 500 anos de sua descoberta. Mas nem tudo é festividades: é o momento da análise daquilo que a metrópole deixou para a colônia. Nesse ponto, o Brasil depara-se com sua realidade: um gigante decadente. Em 500 anos de Brasil, a irresponsabilidade se encontra numa ciranda de poder e pobreza na terra dos contrastes. 
          Uma das heranças deixadas por Portugal foi o conceito de terra como forma de valor. Esse conceito encontra-se extremamente enraizado no brasileiro, de tal forma que 2% de sua população é possuidora de quase 50% de terras produtivas. O restante da população divide desigualmente os outros 50%, mas nota-se o crescimento de um dos maiores conflitos dos últimos anos para a realização da reforma agrária. Este é um dos contrastes: o Brasil tem 150 milhões de quilômetros quadrados de extensão e sua população está em luta por posse de terra. 
          Tão importante quanto a questão fundiária é a situação do índio no Brasil. O índio, que outrora foi proprietário, agora é inquilino. A FUNAI, criada para fiscalizar e regulamentar a demarcação das terras indígenas, assiste às freqüentes invasões de garimpeiros e madeireiros. Mas o problema não é apenas geográfico: a falta da política de distribuição de terras coloca o indígena em contato com vícios e doenças, dizimando-os ou incluindo-os no rol da pobreza, tal é a integração nociva com o homem branco. 
          Sem deixar de lado o brasileiro urbano, vê-se no Brasil a desigualdade no povoamento ?  mais uma herança portuguesa. A região sudeste, superpovoada mergulha cada vez mais nas chamadas moléstias sociais, desemprego, falta de moradia, violência urbana, carência escolar. Esses problemas são, de certa forma, provocado pelo êxodo rural, que aumentou desde a década de 1970; êxodo que não existiria, não fosse a ausência de uma política fundiária e descaso com os problemas de regiões como o nordeste, vítima de seca prolongada, fome e aumento do banditismo sertanejo. 
          Estas são partes de uma grande lista. Mas há soluções: uma política de apropriação de terras, a reestruturação da FUNAI, um planejamento preventivo contra a seca. O fato é que, em 500 anos de Brasil, vê-se que o avanço não foi dos maiores. E este é o legado de uma metrópole para uma sociedade omissa, dona do país do futebol, já que cada povo tem o ópio que merece. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   ERIK MACEDO MARQUES 
Cidade: PIRASSUNUNGA-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

Brasil, mostra a tua cara 

          Navegar é preciso. Foi assim que caravelas esbarraram em nossas praias. Esbarraram? Foi 
Cabral ou Duarte, descobridor a pouco descoberto? O passado foi-se sem deixar notícias, mas, e o agora? É corrupção ou futebol? Sem-terras ou carnaval? Deixemos então o momento presente, que se tornará passado também incerto frente ao futuro. Mas que futuro? Venceremos? Ficaremos assim? Brasil, potência do terceiro mundo, um mulato é brio, sem rosto, mas esfomeado. Quinhentos anos sustentando-se em finas pernas. Suado, cansado e cheio de questões. Brasil brasileiro, Brasil, comprado, Brasil vendido, Brasil achado. 
          A Europa estava carente de paraísos. Paraísos onde haveria matérias-primas e gente a ser explorada. Caravelas salgadas encontraram homens queimados de sol. Que pena... a pena do cocar virou pena de românticos que exaltavam os índios. Mas os índios não eram bons ou maus, eram somente outra cultura, cultura sem sorte por ter flechas ao invés de chumbo, sossego ao invés de ouro, ervas ao invés de anticorpos. O que sobrou dos índios cabe em estádios de futebol, esporte nacional importado. Não se sabe quem foi o primeiro europeu que aqui pisou, nem o primeiro negro, nem o primeiro índio. Mas sabe-se que foi daí que nasceram novas cores, que formaram uma nação. Nação histórica, mas repetente: senhor de engenho, latifundiário; D. Pedro I, Antonio Carlos Magalhães; Companhia dos Índios, transnacionais; Império, ditadura; povo massacrado, povo massacrado; Brasil positivista: Ordem e Progresso. Brasil “existencialista”: O inferno são os outros, os estrangeiros que invadem nossa economia. Brasil de cultura e costumes impostos, importados de elite multicolorida que veste verde amarelo. 
          Esse ano nós perdemos a Copa e os capitais estrangeiros. Reelegemos o presidente e assistimos televisão. Os Sem-terra ainda existem, como uma herança que não queremos mas que fica em nosso encalço avisando o que causa a concentração de riquezas. Sem-terra, sem-teto, sem-roupa, sem-dinheiro, sem-Brasil. Nós todos somos brasileiros sem-Brasil. Criamos leis para uma nação, mas não criamos nação para leis. Código do Consumidor, e os miseráveis? Código de Trânsito, e as estradas? Leis de Diretrizes e Bases, e as escolas? Esse ano é o mesmo de todos, falar deste remonta os quinhentos anos passados, pois como todos carrega feridas abertas de longa data vividas em contextos diferentes. E o futuro? Será tão negro? Brasil, criado aos poucos, andará até o fim dos tempos como hoje? Virão muitos outros anos e devemos aprender com os quinhentos passados. Não mais navegar é preciso, e sim educar. Indicar outras saídas para o povo, que deve deixar de ser massa de manobra política. A solução está em mudar as bases à partir das cabeças brasileiras, então cicatrizaremos as feridas e poderemos nos fazer nação, não mais vendida ou comprada e sim consciente. Assim poderemos nos descobrir e satisfazer o apelo de Cazuza: “Brasil, mostra a tua cara!” 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   FABIANA FERRARI GUIMARÃES 
Cidade: RIO DE JANEIRO-RJ 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

O despertar do gigante 

          Desde a idade moderna, em que o branco europeu colonizador apoderou-se das riquezas e dos habitantes indígenas dos solos brasileiros, o infeliz destino dessa colônia de exploração começou a ser traçado, pois mesmo com o rompimento das amarras com a metrópole lusitana, as heranças da dependência financeira e da super concentração de capital jamais seriam superadas. 
          A priore, com o passar dos anos, a nação independente demonstra sinais de crescimento sócio-econômico, porém sob essa falsa máscara de desenvolvimento revela-se uma sociedade marcada por crises na produção, como a do café na República Velha, escândalos políticos, haja visto o presidente Collor recentemente, e condições de vida calamitantes como as dos atuais flagelados do Nordeste. 
          À medida que os quinhentos anos do descobrimento se aproximam, nas mentes dos habitantes do país, a noção de cidadania torna-se cada vez mais insólita frente aos constantes desrespeitos, aos artigos humanitários da constituição em prol das elites que revezam no poder mas nunca são destituídas do comando. 
          Com a globalização as mazelas estruturais ficaram ainda mais expostas e o desemprego dizimou a dignidade de muitos trabalhadores. A situação de impotência mediante a magnitude do capitalismo internacional faz com que, mesmo livres, as pessoas se sintam exploradas, não apenas por estrangeiros impiedosos, mas também por seus próprios compatriotas governantes. Dessa forma, a insatisfação geral eclode em violência urbana e rural, o que prejudica os poderosos. 
          Por conseguinte, a população brasileira, desde o Bóia-fria até o grande empresário carece de transformações imediatas, que eram as mesmas almejadas pelos escravos dos Engenhos e pelos revoltosos de sessenta e oito. O sonho da construção de um país igualitário é atemporal e a esperança da sua realização se renova baseada não só em uma data, mas sim no potencial cultural, natural e humano de um gigante adormecido há meio milênio chamado Brasil. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   FÁBIO NAKANDAKARE KAWAMURA 
Cidade: ARAÇATUBA-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

         

Ao completar quinhentos anos, nossa jovem nação talvez tenha mais a lamentar do que celebrar. Nascida de uma colonização que só a espoliação tinha por fim, ela tem vivido entre a escravidão e uma tímida liberdade. As implicações sociais desse pacto, acrescidas dos erros cometidos durante toda a nossa História resultam num quadro de riqueza concentrada e de subdesenvolvimento generalizado, ainda que permeada por uma cultura riquíssima. 
          Explorado primeiro por aristocratas, depois por capitalistas, o povo brasileiro aprendeu que a ele só cabe trabalhar servilmente, que dar rumo à nação é papel dos senhores doutores que governam na capital. Aprendeu também que justiça se faz no fio da “peixeira” ou no cano da metralhadora, pois leis só no papel existem. Somos, pois, um povo passivo e violento. 
          A alegria brasileira que cantam alguns poetas só se demonstra no carnaval e num domingo de futebol; o cotidiano é o sofrer proletário, ou o ansiar por ele, vendendo flores nos semáforos e pedindo esmolas nas calçadas. O brasileiro vive triste, apesar de saber ser explosivamente alegre. 
         O Brasil comemora, nesse aniversário, o fato de ter uma das maiores economias do globo. Porém, a riqueza que acumulam os capitalistas convive com índices sociais que excluem a maior parte dos habitantes do exercício da cidadania. 
          Mas eis que os reflexos de tantos contrastes também proporcionaram a diversidade da cultura nacional: não é a melancolia lusitana que prevalece, nem o ritmo da música negra, nem o naturismo indígena. A arte brasileira não pode ser delimitada, pois abrange aspectos de diversos povos. E não se resume à simples soma de cada uma dessas influências, mas se expande no potencial que a integração entre elas proporciona. 
          A nação brasileira deve, nesse aniversário, tomar consciência de sua natureza cheia de contrastes. Assim, tornar-se-á mais fácil combater as contradições sociais e preservar essa magnífica diversidade cultural que torna o povo brasileiro tão especial. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   GUILHERME CARDINALI BARREIRO  
Cidade:CAMPINAS-SP
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

      O Brasil, desde o seu surgimento para o mundo, carrega grande parcela da conotação inicial a que foi submetido: uma colônia de exploração. É verdade que já não somos mais colônia, sempre acabam por absorve-lo.

     Conhece-se, atualmente, que não foi Cabral o grande agente que desmascarou essa terra nua, mas Duarte Pacheco Pereira. É interessante notar que, além das alterações necessárias aos livros de história, essa disparidade não proporciona alterações significativas quanto a história do Brasil na prática. Ambas expedições possuíam finalidades claramente pré-estabelecidas pela coroa lusa: ocupar a região de modo a garantir possíveis riquezas. Daí advém todo o processo de exploração persistente sobre o território brasileiro. Com Pacheco Pereira, ou Cabral, ou quem quer que fosse mandado por Portugal, abriram-se os caminhos para desbravar as terras brasileiras, que, de início, ofereceram nada mais que o pau-brasil. A este, seguiram a cana- de-açucar, o ouro, o café e tantos outros.

      As alternâncias de produção pelas quais a metrópole submetia o Brasil caracterizam a busca incessante daquela pelas riquezas americanas. Em meio a essa exploração voraz, emergiu o povo brasileiro, um fruto do sistema imposto pelos portugueses. O enclausuramento sufocante desta origem influenciou nas características e caminho que o povo novo viria a seguir. Como éramos um povo dominado e controlado, refletiu-se na sua evolução particular a disparidade de renda, os abusos por parte dos detentores do poder político e econômico e a submissão total dos desprivilegiados. Assim, por mais que o escritor Affonso Celso tentasse, no início do século, se ufanar (?) do país, a verdade parecia preferir as palavras de seu contemporâneo Sílvio Romero, que nos caracterizou como um "povo flagelado por todas as extorsões".

      É notório também o fato de o Estado brasileiro sempre ter representado a elite brasileira, como fora evidenciado pelo próprio Sílvio Romero há mais de um século. Essa representatividade da elite determinou a expansão das injustiças sociais, no decorrer das décadas, uma vez que segregou política e economicamente duas classes: os poderosos e a massa. A primeira, tendo controle sobre a maquina governamental, obviamente ditou os destinos da nação em favor de seus interesses particulares. Já a Segunda, ficou à mercê das oscilações daquelas, esperando sempre os prejuízos inerentes a uma administração tendenciosa, e quanto muito, recebendo benefícios legislativos igualmente tendenciosos, que camuflavam a verdadeira exploração a que essa classe estava submetida.

      Atualmente, a situação brasileira espelha todo o processo de evolução deste povo. A política neoliberalizante do presidente FHC não passa, grosseiramente, do atendimento às vontades da elite nacional aliada aos interesses estrangeiros ?  como sempre fora no Brasil. Quanto às massa populacionais restou-lhes o desemprego e a queda na qualidade conseqüências que também remetem ao passado histórico do país.

      Fica claro, portanto, que, após 500 anos, o Brasil apresenta graves defeitos, apesar de ter conseguido a 62ª colocação na ultima classificação do IDH. Ainda é importante ressaltar que essa melhor colocação deve-se ao fato do país ter elevado o seu PIB per capita, que esconde um dos mais graves problemas brasileiros: a disparidade de renda e as injustiças sociais provenientes dela. Percebe-se que a análise feita por Carvalho Filho, na FSP de 3 de outubro, dizendo que o país crescera é uma análise superficial da realidade nacional; teoricamente, após 500 anos, somos um país coerente, mas, na prática, observa-se o oposto.
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   JOÃO FERRARI FRANÇA 
Cidade: SÃO PAULO-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENG. MECÂNICA 
 

      Faltam quinhentos e tantos dias para os quinhentos anos do Brasil. Quem, ao ouvir esta frase, não se lembra da fatigante contagem regressiva da Rede Globo? Como se sabe, toda contagem regressiva leva a alguma coisa; ou a um acontecimento, ou a uma comemoração como é o caso. Mas uma reflexão a respeito disso leva a uma pergunta: O que será comemorado em menos de dois anos, em abril de 2000? 

A resposta imediata é: os quinhentos anos do Brasil! Mas isso não é certo. Não se sabe com certeza nem a data nem a forma como ocorreu o descobrimento do maior país da América do Sul. Se a razão da festa fosse apenas a data histórica, esta já não teria tanto sentido. 

Por outro lado, o que a Rede Globo e o Brasil estão comemorando é o país de hoje. Um lugar onde havia apenas índios, hoje tem uma economia forte, uma grande população, grandes indústrias. Antes havia escravidão e hoje os negros são livres e felizes. Conquistou-se leis para os trabalhadores e pobres, além de hoje haver até eleição direta. Realmente hoje o Brasil é outro. 

No entanto, uma visão menos ufanista e mais realista, mostrará que a evolução houve, mas esta foi da pior maneira possível. Os índios que antes dominavam esta terra, hoje fazem parte de uma minúscula parcela da população. Se um dia o Brasil deixou de ser colônia para se tornar Reino Unido, para se tornar um país, isso aconteceu porque era interessante para a parcela poderosa da população. A razão ideológica contribuiu muito pouco para isso. A economia brasileira que antes exportava matéria-prima para importar produto manufaturado, hoje importa produtos mais modernos. É inegável que a indústria brasileira cresceu, mas 99% das grandes indústrias são multinacionais estrangeiras que se por um lado geram empregos, por outro levam o lucro para seus países de origem. As grandes indústrias brasileiras são em sua maior parte estatais que estão sendo privatizadas (inclusive as que geram lucro) à preços não muito justos e em leilões de legitimidade questionável. Além do mais a política econômica atual, não é a ideal para que o país cresça. 

Quanto ao aspecto social, houve, sem dúvida, enormes conquistas por parte dos brasileiros. Mas deve-se lembrar que essas conquistas foram na maioria das vezes tardias se comparadas com outros países. Além do mais a desigualdade social, o racismo e a má distribuição de terras são problemas vigentes até hoje. 

É então, por estes fatores que se questiona a comemoração dos quinhentos anos do Brasil. A grande modificação que seria digna de comemoração seria o fim do pensamento individualista para um pensamento mais coletivo por parte dos governantes do país. A frase: "Tudo deve mudar para ficar como está" ainda é válida hoje, como foi válida nesses quinhentos anos e foi a responsável pelas modificações brasileiras. É até compreensível que a Rede Globo comemore o meio milênio do Brasil, mas para a maioria da população não há outra razão se não a duvidável data histórica. Se daqui a 250 anos o Brasil tiver solucionado boa parte dos problemas que tem hoje, esta seria uma data muito mais digna de comemoração do que a atual. Esteticamente não ficaria tão bonito, mas seria mais justo. O fato é que nesses quinhentos anos o maior país da América Latina evoluiu bastante, mas não o suficiente que justifique uma comemoração. Ainda não. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   JOSÉ FLÁVIO GOMES MARIN 
Cidade: MARÍLIA-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

É hora de acordar! 
 
          Apesar da euforia e do certo ufanismo de alguns, o 500? aniversário do descobrimento do Brasil não é digno de festividades ou celebrações rodeadas de espetáculos. Esta data, em vez de alvo de comemorações deve ser vista como uma oportunidade para analisarmos a história de um país que desde a sua gênese foi comandado pelos interesses do capitalismo internacional, mesmo tendo com isto, a sua população vitimada por gritantes injustiças e exclusões sociais, políticas e culturais. 
          Das capitanias hereditárias aos grandes monopólios transnacionais, passando pelos latifúndios cafeicultores, a essência das estruturas sócio-econômicas da nação não se alterou, pois a riqueza nacional é explorada por uma oligarquia praticamente hereditária, a qual exaure os recursos do país para enviá-los ao exterior, mantendo o Brasil na órbita do sistema capitalista. Atrelada a esta dominação econômica vem a submissão cultural, valoriza-se o que vem de outros países, independente do significado e/ou utilidade, apenas porque confere status aos seus possuidores. 
          Outro tópico que deve ser discutido e reformulado, é a nossa história, principalmente o modo com que esta foi contada nestes 500 anos. Desde a carta do descobrimento, feita por Caminha, a realidade é fantasiada, para não dizer mascarada, na tentativa de transformar fatos históricos em feitos heróicos e espetaculares, incluindo aí guerras, descobrimentos ou atitudes dos governantes. É sabido que a maioria das “revoluções” retratadas nos livros da história brasileira nada mais são do que meros acordos entre as elites para manterem seus poderes. Como exemplo basta citar a independência, que de forma pacífica, celebrou uma acomodação das estruturas de dominação ao contexto mundial que vigorara, o liberalismo. Em suma, mudam-se as aparências, mas a essência do país continua a mesma. 
          Embora submetida a tantas provações, a população brasileira inegavelmente, conseguiu constituir uma identidade, pois trata-se de um povo pacífico, receptivo e muito batalhador. Esta identidade, no entanto, é freqüentemente abalada pelos estereótipos que se criaram a respeito do brasileiro, estereótipos os quais recaem, não raro, no já falado binômio samba e futebol. 
          Somente com a construção de um sentimento de valorização ao país, de um questionamento a respeito de sua situação atual, é que o Brasil, a partir dos erros que o marcaram até o presente momento, poderá aprender, auxiliado por uma história clara e concisa, a se portar como uma verdadeira nação, na qual predominem a justiça e a plena democracia, deixando de ser assim o gigante eternamente adormecido pela opressão, exclusão e injustiça. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   JOSÉ ROBERTO MERGEL MANECHINI 
Cidade: MOJI GUAÇU-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

A terra brasilis, hoje 
 
          O brasileiro é, no geral, um povo orgulhoso de si. Tem, no entanto, poucos motivos para isso. Nosso país, às vésperas de seu quinto centenário ainda pena em muitos aspectos, e não tem, de fato, uma identidade, algo que realmente a torne uno e coeso. Ser brasileiro em 1998 é, com muitas limitações, fator de alegria. Mas sob uma óptica mais consciente, causa de estar triste e preocupado com relação às medidas necessárias à magnificação da nossa terra e de nossa gente. 
          Muito se proclama acerca de nossos méritos: arte, personalidade, esporte. Belezas naturais. Todavia, observando-se bem o Brasil de hoje, percebe-se não ser bem assim. De todos os aspectos, vemos nossa pátria em decadência cultural, exaltando pseudo-música e autores em crise velada. Deixamos cair no olvido os que realmente tentaram criar uma identidade brasileira. Estes são deixados empoeirar, ao sabor do desprezo. E quanto a tão bem afamada personalidade nacional, faceira e simpática, basta, para se convencer da verdade, uma consulta a órgãos de turismo. A criminalidade e a crise têm feito uma imagem repelente do Brasil para os estrangeiros, que preferem fazer turismo em casa ou entre os nossos vizinhos terceiro-mundistas. 
          Nem mesmo  a beleza natural de nossa terra tem mais o encanto de outrora, graças à desfaçatez com que vem sendo gerida. Desde os tempos de colônia praticamos extrativismo predatório, caça e pesca irresponsáveis e má utilização de recursos hídricos. Matamos o indígena, depois escravizamo-no, exploramos seu trabalho, e o que lhe reservamos hoje? Doenças, descaso e humilhação. Mesmo com a Funai não os salvamos da morte brutalmente precoce, nem lhe damos terras e direitos, como uma volta à cultura original, quase perdida. 
          Urge citar o aspecto socioeconômico, um sério motivo de preocupação. Mais de cem anos após a publicação da obra de Sílvio Romero, em cujo estudo da história estão denunciados as facetas negativas de então, é aborrecedor notarmos semelhanças entre essas e os problemas moderno. Continuam atuais os temas da reforma agrária, a qual trinta e quatro anos após a criação do Incra e do Estatuto da Terra, ainda se arrasta lânguida e irresoluta. Humilha, de modo análogo, a semelhança entre as opiniões de Romero sobre a indolência e maleabilidade do povo de sua época, e o pasmo atual do nosso. Também quanto à nossa liberdade devemos observar algo: Em 1882, mesmo independentes, passamos, extraoficialmente a obedecer à Inglaterra. Após 1945, temos outro senhorio: os E.U.A. Em suma, de D. Pedro I até hoje, apenas viemos mudando, por melhor dizer, de credores. 
          É com tristeza que qualquer brasileiro com mais consciência nota o drama de sua realidade, hoje. Sendo cidadão de um país com turbulentos problemas, que vão do âmbito cultural, venalidade obriga-o a aceitar o pior, passando pelo natural com problemas causados pelo atraso administrativo, até chegar ao socioeconômico, ruim apesar de toda a publicidade oficial. Ainda em 1998 impera a má distribuição de terras e renda graças ao compromisso financeiro com o FMI. O brasileiro vive a crise sob seus diversos matizes, ainda que não perceba. Portanto, o melhor presente que pode dar ao Brasil daqui a dois anos, ou melhor, dar a si mesmo, é sua séria e profunda reflexão. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   LUCIANA ARAÚJO DA SILVA 
Cidade: CAMPINAS-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: ARTES CÊNICAS 

 
          Em abril de 2000 o Brasil comemora 500 anos de seu descobrimento – segundo data aceita oficialmente. Sem perder tempo a mídia começa a bombardear-nos com os preparativos para a festa, e com dois anos de antecedência a TV já mostra um relógio que nos avisa a cada dia quantos dias faltam para o grande bacanal. É outra oportunidade, além da copa do mundo, para que cada cidadão vista uma camisa verde-amarela sem medo de parecer cafona, empunhe a bandeira e ensaie cantar o Hino Nacional – como será mesmo que se começa aquela 2ª parte? 
          Na verdade, a data deveria, no mínimo, servir para que questões sérias e profundas fossem levantadas a fim de se fazer um balanço histórico dos cinco séculos do país. Será que os saldos seriam tão otimistas, ou inspirariam luto? 
          A farsa que se representa com uma comemoração ufanista não deixa ver quem é o Brasil, ou quem somos nós hoje. E quem somos, mesmo? Um povo que carrega os grilhões da escravidão – a maior vergonha da nossa história. Negros e índios, escravos de senhores brancos, portugueses, estes aliados da Coroa que por sua vez era submissa a um senhor maior, a Inglaterra. Mas a nossa escravidão não teve fim com a assinatura de um documento pelas mãos de uma princesa benevolente, em 1888. Ela perdura até nossos dias. Só temos mudado de dono, de senhorio. Agora, após termos assimilado a subserviência ideológica aos EUA, passamos a servir as grandes instituições financeiras do mundo globalizado. Aliás, o país já sentiu o gostinho das conseqüências dessa opção com o efeito dominó da crise nos países asiáticos. 
          Há aqueles otimistas, que vêem os progressos miraculosos da nação. Temos uma Constituição exemplar, que pune crimes como o racismo, protege o consumidor, trata de questões como a posse da terra, a educação, os direitos da mulher, da criança. Coisa de país desenvolvido! Outro aspecto que não pode ser esquecido ao comemorarmos os 500 anos é a autenticidade do povo brasileiro. A nossa famosa alegria (temos o carnaval), a solicitude do povo, a “malemolência” dos trópicos – nossas características reconhecidas internacionalmente. 
          Entretanto, no que diz respeito as nossas “conquistas”, às leis, por exemplo, não há muito o que glorificar. Ao longo desses 500 anos a história é sempre a mesma. No nosso país há leis que “pegam” e leis que “não pegam”. A terra vem servindo a interesses de pequenos grupos desde as sesmarias até os latifúndios – não tem função social prevista na atual constituição. Quanto ao racismo, ele continua forte e vemos isso no dia a dia, em dados irreais como os do senso realizado em 96 pelo IBGE que aponta uma população constituída de 55% de brancos, 34% de mestiços e 5% de negros. 
          O Brasil hoje não é europeu, africano, asiático, indígena. Nós somos a mistura exata de tudo isso, completamente diferente das nossas origens, únicos. E apesar disso estamos indiscutivelmente atrelados aos princípios da nossa matriz. Talvez o ano 2000 possa servir para abrirmos os nossos cinco séculos coloniais, enterramos o que sobrou dele. Pegaríamos então a água salubre que – pasmem – ainda resta nessas terras de cá, e regaríamo-nas para que nela fossem cultivadas as sementes de um outro Brasil. Que não precisasse olhar prá trás e esconder o rosto de vergonha, nem olhar para a frente e ter esperança. Mas que, enfim, se olhasse no espelho e sorrisse. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   LUÍS GUSTAVO BUZIAN BRASIL 
Cidade: SÃO PAULO-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

Novos 500 anos 

          Às vésperas de um novo século, o Brasil espera a celebração dos seus 500 anos de descobrimento. Meio milênio de história oficial, marcada por violência, extermínio da população nativa e interesses das nações imperialistas. Um período que presenciou uma fusão única de cores e culturas e a transformação de um território vasto, agrícola e tecnologicamente primitivo em uma nação gigantesca, sede de algumas das maiores metrópoles do globo. Quais os motivos para comemorar a data de descoberta desta terra, em que “se plantando tudo dá”? 
          Os europeus que primeiro aqui chegaram, tinham apenas em mente o ideal insaciável de lucro, ideal esse que parece ter permanecido quase imutável nesses últimos 500 anos, em que atualmente atravessamos o estágio mais moderno do capitalismo, assinalado pelo toyotismo e pelo estabelecimento de mega blocos econômicos. 
          O problema de nossa dívida externa remonta às origens de nossa independência política, quando, abandonando a influência lusitana, passamos a viver sob a esfera britânica e, posteriormente, norte-americana. Vivenciamos, nos períodos ditatoriais, slogans como “ninguém segura este país” e “Brasil, o país do futuro” e, ainda hoje, continuamos fortemente submissos ao capital das transnacionais. 
          A modernização econômica, urbana e industrial brasileira certamente fora e tem sido notável, porém extremamente desigual e limitada entre a população, o que levou o país a ser conhecido como a nação onde há maior concentração de renda do planeta. 
          Esses fatores têm sido o panorama geo-político do Brasil até o presente momento. De exportador de pau-brasil e café do passado, passamos a exportar jogadores de futebol e apresentadoras de TV. Mas nem tudo se resume a isso. Com tanta história e tão pouco a ser reverenciado, nosso povo, em momento algum esmoreceu. Talvez por instinto de sobrevivência. Talvez por sua tradição de resistência à exploração. Passamos, mais uma vez, por uma situação de crise, desta vez em âmbito global. Mas, para uma sociedade como a nossa, acostumada com tantas lutas e privações, será apenas mais um obstáculo a ser ultrapassado. Esses 500 anos fizeram a História do Brasil. Agora, é tempo do Brasil começar a fazer, por si mesmo, sua própria história de novos e melhores 500 anos. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   LUIZ CLÁUDIO CUNNINGHAM DE CARVALHO 
Cidade: CAMPINAS-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: PEDAGOGIA 
 

          As celebrações dos 500 anos do descobrimento brasileiro pelos portugueses, a se realizarem em abril de 2000, apesar de reforçarem um equívoco histórico já há muito tempo conhecido, representam uma iniciativa rica em possibilidades. Se, a julgar pelo conhecimento atual sobre a chegada dos portugueses, deveríamos estar comemorando estes 500 anos agora em 98, a data de 22 de abril de 1500 já se encontra cristalizada no imaginário coletivo dos brasileiros. E, por que não dizer, lustra nosso ego numerológico. 
          As oportunidades que se abrem com esta celebração são de duas naturezas. De um lado, é nas celebrações que as pessoas se encontram e se identificam. Este momento pode muito bem ser aproveitado para aprofundar o sentimento de nacionalidade dos brasileiros e lembrá-los do grande futuro à disposição dos mesmos. 
          De outro lado este grande futuro depende da solução de problemas que tem raízes em nossa história. Assim, os 500 anos inspiram um olhar sobre o passado desta nação e sobre seu presente, em busca das condições necessárias a que este futuro se concretize. 
          Não é possível exagerar a influência das características iniciais da colonização brasileira em suas mazelas do passado e do presente. Os propósitos com que aqui chegaram os primeiros portugueses e o modo de produção de que se utilizaram quase exclusivamente até meados do século passado condicionaram uma profunda divisão social, persistente até hoje. Igualmente persistente é o desprezo pelo trabalho manual, “coisa de escravos”, só atenuado pela chegada dos imigrantes mais recentes. 
          Saltemos agora 350 anos; até meados do século passado. Após observarmos este prolongado imobilismo (germi-nação?) iremos assistir à abolição formal do modo de produção escravista, da subordinação política à outro país e da forma monárquica de governo. Se até hoje a incompetência e o descaso das autoridades nos fazem sentir como contribuintes-escravos, subordinados dos interesses destas, alguma coisa deve ter melhorado. A chegada dos imigrantes a que já nos referimos completa o caldeirão de culturas que compartilhamos com poucas nações do mundo e que representa hoje uma vantagem muito grande no cenário internacional. Neste período assistiremos também ao início da industrialização, com o conseqüente aumento e diversificação das oportunidades. 
          Mais um pulinho de 125 anos e chegamos à década de 80 do século atual. Chegamos ao mais recente hiato de democracia em nossa vida republicana (que longa vida tenha). E assistimos também à retomada da estabilidade monetária que, se não é sinônimo de estabilidade econômica nem desenvolvimento, é condição necessária a ambos. Faz muito bem a uma nação ter uma moeda de fato, um contrato econômico respeitável. 
          Quinhentos anos representam apenas 5% da história da humanidade, meras 20 gerações. Se a todos nós cabe nos impacientarmos com a solução dos problemas mais gritantes do país, às vezes é bom lembrar que o mundo não foi feito em 7 dias. E que a continuidade na inversão do quem serve a quem, entre as autoridades e o povo da nação, a realização do potencial do país através do trabalho e da solidariedade está nas mãos de todos. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   MARÍLIA VANNUCHI TOMAZINI 
Cidade: FRANCA-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

Que toquem o derradeiro tango argentino! 

          Os ufanistas quixotescos estão felicíssimos: em abril do ano 2000 o Brasil comemorará quinhentos anos de seu “descobrimento”. A contagem regressiva já fora acionada e muitos , tomados por um repentino sentimento de amor à pátria, como em um passe de mágica esqueceram as deficiências e mazelas tupiniquins. 
          No entanto , não há tanto o que comemorar a não ser para os países do lado de lá do Equador. Estes devem estar eufóricos, afinal conseguiram ? por 500 anos! ? a façanha de explorar e enganar toda uma nação. 
          A embromação já começa em nosso “descobrimento”: O Brasil não foi “descoberto” já que os portugueses sabiam muito bem o que procuravam e onde pretendiam chegar. A partir daí o Brasil se transformara em um títere, condição que perdura até os nossos dias. 
          É desolador constatar que enquanto o tempo passa e corre e voa continuamos a caminhar em círculos. No contexto mercantilista  éramos reles fornecedores de matéria-prima e mão-de-obra barata. Hoje ainda desempenhamos a mesma função, só que em meio a uma explosiva mistura de neoliberalismo com Globalização. 
          A nossa independência histórica não ocorreu na prática. Só por seu caráter sui generis deveríamos ter desconfiado de que não era séria: um membro da própria família real foi quem declarou o país independente e ainda assim sob uma constrangedora indenização à Inglaterra. Atualmente continuamos dependente de aplicações externas para cobrir o déficit de nossa balança comercial e suprir a nossa demanda por tecnologia. 
          Faz-se mister ressaltar que, passados apenas 70 anos do movimento antropofágico ? que tentou criar uma cultura original, de pura identidade nacional ? estamos adotando uma cultura estrangeira em detrimento da nossa. Um nítido exemplo: todos os jovens comemoram o Halloween mas muitos nunca ouviram falar da Folia de Reis, que ocorre em seis de janeiro e já fora uma festa típica brasileira. Em nosso itinerário histórico já vimos este mesmo episódio: os índios foram obrigados a relegar a sua cultura riquíssima para abraçar a dos colonizadores. 
          No plano interno pouco foi mudado: a estrutura fundiária continua absurda, a concentração de renda ainda forma um íngreme abismo entre aqueles magnatas e os “sem-tudo”, o Brasil continua sendo um país nepotista e coorporativista que trabalha em favor das super-potências, seus parasitas. 
          Quiçá esta situação ainda possa ser revertida. 
          Esperemos esta ajuda do FMI, a panacéia utópica desejada. 
          Mas ao que tudo indica, o caminho destinado ao Brasil não terá volta. 
          Uma flor ? o Brasil ? romperia os asfalto ? condição inexorável de colônia. Mas ? que pena! ? havia uma pedra no meio do caminho ... 
          Que venha então o tango argentino. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   NAYANA MOTA GUSMÃO DA SILVA 
Cidade: VITÓRIA DA CONQUISTA-BA 
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA DE COMPUTAÇÃO 
 

Do fracasso à vitória? Ou vice-versa? 

          Não importa como, nem quando: o fato é que o Brasil foi invadido, ou, como muitos preferem, descoberto pelos portugueses há cerca de 500 anos. Junto com eles, vieram a estrutura européia de organização social, suas tradições e costumes e o modelo de dominação do homem, criando um país que congrega paradoxalmente crescimento e destruição. 
          Durante o período colonial, a população nativa brasileira foi dizimada e parte dela foi gradualmente substituída por europeus, negros e mestiços, que trouxeram consigo sua própria cultura. Nossas terras foram exploradas com culturas que visavam somente ao enriquecimento da metrópole, as florestas, como a Mata Atlântica, quase completamente devastadas, a religião e o idioma, impostos pelos jesuítas. 
          Mesmo assim, o país cresceu. Atravessou os ciclos da cana-de-açúcar, ouro, do café, da pecuária, a população se misturou, criando uma identidade e uma unidade nacional, demonstradas nas lutas por independência, abolição da escravatura, pela república, pela democracia e pelo direito à terra. 
          O Brasil  tornou-se, então, um país independente e industrializado. Hoje, insere-se no contexto mundial entre as dez primeiras economias; ofereceu à população avanços médicos, tecnológicos, direitos trabalhistas, liberdade de culto, expressão e comércio. 
          Porém, paralelas a esse desenvolvimento, existem hoje novas formas de dominação. Nossa bela economia está subjugada ao capital estrangeiro, principalmente durante o atual governo, de cunho neoliberal, e não absorve toda a mão-de-obra existente. É um dos países recordistas em corrupção, possui uma péssima estrutura fundiária, altos índices de mortalidade infantil e agudas desigualdades sociais. O Sul debate-se com a questão ambiental, o excesso de população migrante e as conseqüentes favelas e a violência. O Nordeste reza por chuva e morre de fome e sede, enquanto o país tem o maior potencial hídrico do mundo. 
          Mas o Brasil está predestinado ao sucesso. Afinal, conta com uma natureza exuberante e uma população jovem que não se acomoda perante as explorações. Somos frutos de uma miscigenação de raças e valores, que resultou num povo que sabe lutar contra o sofrimento. E pode lutar, pois os problemas do Brasil, como vimos, são frutos de uma grande falta de vontade política. Por isso o Brasil pode ter sucesso: basta que a população seja participante, escolhendo bem as pessoas que construirão um futuro brilhante para o Brasil por mais 500 anos e mais 500 e assim sucessivamente. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   PABLO ARANTES 
Cidade: BRASÍLIA-DF 
Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIAS ECONÔMICAS 
 

          O Brasil é um país tão extraordinário que, às vésperas da comemoração dos seus 500 anos, descobre-se que a validade histórica de tal celebração é assaz duvidosa. Querelas históricas à parte, é certo que merecemos um balanço de nossa existência, tenha ela os quinhentos anos cabralinos ou não. É certo também que tal balanço deve considerar os imensos contrastes brasileiros, em ordem a decidir qual é a imagem mais pertinente desta terra; se é o éden preconizado pelo ufanista Afonso Celso ou a nova Roma – banhada em sangue negro, índio e luso – descrita por Darcy Ribeiro. 
          O sociólogo francês Roger Bastide, quando visitou o Brasil, impressionou-se com o verdadeiro caleidoscópio de realidades múltiplas e contrastes que constituía nosso país e deu àquilo que viu o apodo de “país dos contrastes”. Empiricamente, esta é uma tese de comprovação razoavelmente simples, se considerarmos que um observador ao qual se incumbisse a tarefa de promover um inquérito sobre nosso país depararia-se, ao longo de sua missão, imensas disparidades. Começando pelo domínio natural, seguiram-se diante dos olhos atônitos do pesquisador imaginário biomas tais como: o cerrado, o pantanal, a mata atlântica, a Amazônia, o pampa gaúcho e o semi-árido nordestino. De par a esta percepção, a investigação também reconheceria modos de vida e organizações sociais díspares: a riqueza industrial do Sul e o atraso secular do Nordeste. Desta feita, seria então lícito aduzir a conclusão de que coexistem no mesmo território não um, mas diversos países? 
          Alguns retorquiriam, negando veementemente essa proposição. Certos observadores postulam que há uma unidade subjacente à aparente pluralidade de cenários perceptíveis. Segundo esta linha de raciocínio, é possível localizar os liames entre o Brasil pobre e o rico na relação de dependência existente entre um e outro. Nesse pensamento, que vê o país como um sistema onde componentes separados interagem entre si, a parte rica e moderna alimenta-se do subdesenvolvimento e da miséria da parte pobre. Os modelos de desenvolvimento perpetrados ao longo de nossa história, concentraram a produção em pontas determinadas no espaço geográfico e a riqueza nas mãos da classe dominante. Esta classe dominante, por sua vez, sempre tirou proveito das discrepâncias regionais, impondo seu domínio e amealhando, através do sistema político, o poder necessário à perpetuação de seus desígnios. 
          Seja qual for a exegese para nosso país, notabilizamo-nos pela fluidez e força criativa da nossa cultura sincrética e miscigenada. Ao longo da odisséia que constituiu nosso país como nação, a esperança de que seremos capazes de superar nossas injunções e impasses tem alimentado muitos sonhos de mudança. Esta infatigável vocação para crer em um futuro melhor já é um bom começo, pois como disse o escritor Mário Lago: “No dia em que perdermos a capacidade de ter esperança, podem apagar o arco-íris”. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   RICARDO ANSAI 
Cidade: ARAÇATUBA-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

          O retrato perverso da atual realidade brasileira expressa de maneira clara as contradições sociais, culturais e econômicas das quais somos vítimas. Essas contradições são provenientes de nosso passado negro, marcado pela exploração das grandes potências as quais sempre se mantiveram atreladas às elites brasileiras, interessadas na manutenção de seus interesses políticos e econômicos às custas da exploração e da pobreza da grande massa de brasileiros. 
          Cada governo expressa sua ideologia através da forma como administra a educação. Partindo-se desse pressuposto e vendo a atual situação da educação no Brasil, devemos nos preocupar. Para defenderem seus interesses e garantirem a manutenção de seus poderes, as elites utilizam uma perversa arma: a diminuição da qualidade ou supressão da educação. Tal fato pode ser evidenciado através dos seguintes dados: no Brasil, metade não têm o 1º grau; 83% são analfabetos funcionais. Através desse mecanismo, promove-se a alienação da população e a impossibilidade dos miseráveis ascenderem socialmente. Desinformado, o povo pode vir a ser submetido aos instrumentos pervertidos dos meios de comunicação, os quais sempre divulgaram as notícias de acordo com a ideologia de nossas classes mandatárias, interessadas em cultivar a idéia de que somos um povo pacífico, ordeiro, justo, com a economia em constante crescimento. Esquecem, entretanto, de que os fatos históricos desmentem as ladainhas. Esquecem dos massacres promovidos contra os indígenas – na época do descobrimento somavam mais de 2 milhões; hoje, não passam de 325.652. Esquecem das atrocidades cometidas pelos brasileiros durante a Guerra do Paraguai. Vimos, recentemente, mais uma prova de que os meios de comunicação não estão interessados em passar as informações de modo parcial: a privatização da Telebrás ocupou menos da metade do tempo que foi concedido pelo Jornal Nacional ao nascimento da filha da Xuxa. Enquanto isso, a Globo News, canal de televisão pago, dava aos mais abastados cidadãos longas informações sobre a privatização. Mais um sinal do velho-novo (principalmente velho) Brasil. 
          “O liberalismo nos levará ao desenvolvimento!” “O Brasil está entre as dez maiores economias do mundo!” “A crise internacional não abalará o Brasil!” Essas frases tão intensamente pronunciadas por vários economistas e políticos até a segunda metade deste semestre – e apoiados por vários organismos estrangeiros – são, como pudemos comprovar recentemente, no mínimo meias-verdades. Esse comportamento dissimulador de órgãos externos e internos tentou encobrir mais uma vez a fragilidade de nossa economia e dependência desta em relação às instituições internacionais. A princípio, nossa economia era essencialmente agrária e dependente das exportações. Os resultados dessa política econômica foram extremamente nocivos e deixaram seqüelas terríveis em nosso país. A maior parte de nossas riquezas naturais foi totalmente consumida pelos europeus: destruiu-se a Mata Atlântica para a exploração do pau-brasil; extraiu-se o ouro para financiar a Revolução Industrial inglesa. Além disso, internamente, tivemos a concentração das riquezas e a formação dos latifúndios improdutivos, os quais geram movimentos violentos pela distribuição das terras. Outra conseqüência foi o preconceito: os negros trazidos como escravos ainda hoje são discriminados em nossa sociedade. Nossa economia, hoje, está totalmente desestabilizada pela crise internacional: há ameaças de diminuição do comércio interno, diminuição da produtividade industrial, recessão e desemprego. O que fazer então? Vamos recorrer à tradição da dependência brasileira em relação aos estrangeiros. Vamos ao FMI, que nos impõe regras e normas para promover uma reforma administrativa. Em troca disso, recebemos os empréstimos. Dentro disso, fazemos as seguintes perguntas: o neoliberalismo nos levou ao desenvolvimento? Estamos realmente entre os dez do mundo? Essas perguntas... 
          Andando pelo nosso país, pelo nosso estado, pela nossa cidade, pelas nossas ruas podemos encontrar as respostas para a questão de “quem somos hoje”. Somos frutos desses 500 anos de explorações, vícios e contradições. Somos frutos dos interesses individuais que submetem os interesses coletivos. Somos, enfim, frutos desses 500 anos de Brasil. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   RODRIGO MENDES LEME 
Cidade: CAMPINAS-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO 
 

O Caminho Brasileiro 

          Brasil, país dos famintos, dos massacres de cidadãos inocentes da expoliação, da pobreza, do subdesenvolvimento econômico, do extermínio da parcela indígena de sua população. À medida que o Brasil se aproxima dos 500 anos, velhos problemas continuam sem solução, conforme bem alertou o historiador Sílvio Romero em sua história da Literatura Brasileira (e isso há mais de 100 anos!). Se até o presente momento não houve uma violenta insurreição armada popular, deve-se à ignorância e à índole pacífica do mesmo, que contribuem para perpetuar o “status quo”. 
          Visto por este ângulo, o leitor é tentado a considerar o Brasil um país que “jamais dará certo”. A conjuntura atual é, de fato, negativa para a nação. Mas tal fato não deve anular tudo o que até agora conquistamos. Alguns brasileiros, em todos os campos de atividades, podem ser encontrados no panteão dos grandes da humanidade. Santos Dumont, César Lattes, Carlos Chagas, Machado de Assis, Oscar Niemayer, etc. São compatriotas que demonstram o potencial do “gigante adormecido”. “Brasil, país do futuro — sempre do futuro?”, dirá, ironicamente, o leitor mais incauto. Um futuro mais próximo, porém: pela primeira vez, o Estado, através de leis democráticas, começa a resguardar o citado potencial. Leis como as que regem o direito de greve, os crimes hediondos, os juizados de pequenas causas e outras podem parecer pouco; mas para um país que até poucos anos era governado por uma ditadura, tais leis constituem um avanço fundamental. 
          O maior legado brasileiro, todavia, encontra-se num campo inesperado; tal classificação decorre do fato deste assunto ser um tanto controverso. Trata-se da questão racial — e de como a intensa miscigenação produziu uma experiência antropológica única no mundo. Não se trata de retomar o ultrapassado mito da “democracia racial”, que apenas serviu — e serve — para disfarçar o preconceito latente em parte da população. Mas quando se olha a multiplicação de conflitos étnico-raciais no globo, é inegável o nosso desenvolvimento. Eis o legado: enquanto as outras nações ainda buscam a tolerância racial — inclusive os “poderosos” EUA — nós já estamos num estágio mais avançado: no Brasil, busca-se a convivência racial, baseada em nossa singular miscigenação. Seria a glória do já falecido antropólogo Darcy Ribeiro, renomado pesquisador desse assunto: com apenas 500 anos de “idade”, o Brasil conseguiu aquilo que nenhum outro país no mundo obteve — passar no estágio da tolerância para o da convivência racial. “Brasil, farol da humanidade”: num planeta marcado por ódios ancestrais, esta mensagem mostra que é possível buscar a convivência — bastando seguir o caminho apontado pelo nosso país. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   ROGÉRIO CARDOSO DA SILVA 
Cidade: CURITIBA-PR 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

500 anos de Brasil e nenhum de autonômia própria 

          Indiferente a uma gama de outros países terceiro mundistas, o Brasil é o resultado de uma colonização de exploração, em que sempre serviu de sustentação econômica para os países do Hemisfério Norte, sobretudo Portugal. Esse desajuste social, financeiro, econômico e cultural pelo qual passamos, é o resultado do desiquilíbrio de forças que sempre favoreceu os estrangeiros em nosso detrimento, remontando aproximadamente cinco séculos. 
          Tudo começou com o monopólio sobre a exploração do pau-brasil. Houve uma verdadeira devastação da espécie e foi utilizado até como forma de pagamento de dívidas atrasadas. Ignorou-se o desiquilíbrio ecológico e o respeito pela população nativa. Como se não bastasse, as sucessivas guerras com as populações locais, no mesmo período colonial, acabaram por reduzí-las ao que são hoje: um minguado número de aproximadamente 330.000 indivíduos. Como precisamente nos lembra o antropólogo Darcy Ribeiro: “eles só nos queriam como feitoria lucrativa”. 
          Toda essa visão inebriada de negativismo ? porém verdadeiro ? contraria aqueles chavões ufanistas e nacionalistas que a classe dominante nos procura outorgar: “No Brasil, plantando, tudo se dá”, ou “Brasil, país do futuro”. É bem verdade que delineamos uma trilha ímpar no longo desses 500 anos, e conseguimos uma reputação internacional invejável perante os países que tiveram nossa mesma origem sócio-econômica; mas isso não desbanca os graves entraves existenciais que nos afetam ou afetaram. E os inúmeros negros que foram massacrados pelos latifundiários? E a corrupção que sempre cercou e ainda afeta os nossos governantes? E a falta de uma política séria que debata a realidade da nação? Por essas e por uma série de outras indagações sem respostas ou com respostas forçadas é que os condescentes com a situação devem, no mínimo, reverem seus discursos. 
          Nesses cinco séculos sempre tivemos a mercê de decisões alheias aos nossos próprios direitos. Fomos dominados ideologicamente por portugueses, ingleses e agora, com a  multipolarização planetária por intermédio de Blocos, pelos norte-americanos. Nunca tivemos autonomia intelectual, algo nosso, inteiramente “tupiniquim”, como a Revolução Chinesa, Cubana ou Russa. Pode-se alegar tudo, mas a essência é que carecemos de ideais próprias. 
          Precisamos bem mais que um “sete de setembro” para conseguirmos nossa real independência. Mais que leis que cuidam do racismo, precisamos conscientizar a população da total igualdade entre os homens. Necessitamos mais de melhores salários para a classe trabalhadora, do que leis que tratam do assunto. A partir do momento em que todas essas barreiras forem transpostas, em que houver real compatibilidade entre teoria e prática, aí então poderemos nos orgulhar de fato desse país. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   THAIS CRISTINA CHAVES 
Cidade: CAMPINAS-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

A Antropofagia deturpada 

          Ao completarmos quinhentos anos de existência aos “olhos do mundo europeu”, é no mínimo incoerente deixar de cogitar até que ponto incorporamos, ao nosso “psiquismo”, essa visão européia da “terra do pau-Brasil” e o quanto nos utilizamos dela como referencial para nossa auto-identificação. 
          O próprio movimento antropofágico, criado por modernistas na década de vinte, fazia menção ao fato de que deveríamos sim “engolir”, incorporar, as idéias e tendências vindas do velho mundo. Entretanto esse ato de “canibalismo” deveria ser sempre acompanhado por uma “digestão” sistemática e seletiva, e seguida por uma excreção traumática do que fosse considerado “dejeto”, ou seja, idéias que só serviriam para manter o Brasil sob as égides ideológicas da metrópole européia. 
          Sempre praticamos este “antropofagismo deturpado”, deixamo-nos corromper pela ideologia pragmática européia e nos esquecemos de jogar os “excrementos” ao lixo. O Europeu trouxe em sua bagagem seu sistema político e econômico pronto para ser colocado em prática, o colonialismo fez uso extremado de nossas ditas “riquezas naturais” e nos deixou como legado uma “vocação eterna” para fornecer as chamadas matérias–primas, e dispostos a nos entrarmos neste conformismo de sermos um “país abençoado por Deus”. Movido pelo próprio imediatismo, herdado de nossos ancestrais portugueses, deixou-se de se utilizar dessa “riqueza natural” abundante para desenvolver uma tecnologia de ponta, capaz de nos fornecer autonomia e autogestão. 
          A elite brasileira continua com seus olhos voltados para o mar e de “costas” para o Brasil, impregnados pelo status quo de europeus em exílio na colônia e sem buscar alternativa para um enraizamento cultural, se voltam contra a realidade nacional. Esquecem-se do fato de que não apenas uma “filial portuguesa” na América, mas uma nova raça, que precisa de políticas de inserção específicas e que se baseiam em dados da nossa própria realidade, afinal de contas somos o “melting-pot”. 
          Até os dias atuais nossa elite sustenta-se e sustenta o Brasil à custa de investimentos estrangeiros. Esquece-se de consolidar aqui uma indústria forte e voltada para pesquisa de campo nacional. Resolveu simplesmente abrir as portas, e todo o resto para o capital estrangeiro. O mundo mudou. O Brasil não. Precisamos acompanhar esses novos contornos econômicos da era globalizada. Não deixaremos nunca de pagar juros de dívidas se continuarmos a deixar de investir em nossa própria gente, pois falar em riquezas  naturais como o grande patrimônio do Brasil, é no mínimo um grande sofisma , se considerarmos que, na atualidade riqueza não é sinônimo de conhecimento, ou “royalties”, de patentes. 
          Hoje somos parte do grupo dos chamados “emergentes”, continuamos a ser vistos e a nos olharmos com os olhos segregacionistas do mundo europeu e do desenvolvido. Modernizamos sim em vários aspectos nossas instituições, mas em grande parte estas refletem a falta de políticas nacionais estruturais atuantes, no que se diz respeito ao cidadão, marcados pela corrupção e pelo descaso por nossas próprias questões. No Brasil de hoje continuamos a nos “embebedar” pelo culto ao estrangeiro, elegendo até mesmo um presidente que reflete a própria visão do europeu do que seria um perfeito Estadista. Mas um perfeito governante no Brasil, não condiz com o modelo um  perfeito Estadista europeu. Mario de Andrade talvez hoje nos aconselharia: “façamos a antropofagia, mas que ela seja a antropofagia do Brasil, pelo próprio Brasil”. Esse imenso estrangeiro nacional a ser descoberto. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   THAIS MASCAGNA BARBI 
Cidade: SÃO CAETANO DO SUL-SP 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

País das ideologias 

          Brasil do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do ouro, de D. Pedro, do café, de Campos Sales, Floriano Peixoto, Nilo Peçanha ... das oligarquias dissidentes, do tenentismo, de Getúlio, do Estado Novo, da indústria e do Plano de Metas de “Juscelinos”, “Jangos”, “Jânios”, renúncias, suicídios, ditaduras e democracias... Depois de praticamente quinhentos anos da “descoberta”, onde se encontra o achado europeu? 
          Se enganam os que todavia acreditam que o Brasil seja somente o país do futebol, das alegrias  e de carnaval. Temos muito mais do que história para contar, temos um passado de muita riqueza e exploração. Riqueza para o europeu que aqui chegou e que usufruiu dos nossos recursos e se utilizou sem escrúpulos de um povo que nesta terra vivia e sobrevivia. Exploração para os “achados”. 
          Construíram a história deste país sem deixar que ela fosse construída por si só, manipularam-na de acordo com seus interesses. Acabou a cana? --  ouro. Acabou o ouro? --  café. E assim, dentro desta substituição sistemática o país foi se incorporando, crescendo, desenvolvendo (melhor dizer subdesenvolvendo) e carregando um passado que se reflete no presente. Sabemos que apesar dos longínquos séculos da exploração colonial seguimos sendo explorados. Continuamos nas condições de colônia, é claro que extra-oficialmente. Ainda não deixamos de ser fornecedores, de gerar riquezas aos que nos controlam e de submetermo-nos ao estrangeiro. Continuamos, cada vez mais, a ser invadidos por culturas e ideologias que provém de solos alheios. Eles plantam e nós cultivamos. Eles dominam e nós somos dominados. 
          É como se D. Pedro não tivesse declarado a independência . “Independência”? Independentes somente se for de realizarmos algo que não é nosso, de deixarmos ser invadidos pela massificação e alienação a que constantemente vivemos. Massificação por havermos nos tornado iguais em relação aos pensamentos e ações; e alienação pela incapacidade de enxergar que todavia nos falta muito para que atinjamos a qualidade de um verdadeiro povo ?  capaz de discernir e escolher, de criar, transformar e mudar. 
          Logo, dizer que o Brasil cresceu e deixou de ser a colônia que Portugal tanto explorou e que é uma potência com qualidades para emergir, é mais uma das ideologias estrangeiras que compramos a toda hora. Enquanto não deixamos de ser medíocres por acreditarmos nela e tomarmos consciência de quem realmente somos, nem indústria nem computador nos elevarão à categoria real de povo. 
 



  
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  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 99
 
Nome:   TIAGO NOGUCHI MACHUCA 
Cidade: CURITIBA-PR 
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA 
 

          Apesar de estudos comprovarem a chegada de outro navegador português anterior a Pedro Álvares Cabral, a descoberta do Brasil é a este atribuída. Ano de 1500, oficialmente nascia para o velho mundo mais uma colônia de exploração, da qual poderia retirar tudo o que desejasse, sem preocupações com seus habitantes nativos e muito menos com o meio ambiente. A primeira devastação foi a do pau-brasil, que não demorou muito a escassear. Em seguida, o cultivo da cana-de-açúcar no sistema “plantation” (monocultura, latifúndio e produção destinada ao mercado externo), o qual deixou seqüelas irreversíveis na região nordestina. Depois a mineração que devastou muitas passagens em Minas Gerais. Então veio a Independência, o império, a República, o café e a imigração, o regime militar, as eleições diretas, o “impeachment” de Collor ... é 1998! 
          Todo esse processo histórico brasileiro é muito importante para que se entenda a situação atual do país. Na economia, já na época do pau-brasil realizaram-se empréstimos externos, os quais se concentraram no regime militar e hoje, o simples pagamento de seus juros representa um enorme entrave para o crescimento econômico. E, infelizmente, tudo indica que o Brasil entrou em um círculo vicioso de dependência financeira. Recente exemplo disso foi o dinheiro que o FMI, juntamente com outras instituições e países, emprestou à nação para evitar a sua “quebra”. 
          No campo social, o que tem prevalecido é o dualismo que o país apresenta; sua distribuição de renda alcançou o topo entre as mais desiguais do mundo. E é no nordeste, palco do ciclo açucareiro, que as disparidades são maiores. A concentração de terra chega ao ponto de lembrar o sistema feudal, uma vez que alguns poucos latifundiários exploram uma população de miseráveis. 
          E, convivendo com esse quadro econômico e social tem-se o povo brasileiro. A miscigenação entre as diversas raças e mais variadas culturas formou um povo único, singular, que devido a essa distinção poderia ser tranqüilamente denominado de complexo étnico brasileiro. E são essas pessoas que, apesar das péssimas condições de vida, estarão nas ruas em abril do ano 2000, participando alegremente das comemorações dos 500 anos de descoberta de seu país, mesmo que tardiamente. 
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