Provas da 2a. Fase 
Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa 

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1. Acaba de chegar ao Brasil um medicamento contra rinite. O antiinflamatório em spray Nasonex diminui sintomas como nariz tampado e coriza. Diferente de outros medicamentos, é aplicado uma vez por dia, e em doses pequenas. Estudos realizados pela Schering-Plough, laboratório responsável pelo remédio, mostram que ele não apresenta efeitos colaterais, comuns em outros medicamentos, como o sangramento nasal. “O produto é indicado para adultos e crianças maiores de12 anos, mas estuda-se a possibilidade de ele ser usado em crianças pequenas”, diz o alergista Wilson Aun, de São Paulo. (ISTOÉ, 04/11/98)

a) Segundo o texto, quais seriam as vantagens do uso de Nasonex em relação a produtos congêneres?
b) O objeto de que trata este texto é chamado, sucessivamente, de “medicamento”, “antiinflamatório”, “remédio” e “produto”.  Qual desses termos é o que tem o sentido mais geral, e qual o mais específico?
c) Duas das palavras indicadas em b podem ser consideradas sinônimas. Quais são elas?
 

2. Na embalagem de um aparelho eletrônico, você encontra um “Termo de Garantia” no qual se lêem, entre outras, as informações abaixo:

Este produto é garantido pela Amelco S.A. Indústria Eletrônica dentro das seguintes condições:

1. Fica garantida, por um período de 6 (seis) meses a contar da data da emissão da nota fiscal de venda ao consumidor, a substituição de peças, partes ou componentes que apresentarem defeitos de fabricação, exceto aqueles decorrentes de instalação e uso inadequado e em desacordo com as especificações contidas no “Manual de Instruções”.

2. A Amelco não se responsabiliza pelos produtos agregados aos seus pelos consumidores, e ainda por defeitos que esses causarem. (...)

3. Essa garantia será extinta caso:

a) Aponte uma contradição na cláusula 1.
b) Considerando o uso corrente, o pronome esses (cláusula 2) pode ser interpretado como referindo-se a mais de um antecedente. Aponte dois.
c) A terceira cláusula é em grande parte repetitiva em relação às cláusulas 1 e 2, mas sempre acrescenta algum dado novo. Aponte dois desses dados novos.
 

 3. Em uma de suas edições de 1998, o Classline Regional da Folha de S. Paulo, que circula nas regiões de Campinas, Ribeirão Preto e Vale do Paraíba, trazia este curioso anúncio:

Alguma Casada – Quando ele te conheceu ele fazia você sentir-se uma Empresa Multinacional como fêmea, e você recebia como o equivalente à um salário de Diretora Executiva no seu salário de sexo, amor e carinho! Hoje, p/ ele você é uma Micro-empresa, cujo ele só visita quando ele vai pagar o seu salário mínimo sempre atrasado de sexo e amor! Faça como as grandes empresas, terceirize a mão-de-obra c/ gente qualificada que quer entregar satisfação completa sem nenhum tipo de cobrança. Eu casado sigiloso, cor clara, 28 anos. Procuro você s/ preconceito de peso ou altura de 18 a 45 anos. Posso viajar  para sua cidade ou hospedá-la em local secreto e sigiloso em São Paulo/Capital quando por aqui você estiver por passagem fazendo compras ou querendo me visitar CP1572.

a) A linguagem do anúncio acima faz pensar num tipo de autor. O produto oferecido seleciona um tipo de leitor. Considerando isso, caracterize o autor e o leitor representados pelo anúncio.
b) Algumas passagens do anúncio impressionariam mal uma leitora pouco disposta a tolerar infrações à norma lingüística culta. Transcreva três delas.
c) Que comportamento socialmente discutível é proposto pelo anúncio através da metáfora da terceirização?
 

4. Num documento obtido na INTERNET, cujo título é “Como escrever legal”, encontram-se, entre outras, as seguintes recomendações:

1. Evite lugares comuns como o diabo foge da cruz.
2. Nunca generalize: generalizar é sempre um erro.
3. A voz passiva deve ser evitada.

Todas essas recomendações seguem a mesma estratégia para produzir um efeito cômico.

a) Qual é a estratégia geral utilizada nessas recomendações?
b) Explicite como a estratégia geral se realiza em cada uma das recomendações acima transcritas.
 

5. O texto “O FMI vem aí. Viva o FMI”, do articulista Luiz Nassif, publicado na revista ÍCARO, está redigido no português culto característico do jornalismo, e contém, inclusive, um bom número de expressões típicas da linguagem dos economistas, como “desequilíbrio conjuntural”, “royalties”, “produtos primários”, “política cambial”. No entanto, contém também termos ou expressões informais, como na seguinte frase: “Há um ou outro caso de mudanças estruturais no mundo que deixa os países com a broxa na mão”.

Leia o trecho abaixo, que é parte do mesmo artigo, e responda às questões:

Países já chegam ao FMI com todos esses impasses, denotando a incapacidade de suas elites de chegarem a fórmulas consensuais para enfrentar a crise - mesmo porque essas fórmulas implicam prejuízos aos interesses de alguns grupos poderosos. Aí a burocracia do FMI deita e rola. Há, em geral, economistas especializados em determinadas regiões do globo. Mas, na maioria das vezes, as fórmulas aplicadas aos países são homogêneas, burocráticas, de quem está por cima da carne-seca e não quer saber de limitações de ordem social ou política. (...) Sem os recursos adicionais do Fundo, a travessia de 1999 seria um inferno, com as reservas cambiais se esvaindo e o país sendo obrigado ou a fechar sua economia ou a entrar em parafuso. O desafio maior será produzir um acordo que obrigue, sim, o governo e Congresso a acelerarem as reformas essenciais (ÍCARO, 170, out. 1998).

a) Transcreva outras três expressões do trecho que tenham a mesma característica de informalidade.
b) Substitua as referidas expressões por outras, típicas da linguagem formal.

6. Freqüentemente, a propaganda explora semelhanças explícitas entre segmentos (palavras, partes das palavras, etc.) para sugerir a existência de relações de sentido entre esses segmentos. A estratégia é visível em algumas propagandas que mantiveram a sua eficácia por muito tempo, como “Melhoral, melhoral, é melhor e não faz mal” e “Tomou doril, a dor sumiu”.

a) Transcreva, dentre os slogans abaixo, aqueles em que esse procedimento é utilizado.
b) Analise um dos slogans que você terá apontado na resposta à questão a, explicitando o tipo de relação que se estabelece através do processo acima descrito.

7. O trecho que segue relata um diálogo entre o narrador-personagem de A Relíquia e o Doutor Margaride, e contém  referências básicas para o desenvolvimento do romance:

Eu arrisquei outra palavra tímida.
— A  titi, é verdade, tem-me amizade...
— A titi tem-lhe amizade – atalhou com a boca cheia o magistrado – e você é o seu único parente... Mas a questão é outra, Teodorico. É que você tem um rival.
— Rebento-o! – gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chamas, esmurrando o mármore da mesa.
O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o Dr. Margaride reprovou com severidade a minha violência.
— Essa expressão é imprópria de um cavalheiro, e de um moço comedido. Em geral não se rebenta ninguém... E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Jesus Cristo!
Nosso Senhor Jesus Cristo? E só compreendi quando o esclarecido jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no último ano da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e prédios, a irmandades da sua simpatia e a padres da sua devoção.  


a) Localize no trecho ao menos uma dessas referências e explique qual a sua relevância para a trama central.
b) O trecho fala da importância da figura de Jesus Cristo para a personagem denominada “titi”. Descreva essa personagem, segundo o prisma do próprio narrador, Teodorico Raposo, e tente demonstrar como o mesmo trata sarcasticamente o seu “rival” de herança.
 

8. Amor de Perdição é um romance de Camilo Castelo Branco em que a instituição “família” desempenha um papel decisivo.

a) Estabeleça um paralelo entre os papéis exercidos pela família Albuquerque sobre Teresa e aqueles exercidos pela família Botelho sobre Simão.
b) Nesse romance, um dos tópicos importantes é o da relação entre pais e filhos: contraste as relações que se dão na família de João da Cruz, por um lado, com as que se dão nas famílias Botelho e Albuquerque, por outro.
 

 9. O trecho abaixo citado compreende uma fala importante de Francisca, personagem de Quarup, a Nando. Essa fala remete ao seu passado com Levindo e também à sua situação presente:

—  Eu vi o corpo de Levindo, Nando, morto duas vezes, no mesmo dia. Primeiro no pátio do Engenho da Estrela. O portão do Engenho estava fechado, a Polícia cercava os cadáveres. Agarrada nas grades, chorando de amor e de raiva, vi o corpo de Levindo entre os dos camponeses que tinham ido reclamar salário atrasado. Meu pai me abraçava pelos ombros, com uma lealdade e um carinho que eu nunca tinha sentido nele. Levindo não tinha carregado nenhuma arma e em torno dos camponeses estavam arrumadas as que carregavam: duas peixeiras, três foices. E todos fuzilados, ali. Levindo ensangüentado e empoeirado. Quando eu gritei me levaram embora, mas fui vigiar o Instituto Médico Legal na cidade. Quando os corpos chegaram entrei sozinha, em silêncio, e vi Levindo morto pela segunda vez. Ele e os outros tinham tido as roupas rasgadas no Instituto, para contagem de buraco de bala.

a) Quem foi Levindo na vida da comunidade em que viveu? Qual a sua relação com Francisca?
b) Que importância terá Levindo no destino de Nando, no final do romance?
 

10. No romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador fornece ao leitor uma visão nada lisonjeira das personagens, especialmente quando se trata das personagens femininas.

a) Sabendo que essa visão do narrador é acentuada no processo de construção daquela que foi a sua primeira e grande paixão de juventude,  identifique essa personagem e cite ao menos um dos traços que a caracterizam.
b) Referindo-se a D. Plácida, afirma o narrador: “Foi assim que lhe acabou o nojo”. Qual a função exercida por essa personagem na trama do citado romance? De que nojo se trata e de que modo ele teria acabado?
 

11. No final de Morte e Vida Severina, encontramos o seguinte trecho:
 

a) Essas palavras são dirigidas a Severino, o retirante, em resposta a uma pergunta feita por ele. Quem as pronuncia? Que pergunta tinha sido feita por Severino?
b) Qual o significado de “severina”, adjetivando “vida”?
c) Relate o episódio em que se apóia a afirmação contida nos dois últimos versos do trecho citado.
 

 12.
 
 
                              I.  Agosto 1964  

1.     Entre lojas de flores e de sapatos, bares, 
2.           mercados, butiques, 
3.     viajo 
4.           num ônibus Estrada de Ferro – Leblon. 
5.           Volto do trabalho, a noite em meio, 
6.           fatigado de mentiras. 

7.      O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud, 
8.      relógio de lilases, concretismo, 
9.      neoconcretismo, ficções da juventude, adeus, 
10.          que a vida 
11.           eu a compro à vista aos donos do mundo. 
12.          Ao peso dos impostos, o verso sufoca, 
13.     a poesia agora responde a inquérito policial-militar. 

14.          Digo adeus à ilusão 
15.     mas não ao mundo. Mas não à vida, 
16.     meu reduto e meu reino. 
17.          Do salário injusto, 
18.          da punição injusta, 
19.          da humilhação, da tortura, 
20.          do terror, 
21. retiramos algo e com ele construímos um artefato 

22. um poema 
23. uma bandeira 
 
                                                  (Ferreira Gullar ) 

II. Data e Dedicatória  

1.   Teus poemas, não os date nunca... Um poema 
2.   Não pertence ao Tempo ... Em seu país estranho 
3.   Se existe hora, é sempre a hora extrema 
4.   Quando o anjo Azrael nos estende ao sedento 
5.   Lábio o cálice inextinguível... 
6.   Um poema é de sempre, Poeta: 
7.   O que tu fazes hoje é o mesmo poema 
8.   Que fizeste em menino, 
9.   É o mesmo que, 
10.   Depois que tu te fores, 
11.   Alguém lerá baixinho e comovidamente, 
12.   A vivê-lo de novo... 
13.   A esse alguém, 
14.   Que talvez nem tenha ainda nascido, 
15.   Dedica, pois, teus poemas. 
16.   Não os dates, porém: 
17.  As almas não entendem disso... 
 
               (Mário Quintana) 
 

 

 

Comparando os poemas I e II, constatamos, de imediato, concepções opostas sobre a natureza da poesia.

a) Qual é a oposição fundamental entre esses dois poemas? Cite um trecho de cada poema em que essa contraposição se verifique de maneira explícita.
b) Há, no poema de Ferreira Gullar, claras alusões a um momento particular da história brasileira. Que fato histórico se deu naquele momento? Cite ao menos dois trechos que caracterizem esse momento.
c) A razão fundamental para não datar os poemas, segundo Mário Quintana, é que “As almas não entendem disso”. No contexto do poema, interprete esse verso.
 

 

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