REDAÇÃO
Expectativa da Banca
Tema A: 500 anos de Brasil
Expectativa da banca:
Qualquer comemoração
liga uma data presente a um acontecimento passado, encarado como marco
historicamente importante. Nesse caso, o acontecimento que se comemora
é a chegada às costas brasileiras das naus de Cabral, mas
o enunciado da dissertação deixa claro: não se espera
que o candidato trate dos episódios que presumivelmente ocorreram
em abril de 1500, e que a História reuniu sob a denominação
de "Descobrimento do Brasil". Trata-se, sim, de ver o descobrimento
como marco inicial do processo histórico que resultou na nação
brasileira que somos hoje ("quem somos"). Espera-se, pois, que o candidato
use os quinhentos anos do descobrimento como motivo para um balanço
desse processo, optando por um dos tantos enfoques sugeridos pela coletânea.
Descrevem-se a seguir alguns desses enfoques possíveis:
I - Balanço favorável:
-
A nação brasileira pode considerar-se verdadeiramente emancipada,
em termos étnicos e culturais, no sentido de ter desenvolvido uma
cultura própria, ou mesmo de constituir uma raça diferente.
Na coletânea, essas posições são defendidas
pelos dois textos que propõem os balanços mais otimistas
para o país, o de Darcy Ribeiro, para quem os elementos indígena,
português e africano se combinaram em uma nova etnia, que já
não se confunde com nenhuma daquelas; e o de Afonso Celso, para
quem haveria uma índole brasileira, profundamente pacífica
e radicalmente avessa à ganância e à exploração.
-
A herança portuguesa foi positiva para a cultura brasileira. O poema
Calabar, de Jorge de Lima, aponta dois traços da cultura brasileira
que teriam sido irremediavelmente perdidos se os holandeses tivessem tido
sucesso em sua invasão do século XVII: a forte presença
do catolicismo nas devoções religiosas e festas populares,
e a força dos sentimentos e das emoções. O candidato
poderia acrescentar ainda outras marcas portuguesas na cultura brasileira,
como a língua, a cordialidade, a forma de lidar com a diversidade
racial, etc.
-
Somos hoje uma nação com uma sociedade civil amadurecida,
como apontam algumas leis mais ou menos recentes que zelam pela convivência
social: o Código de defesa do consumidor, as leis que cuidam do
racismo, dos crimes hediondos, etc.
-
candidato poderá ainda usar os fragmentos da coletânea que
fazem um balanço desfavorável, e contestar as opiniões
e informações que eles veiculam.
II - Balanço desfavorável:
-
O candidato poderá lembrar que a história que remonta
ao descobrimento de Cabral foi por muito tempo a de um país-colônia,
em que predominaram motivações nada nobres, como o lucro
fácil e a promiscuidade (Paulo Prado). Para um autor como Sílvio
Romero, o Brasil era, e seria por muito tempo uma nação inculta,
dependente e servil, arrastando um atraso de origem colonial. Ao passado
colonial remonta também a mentalidade predatória que provocou
a dizimação das populações indígenas
e que levou à exploração descontrolada dos recursos
naturais (FSP, História do Brasil). Pode-se mostrar
outras permanências do passado colonial, como a má distribuição
da renda e a espoliação do povo pelos mais abastados (Sílvio
Romero).
-
candidato poderá ainda usar os fragmentos da coletânea
que fazem um balanço favorável e contestar as informações
ou opiniões que eles trazem.
III - Meio-termo
O candidato poderá usar os fragmentos da coletânea, favoráveis
ou desfavoráveis, e desenvolver uma terceira posição,
levando em conta, de maneira equilibrada, os elementos fornecidos pelos
fragmentos.
TEMA B
Ao propor-se desenvolver este tema, o candidato deverá, em primeiro
lugar, levar em conta a pequena trama constante no fragmento da Carta de
Pero Vaz de Caminha, que pode ser reorganizada do seguinte modo:
1) um dos índios, atraído pelas contas de um rosário,
pede-as para si e envolve-as em seu pescoço;
2) a seguir, tira-as daí e enrola-as no braço;
3) acena para a terra, para as contas e também para o
colar do capitão.
Além da compreensão dessa seqüência de ações
o aluno deverá levar em conta que Caminha supõe que
os índios trocariam aquilo (as contas) por ouro. Essa suposição
tem a ver com o possível dourado do colar (corrente ou cordão)
do capitão. Deve ficar claro para o candidato tratar-se de uma suposição
fundada num desejo dos portugueses e não no significado real dos
gestos do índio.
Com base nessas informações, fornecidas pelo próprio
Caminha, espera-se que o candidato formule um texto em que ele é
ao mesmo tempo narrador e personagem. Como tal, espera-se que ele se atribua
uma ação ou ações que sejam pertinentes à
trama narrada por Caminha, seja antecedendo-a, seja interrompendo-a, seja
dando-lhe seqüência.
Além dessa intervenção, espera-se que o candidato
(narrador e personagem) intervenha na trama fazendo valer sua condição
de jovem do final do século XX. Neste caso, ele deverá valer-se
de algumas informações, das quais são exemplo:
-
intuito dos portugueses nas descobertas era de ordem econômica;
-
os portugueses tiveram no Brasil uma política de exploração
nada amistosa com os índios;
-
a religião católica desempenhou papel de grande importância
no processo de ocupação do Brasil;
-
os índios não se adaptaram facilmente a esse processo;
-
a população indígena no século XX se
reduz a uma parcela mínima em relação àquela
que havia por aqui na época;
-
litoral da Bahia, mais precisamente na sua parte ao sul de Salvador,
região em que Cabral teria aportado, passou por um importante ciclo
agrícola: o do cacau.
-
após o declínio da cultura do cacau, essa mesma região
vem recebendo grande impulso na área turística - Ilhéus,
Porto Seguro - constituem hoje pontos de grande afluxo de turistas;
-
ETC.
Ao colocar-se dentro de um contexto do início do século XVI,
no qual se inter-relacionam portugueses e índios, espera-se que
algumas diferenças culturais sejam ressaltadas pelo candidato. Como
exemplo delas, podem ser lembradas:
-
os portugueses aliavam aos interesses econômicos um certo intuito
religioso. Eram católicos e pretendiam, ao conquistar a terra, cativar
os nativos para sua religião. Daí a presença de um
sacerdote e dos elementos ligados à liturgia cristã: a cruz,
o rosário, etc.
-
embora não entendessem com que tipos de seres estavam lidando
(até que ponto seriam humanos?), os portugueses sempre viram nos
índios seres menos dotados e facilmente enganáveis;
-
os portugueses não concebiam seres sem malícia e sem noção
de pecado e, por isso, espantavam-se de ver os índios nus, a viver
sem nenhum constrangimento;
-
ao defrontarem-se com os brancos, com suas vestes e embarcações
vistosas, os índios acreditavam que eles viessem de um mundo superior
(dos deuses) e que, por isso, eles detivessem poderes mágicos.
-
ETC
Em resumo, espera-se que o aluno:
-
entenda bem a trama formulada por Caminha;
-
intervenha nela de modo relevante, antecedendo-a, interrompendo-a ou prolongando-a
-
faça valer, para isso, seus conhecimentos de jovem do fim do século
XX;
-
ressalte aspectos em que ele (narrador-personagem), índios e portugueses
se diferenciam.
TEMA C
Genericamente, o candidato pode adotar quatro caminhos:
a) pôr em questão o conteúdo das manchetes,
relativizando-o; em seguida, acrescentar um conjunto de fatos / dados positivos
a respeito do Brasil que sirvam de argumento para convencer o amigo de
que continua valendo a pena vir para o Brasil;
b) aceitar algumas manchetes como verdadeiras e considerar outras
discutíveis ou parciais, mostrando o "outro lado" delas; em seguida,
acrescentar um conjunto de fatos / dados positivos a respeito do Brasil
que sirvam de argumento para convencer o amigo de que continua valendo
a pena vir para o Brasil;
c) aceitar que há um conjunto de problemas reais, que
as manchetes resumem, mas acrescentar um conjunto de fatos / dados positivos
a respeito do Brasil que sirvam de argumento para convencer o amigo de
que continua valendo a pena vir para o Brasil;
d) relativizar os fatos negativos, atribuindo sua divulgação
a um certo viés sensacionalista do jornalismo, cada vez mais acentuado;
em seguida, acrescentar um conjunto de fatos / dados positivos a respeito
do Brasil que sirvam de argumento para convencer o amigo de que continua
valendo a pena vir para o Brasil;
Para relativizar as manchetes negativas, o candidato pode, por exemplo,
aceitar que:
-
é verdade que falta água e luz em muitas escolas, mas
que há outras muito bem aparelhadas, ou que há notícias
de mudança da política salarial dos professores;
-
há realmente problemas com a escolaridade, mas que capacidade
de discernir entre candidatos não é necessariamente um efeito
da escola, dado que estão em jogo interesses, por um lado, e há
outros meios de informar-se, hoje;
-
infelizmente, algumas doenças erradicadas até voltaram,
mas que mesmo assim outras continuam erradicadas. Se isto não nos
põe no Primeiro Mundo, nos põe em boa posição
no Terceiro. Nenhum país tem uma campanha de prevenção
à Aids tão aberta e clara como a do Brasil etc.;
-
25 milhões de pobres é efetivamente um número
alto, mas que é bom lembrar que somos 160 milh, e que muitos índices
têm melhorado, como a expectativa de vida;
-
deve haver mesmo muitos analfabetos funcionais, mas que isso tem
a ver com a inexistência de uma necessidade forte de escolarização
do trabalhador, mas que isso terá que mudar, que mesmo empresas
estão se interessando pela questão, etc.;
-
muitas meninas engravidam, é verdade, e não há
como negar que isso seja um problema, talvez um dos efeitos da ignorância.
Mas talvez o aumento no número de partos signifique uma diminuição
do de abortos ou indique uma cultura da liberdade do corpo mais acentuada
aqui que em outros países; ou que o dado pode espantar mais a europeus
do que a brasileiros; afinal, em muitos países da Europa considera-se
muito mais problemático ter um filho do que no Brasil.
No que se refere a elencar fatos / dados positivos, espera-se que o candidato
seja capaz, pelo menos, de considerar os clássicos fatores de "orgulho"
do país:
-
povo jovem, alegre, criativo, trabalhador, menos preconceituoso e mais
pacífico que a média;
-
extensão territorial, ausência de terremotos e tufões,
clima favorável a muitas culturas e ao turismo;
-
oportunidades numerosas que um país jovem oferece - está
quase tudo para ser feito;
-
há aqui muitas coisas modernas, que o imaginário do
Primeiro Mundo não supõe que existam aqui: enormes cidades,
pesquisas, telecomunicações, indústria, etc
-
esse não é apenas o país do Carnaval e do Futebol,
ou do Pelé e do café: foi-se esse tempo...
-
além disso, as instituições funcionam, há garantia
de liberdade, democracia, etc.
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