Unicamp - Vestibular Nacional 1996
Prova de Redação

REDAÇÃO

ORIENTAÇÃO GERAL

Há três temas sugeridos para redação. Você deve escolher um deles e desenvolvê-lo no tipo de texto indicado, segundo as instruções que se encontram na orientação dada para cada tema. Assinale no alto da página de resposta o tema escolhido.

Coletânea de textos:

ATENÇÃO: SE VOCÊ NÃO SEGUIR AS INSTRUÇÕES RELATIVAS AO TEMA QUE ESCOLHEU, SUA REDAÇÃO SERÁ ANULADA.




TEMA A

Apresentado freqüentemente como a maior invenção tecnológica desde a descoberta dos tipos móveis de Gutenberg, o computador está alterando os hábitos culturais da humanidade. Os experts afirmam que a mudança será inevitável e radical, alcançando todos os segmentos das várias sociedades. Como em todos os casos de rápido avanço tecnológico, a mudança é motivo de intensa discussão.

Os textos transcritos a seguir inserem-se nessa discussão: alguns descrevem e avaliam o mundo novo a que o computador dá acesso; outros discutem as relações entre ciência e consciência, entre tecnologia e sabedoria.

Com apoio nesses textos, você deve redigir uma dissertação sobre o seguinte tema:

“Mudanças provocadas pela informatização: o mundo será melhor com elas?”


1. “Tecnologia e nostalgia são os irmãos gêmeos da imaginação moderna” acredita o professor de ciência da computação da Universidade de Yale, David Gelernter. “A primeira nos atormenta com o possível milagre que está por vir, a outra nos compele a chorar pelo que passou. Parece que jamais nos reconciliamos nesse embate. Aprendemos e reaprendemos que a tecnologia, sozinha, é incapaz de nos fazer felizes. Ela nem sequer consegue preencher nossas expectativas mais esperançosas. E aprendemos e reaprendemos que o passado nunca foi tão simples e idílico como nas nossas memórias. A cultura digital nos encontra nesse dilema, por prometer mundos novos, provocar controvérsias ferozes e inspirar um olhar para trás.
(“A máquina e o homem”, Computador - o micro chega às casas, Número especial de Veja, dezembro de 1995)


2. Se é fácil gostar de um computador, parece mais complicado saber para que se deve comprar um. (...) Descobriu-se que, em muitos casos, se trata de um produto em busca de uma necessidade. (...) A imensa maioria liga o micro para duas atividades distintas. A pesquisa apurou que 86% dos consumidores usam o computador para jogar videogame e 84% fazem alguma tarefa do escritório. (...) A maior parte desses trabalhos poderia ser feita com o auxílio de uma máquina de escrever.
(Darlene Menconi, “O mais novo membro da família”, Veja, 21 /07/95)


3. Dentro de uma ambulância, um paciente está em estado grave. Perto dele, um médico jovem, com pouca experiência neste tipo de atendimento, tenta dar os primeiros socorros. Mas a situação se complica. Neste momento, muito longe daquele local, entra na operação de socorro um outro médico, profissional bem mais experiente, capaz de comandar com tranquilidade uma situação como essa. Ele está no hospital para onde o paciente está sendo levado. Em sua sala, recebe todas as informações sobre os sinais vitais da vítima (pulsação, batimento cardíaco, pressão arterial, respiração). Esse médico também vê, por uma tela de televisão, o próprio paciente. É como se ele estivesse lá. (...) Situações como essa, que a princípio parecem ser privilégio do futuro, poderão ocorrer mais breve do que se imagina. Elas estão previstas para acontecer no hospital virtual, um projeto inovador que acaba de ser desenvolvido pela Universidade de São Paulo. (...) Utilizam-se recursos da informática, da multimídia e da realidade virtual para montar um verdadeiro hospital, mas no computador.
(Cilene Pereira, “Médico virtual”, Isto É, 6/12/95)


4. “Os microcomputadores já alteraram nossos hábitos de trabalho, mas ainda não mudaram muita coisa no cotidiano. Quando as poderosas máquinas de informação de amanhã estiverem conectadas pela estrada da informação, teremos acesso a pessoas, máquinas, entretenimento e serviços de informação. Você poderá manter contato com qualquer pessoa, em qualquer lugar, que queira manter contato com você: bisbilhotar em milhares de bibliotecas, de dia ou de noite. A máquina fotográfica que você perdeu ou lhe roubaram mandará uma mensagem para você dizendo exatamente onde se encontra, mesmo que seja numa outra cidade. Você poderá atender o interfone do apartamento no escritório e responder a toda a sua correspondência de casa. Informações que hoje são difíceis de achar, serão fáceis de encontrar.(...) Os computadores com interfaces sociais (a conexão entre o computador e quem o usa) calcularão como apresentar informação para que ela seja sob medida para um determinado usuário.(...) Se o computador souber que o estudante gosta de ficção histórica, histórias de guerra, música folclórica ou esporte, talvez tente usar esse conhecimento para apresentar as informações.
(Bill Gates, A estrada do Futuro)


5. Não vou cometer aqui a injustiça de supor que o recém-lançado livro de Bill Gates, A estrada do Futuro, só contenha tolices. Mas não há como fugir à evidência de que o futuro por ele prognosticado é no mínimo decepcionante e tolo. (...) Na sua área específica de atividade, o presidente da Microsoft é um dos luminares do tipo de inteligência tecnológica à qual estão hoje confiados os destinos do mundo em que, bom ou mau grado nosso, estamos vivendo. O que caracteriza esse tipo de inteligência é a arrogância da especialização. Por entre as barras de suas respectivas jaulas profissionais, os tecnólogos mais ambiciosos pretendem não só abarcar teoricamente a realidade como sobre ela atuar em nível pragmático. Parece ser esse também o caso de Bill Gates. (...) Alguns dos prodígios arrolados pela futurologia de Gates podem dar uma idéia do que ele entende tanto por cultura quanto por radicalidade: "Exiba todas as matérias do mundo inteiro sobre o primeiro bebê de proveta" ou então "Liste todas as lojas que vendem uma ou mais marcas de comida de cachorro e que possam entregar uma caixa em minha casa dentro de 60 minutos".
(José Paulo Paes, “Admirável mundo novo”, Folha de S.Paulo, 10/12/95)


6. Você pode viver muito bem hoje sem um telefone. Mas por mais isolado que alguém se sinta, porém, haverá um telefone cada vez mais perto. Da mesma forma, o mundo está sendo tocado com a ajuda dos computadores de um modo mais intenso a cada dia que passa. Escapar deles vai ser sempre uma saída artificial. Não é como adotar um estilo de vida mais ou menos saudável. Viver sem computador será uma decisão muito mais radical do que deixar de comer carne vermelha. (...) Alguém que decida manter-se à margem da vida digital não pode ser considerado moderno. Participar do mundo das redes de computadores e ser uma pessoa, digamos, digitalmente letrada é uma experiência diferente e moderna. Negar isso é bobagem. É como negar o sexo sem tê-lo experimentado. A experiência digital é como a sexual, não pode ser satisfatoriamente explicada por aqueles que apenas leram sobre ela.
(“O computador liberta”, entrevista de Nicholas Negroponte a Eurípedes Alcântara, Veja, 26/07/95)


7. Veja- O que o desenvolvimento tecnológico reserva para os trabalhadores, o desemprego? Przeworski - A redução de postos de trabalho na indústria é um fenômeno que veio para ficar. A produtividade vem aumentando numa velocidade espantosa. Hoje em dia, um único japonês é capaz de realizar o mesmo trabalho que, há 100 anos, requeria a presença de 26 japoneses. Na Suécia, essa proporção é de um para 22. Nas próximas duas décadas, o PIB per capita do Brasil será o dobro do que é hoje. Ou seja: vamos produzir mais, consumir mais e trabalhar menos. Isso não é uma coisa ruim. O problema é de outra natureza (...) É evitar que cada vez menos gente trabalhe, e não que os trabalhadores tenham jornadas mais curtas e mais tempo livre. Claro que, com isso, o sistema de proteção aos pobres precisa ser bem organizado. Do contrário, no futuro haverá países onde só aumenta o número de excluídos, e isso terá conseqüências sociais. O fato é que a humanidade tem, aqui e agora, a oportunidade de consumir mais e trabalhar menos. Isso não é má notícia. O problema, portanto, é como cada Estado vai organizar-se diante dessa nova realidade, e como isso será dividido socialmente.
(“O futuro será melhor”, Entrevista com Adam Przeworski, Veja, 18/10/95)


8. Já havíamos demonstrado que de nada nos serviria todo o ouro do mundo sem trabalho de nossa parte e sem primeiro cavarmos a terra. Desse modo, ainda que pudéssemos transformar pedra em ouro, ser-nos-ia de todo inútil esse conhecimento. Pois, se não soubéssemos também servir-nos do ouro, não nos seria ele de nenhuma utilidade, conforme ficou demonstrado. (...) O mesmo se dá, ao que parece, com os demais conhecimentos, que não nos são de nenhuma utilidade: a arte das finanças, a de curar, ou qualquer outra arte que saiba tão-somente produzir alguma coisa, mas careça do conhecimento de utilizar-se do seu produto. (...) Ainda que houvesse uma arte que deixasse os homens imortais, sem o conhecimento de como usarmos essa imortalidade, parece que nem essa mesmo poderia ser-nos de vantagem, se for lícito concluir do que admitimos antes.
(Platão, Diálogos - Eutidemo, 288-289)


9. Antes a cabeça bem feita do que bem cheia.
(Montaigne, Ensaios)






TEMA B


No dia 13 de janeiro de 1996, uma jovem estudante, ao entrar em um ônibus urbano, percebe que alguém havia esquecido um livro sobre o banco. Era um livro de poesias de Ezra Pound. Curiosa, começa a folheá-lo e percebe que um dos poemas estava marcado:
Despedindo-se de um amigo

Montes azuis ao norte das muralhas,
Rio branco serpenteando em torno deles;
É aqui que devemos separar-nos
E prosseguir por milhares e milhares de léguas
De capim morto.

A mente é ampla nuvem flutuante,
O crepúsculo é a despedida de velhas amizades
Curvadas sobre mãos dadas na distância
Nossos cavalos rincham, um ao outro,
enquanto nos separamos.

RIHAKU

Impressionada com o poema, começa a se interessar pelo dono do livro. Ao virar as páginas, encontra este bilhete:

São Paulo, 13 de janeiro de 1996
Meu amigo
Também estou preocupado há tempo com suas reações. É bem verdade que seus problemas são muitos, e graves,mas sua morte certamente não é a melhor solução. Entendo que você esteja cansado mas ainda há vínculos que o prendem à vida: pense nas mulheres que o amaram e naquela que ainda o ama. Pense nos seus amigos e na falta que você fará a eles - e principalmente a mim.

Pelo amor de Deus, não se precipite. Venha conversar comigo hoje, às quatro horas, em minha casa.
Fausto


Tendo lido o poema e o bilhete, a jovem estudante começa a imaginar: quem teria esquecido o livro? quem seria o autor do bilhete? quais seriam os problemas a que o bilhete se refere? teriam relação com as passagens sublinhadas no poema? teria o bilhete chegado às mãos do destinatário? teria surtido algum efeito? há alguma coisa que eu possa fazer?

Redija uma narrativa contando o que a estudante pensa e faz a partir desse momento.

INSTRUÇÕES:

Sua narrativa deverá ser em 1a pessoa. O narrador deverá ser obrigatoriamente a jovem estudante. É preciso construir duas personagens - os dois amigos - utilizando elementos do bilhete e do poema. Se achar necessário, você pode construir outras personagens.




TEMA C


Durante o ano de 1995, intensificou-se no Rio de Janeiro a onda de violência e seqüestros. Uma das respostas a essa onda de violência foi a Manifestação Reage Rio, realizada no dia 28 de novembro como um grande ato público a favor da paz. Na semana seguinte, em artigo publicado na página 2 da Folha de S. Paulo, o jornalista Josias de Souza escreveu a esse propósito:

“O Rio que paga a carreirinha de coca é o mesmo Rio que foge do seqüestro, eis a verdade. Diz-se que a violência vem do morro. Bobagem, tolice. Como a passeata do Reage Rio, a violência também é obra do carioca bem-posto. (...) Dois dos objetivos palpáveis do Reage Rio são o reaparelhamento da polícia e a urbanização das favelas. Erraram de alvo. Estão mirando na direção errada. (...) Pouco adianta dar novos 38 à polícia se não for interrompido o fluxo de dinheiro que garante os AR-15 do tráfico.”
( “O Rio cheira e berra”, 5/12/95).

Essa análise é polêmica e você deverá levá-la em consideração ao optar por uma das duas tarefas abaixo:



Todos os textos transcritos a seguir foram publicados na imprensa, alguns dias depois da Manifestação Reage Rio, e são relevantes para que você possa formar uma opinião. Ao escrever sua carta, considere os argumentos expostos nessa coletânea e outros que você achar pertinentes.

1. Cerca de 70 mil pessoas participaram da manifestação Reage Rio, um apelo para que acabem a violência e os seqüestros no Rio de Janeiro. Os organizadores, entre eles o Movimento Viva Rio, esperavam 1 milhão de pessoas. Mas a chuva atrapalhou. A caminhada, na Avenida Rio Branco, reuniu representantes de toda a sociedade civil. “Foi um sucesso”, disse o sociólogo Herbert de Souza, o “Betinho”. O governador Marcello Alencar e o prefeito César Maia não participaram. Nos últimos nove meses, a polícia registrou 6.664 assassinatos no Rio.
(Clipping do Estadão, Destaques de Novembro/95)


2. “Foi um extraordinário marco a marcha no Rio, onde, pela primeira vez, a politização da violência ganhou ares populares. Mesquinho e subdesenvolvido restringir o debate ao número de participantes. Mais importante, muito mais, foi o debate que suscitou e a sensação de que o combate ao crime não é apenas um problema oficial.”
(Gilberto Dimenstein, “Chute no Saco”, Folha de S. Paulo, 10/12/95)


3. “Houve uma grande ausência na passeata de terça feira passada no Rio de Janeiro. Faltou uma palavra mágica, aquela que daria sentido a toda aquela movimentação. (...) A palavra que faltou é: DROGAS. A passeata era contra a violência. Ora, qual a causa magna da violência no Rio, a causa das causas? Resposta: drogas. (...) A originalidade do Rio está em ter realizado uma passeata contra a escalada do crime, a incrível escalada que, sob o impulso e o império da droga, ocorre em várias partes, sem dar nome ao problema. E não se deu o nome porque, se se desse, não haveria passeata.(...) O que aconteceria se se anunciasse uma passeata contra as drogas? Muitos não iriam. No mínimo para não parecer careta, ou seja, ridículo. Mas também porque muita gente não é contra - é a favor das drogas. (...) Sendo assim, como fazer uma passeata contra a droga? Melhor é fazê-la contra a ‘violência’ e pela ‘paz’. Quem pode ser contra a paz?”
(Roberto Pompeu de Toledo, “Faltou dizer por que não se tem paz”, Veja, 6/12/95)


4. “O lado bom do Rio é a natureza fantástica, o povo que é alegre e descontraído, aceita e vive a vida como ela é. O lado ruim é a miséria que se alastra por toda a cidade, exigindo uma solução, com nossos irmãos trepados em barracos pobres, olhando a cidade dos ricos como uma miragem a seus pés. E a solução não está nas brigas políticas de superfície, mas na revolução; a revolução que não pode ser feita agora. (...)
Fui à passeata Reage Rio porque me convidaram. Queriam que fosse num carro, mas preferi andar no meio das pessoas. A caminhada não foi propriamente um protesto mas uma advertência sobre o que está acontecendo, sem solução. Enfim, o problema da miséria é grave e uma pessoa com um pouco de sensibilidade não pode se sentir feliz diante disto.”
(Silvio Cioffi, “Só revolução resolve a miséria, diz Niemeyer”, Folha de S. Paulo, 21/12/1995)


5. “Quem não acredita na força do pensamento positivo ganhou na quinta-feira, 30, um bom motivo para mudar de idéia. Menos de 48 horas depois da Caminhada pela Paz, que parou a cidade e mobilizou milhares de pessoas contra a violência - 60 mil, segundo a polícia, e 150, segundo os organizadores -, foi resgatado o estudante Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira Filho, seqüestrado trinta e seis dias antes. (...) A mãe de Eduardo Eugênio elogiou a atuação da polícia mas dedicou especial gratidão aos participantes da caminhada.”
(Eliane Lobato, “Guerrinha pela paz”, Isto É, 6/12/95)


ATENÇÃO: AO ASSINAR A CARTA, USE APENAS AS INICIAIS DE SEU NOME.


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